O Mundo de Gelo e Fogo – George R. R. Martin; Elio M. García Jr; Linda Antonsson

omundodegeloefogoGeralmente não faço resenhas desse tipo de livro, que com frequência buscam apenas recontar o que já é bem conhecido e pouco acrescentam além de belos adornos para a estante, porém felizmente não foi este o caso e “O Mundo de Gelo e Fogo: A História Não Contada de Westeros da Guerra dos Tronos” vai muito além de ser meramente uma enciclopédia ou um livro de referências e expande, e muito, o já riquíssimo universo criado por George R. R. Martin.

Escrito como se fora uma obra originalmente composta por um meiste da Cidadela como presente para o então rei Robert Baratheon, o livro se propõe a compilar história do mundo de uma maneira simples e resumida, dando um enfoque especial a Westeros, desde a mítica Era da Aurora até a Rebelião de Robert Baratheon. Esse é um ponto importante já que o Meistre Yandel, o tal autor, é claramente bem simpático aos feitos e ao governo de Robert, afinal, o livro foi escrito para ele, muito embora [spoiler alert] devido a sua inesperada morte (e a de Joffrey) o livro acabe sendo dedicado a Tommen Baratheon, o seu herdeiro e atual rei de Westeros.

Trono de Ferro

A fantástica ilustração de Marc Simonetti do Trono de Ferro

Esse artifício, mais do que afastar a figura do narrador onisciente e promover uma maior imersão do leitor, também é algo que se aproxima muito da abordagem que o próprio Martin faz dentro da série, onde vemos a história através do ponto de vista dos personagens. Essa perspectiva sempre é limitada, tanto pela restrição da informação que eles têm acesso ou que conseguem interpretar dos fatos e episódios que tomam parte, quanto pelas suas visões pessoais, que são afetadas por fatores diversos como experiência, preconceito, adoração, etc. Não temos um panorama absoluto da história, fatos imutáveis ou pontos de vista confiáveis, apenas versões enviesadas de inúmeros personagens. Neste livro temos a visão de um erudito que se debruça sob o conhecimento prévio de fontes escritas de outros meistres e que usa como base o que foi escrito e é aceito por essa parte mais instruída da sociedade de Westeros, e mesmo que ainda se valha de algumas lendas e tradições sempre acaba deixando claro que estas não são fontes confiáveis e que provavelmente são apenas mitos criados por pessoas menos esclarecidas, tentando desmistificá-las e observar esses relatos sob uma ótica mais “realista”, ainda que o leitor tenha conhecimento que essas coisas ocorram ou estejam ocorrendo de fato dentro da série.

Falando sobre o conteúdo em si, ele é magnífico. O livro não só realça toda a solidez desse universo como também acrescenta e aprofunda ainda mais o mundo criado pelo Martin. Como o passar das Eras moldou os diversos povos e suas culturas, os mistérios perdidos nas areias do tempo, a ascensão e queda de reis e de famílias nobres, batalhas travadas ao longe dos milhares de anos de colonização, fundação das grandes Casas, descrição dos principais castelos, etc. Tudo é extremamente fascinante para quem é fã. Além disso, também adentra em acontecimentos que só foram arranhados de leve nos livros, como, por exemplo, a descrição dos acontecimentos que levaram à destruição das Casas Reyne e Tarbeck, conhecidas na série de livros devido à canção “As chuvas de Castamere”.

Robert Baratheon vs. Rhaegar Targaryen

Robert Baratheon X Rhaegar Targaryen, por Justin Sweet

Talvez o que mais chame a atenção são as informações sobre as terras de Essos e Sothoryos, pouco exploradas na série. Fora a possibilidade de se mostrar mais dos povos e culturas que vemos de leve nos livros, ainda temos a chance de ver algo bem diferente, como em vários momentos que lembram o terror de H.P. Lovecraft ou a pegada pulp de Sothoryos.

Vale dizer que apesar do subtítulo, obviamente escolhido pelo apelo comercial, o conteúdo pouco se prende a chamada “Guerra dos Tronos”, ainda que também guarde um espaço para explorar as suas origens, contudo a intenção é de realmente se aventurar mais pelo campo pouco explorado da rica história de Westeros e do mundo conhecido do que revisitar o que já é conhecido.

As ilustrações também são extraordinárias, produzidas por artistas bem conhecidos como Marc Simonetti, que fez as artes das capas brasileiras das Crônicas de Gelo e Fogo e de “O Cavaleiro dos Sete Reinos” e Ted Nasmith, famoso por seus trabalhos acerca das obras de J.R.R. Tolkien, além de outros nomes conhecidos, tanto por serem figuras carimbadas em trabalhos de fantasia, quanto por estamparem os calendários de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, como Michael Komarck e Magali Villeneuve. Vale a pena falar que não são poucas as ilustrações, chegam a ser tão comuns que há praticamente uma a cada duas páginas.

Vale dizer que os coautores, Elio García Jr. e Linda Antonsson, os fundadores do site Westeros.org, tiveram um papel muito mais relevante em escrever esse livro do que o próprio Martin, contudo, pela própria proposta de ter um caráter mais informativo do que ser um romance propriamente dito, não é algo que deixe o livro menos divertido ou o piore de alguma forma.

A minha única crítica fica pela falta de mapas de Essos, mas isso fica diluído em meio a tanta coisa primorosa.

Não preciso dizer muita coisa, vale muito a pena pra quem é fã. O livro é fantástico em todos os aspectos e só agrega com a adição de muita coisa nova, com informações que talvez possam ter alguma relevância futuramente para a história ou tão somente curiosidades deixadas de presente para os leitores que gostariam de ver mais desse cenário.

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