Portões de Fogo – Steven Pressfield

portoes_de_fogoA batalha das Termópilas tem sido celebrada desde a era clássica como um dos maiores exemplos de heroísmo e sacrifício altruísta de todos os tempos. Mais do que simplesmente exaltar a força e a bravura dos 300 espartanos e seus aliados théspios que lutaram até o ultimo homem para deter o avanço persa, essa resistência evoca todos os sentimentos mais nobres que guiaram esses guerreiros em direção à morte, renunciando de bom grado as suas próprias vidas para preservarem algo mais importante; a pátria, a liberdade e as vidas de seus familiares e compatriotas. Portões de Fogo consegue, com toda a intensidade que é merecida, transmitir da maneira mais formidável e adequada possível essa história de coragem, abnegação, perseverança, honra e obstinação. Peço a Apolo e as Musas que me ajudem a contar da melhor maneira possível o quão épica é esta fantástica obra.

A história é narrada após a batalha em si através de Xeones, um dos poucos sobreviventes do campo de batalha que, ainda que gravemente ferido, é resgatado pelos soldados persas a mando do rei Xerxes, que desejava saber mais sobre esse exército que tão bravamente resistiu a sua força de ataque, ficando a cargo de Gobartes, o historiador de Xerxes, a tarefa de traduzir e registrar as palavras do cativo grego.

Xeones não é um espartano, ele é um perieco (ou perioikoi, em grego), um cidadão livre, mas sem direitos políticos, e que por livre e espontânea vontade decidiu servir aos espartanos depois de que sua cidade, Astacus, fora saqueada e queimada pelos argivos, já que uma vez que já não tinha mais uma pátria, ele iria então se juntar a aquela polis que considerava que formava os mais valorosos homens em toda Hélade.

A narrativa empregada pelo autor segue essa proposta de apresentar eventos que Xeones vai relembrando de seu passado, tecendo acontecimentos que de algum modo são relevantes para o seu relato, fornecendo detalhes dos costumes e do funcionamento da sociedade e do pensamento espartano, da estrutura rígida da educação a que são submetidos seus cidadãos, mas, sobretudo, da vida daqueles personagens que participaram da resistência, culminando na intensa e emocionante resistência final no desfiladeiro das Termópilas.

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A famosa falange espartana em uma cena do filme “300” (2006)

Essa escolha do autor de um personagem que não é espartano, mas que abraçou sua cultura provou ser muito feliz, tanto por descartar essa imagem semi-mítica dos guerreiros espartanos tão comumente explorada, como para colocar o narrador como uma espécie de guia para o leitor, apresentando e elucidando a mentalidade desses guerreiros, tornando mais fácil compreender as ações e o pensamento da época, bem como expressa uma visão mais emocional, voltada também para as relações humanas e não apenas uma exposição mais fria ou distanciada, ou baseada apenas no conflito em si. Esta é antes de tudo uma história sobre os personagens que participaram dessa batalha, e não apenas sobre a batalha que travaram.

“A guerra, não a paz, produz a virtude. A guerra, não a paz, purga o vício. A guerra, e a preparação para guerra, suscita tudo que é nobre e digno em um homem. Une-o a seus irmãos e os liga em uma amor altruísta, erradicando no cadinho da necessidade tudo que é vil e ignóbil. Ali, no moinho sagrado do assasínio, o homem mais vil pode buscar e encontrar essa parte de si mesmo, oculta sob a corrupção, que reluz intensa e virtuosa, digna de honra diante dos deuses. Não despreze a guerra, efebo, nem imagine que a misericórdia e a compaixão sejam virtudes superiores a andreia, à bravura viril”

Esse é um dos pontos altos desse livro, a forma que o autor apresenta os personagens. Pressfield não se limita a uma abordagem caricata de guerreiros brutos e impassíveis, máquinas de matar que unicamente só se importam com a guerra ou como guerreiros sobre-humanos, eles são iguais a todos os outros, não são indiferentes ao medo ou ao cansaço após as batalhas, o que os diferenciam dos demais são o treinamento rígido e sua disciplina férrea. Leônidas, por exemplo, facilmente se destaca quando aparece, sobretudo na sua eloquência ao falar da guerra e ao discursar com seus homens antes dos combates, instigando coragem pela segurança de suas palavras e pelo exemplo. É interessante como um personagem que se espera se sobressair em cenas de batalha brilha mesmo nesses momentos. Essa sua versão não decepciona, na verdade é uma das melhores encarnações do rei de Esparta. Além dele também temos diversos personagens fantásticos: Dienekes, Alexandros, Polynikes, Dekton, Suícidio, Arete, e outros tantos. Todos são interessantes, até mesmo Xerxes e os demais soldados do exército persa não são vistos como desprovidos de virtudes.

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As batalhas também são fantásticas, ainda que só ganhem força mesmo na parte final do livro. Elas encenam bem a ferocidade do campo de combate, ao mesmo tempo ressaltando o caos e a carnificina dos embates travados corpo a corpo, quanto na organização e disciplina da falange espartana. O autor soube muito bem passar o sentimento de falta de espaço, do sufoco de um combate entre duas massas de guerreiros se chocando em uma área limitada onde o individuo se dilui e a unidade que realmente se sobressai é aquela que vem da coesão dos soldados em um único organismo, construído através da prática, de um uma rotina de treinamento tão replicada a ponto de virar um hábito, algo automático. Fora que Pressfield também faz um trabalho impecável ao compor habilmente todo o caráter psicológico de um soldado, talvez por experiência própria, já que ele serviu servido no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA.

“O inimigo nos crê exaustos e não vê a hora de nos despachar para o mundo dos espíritos, na investida violenta de seus soldados lépidos e descansados. O que ele não sabe é que nós já estamos lá. Atravessamos  a linha horas atrás. – Apontou para o estreito e seu tapete de horror. – Já estamos no inferno. É nossa casa!”

Outro ponto digno de nota é o que o livro enfoca bastante o papel dos aliados dos espartanos nos embates contra as forças persas, afinal, ainda que os espartanos fossem os mais hábeis em combate em toda Hélade, as forças aliadas também tiveram um papel importante em deter os persas nas Termópilas e lutaram tão bravamente e se sacrificaram tanto quanto qualquer filho de Esparta.

Há muito tempo não lia um livro tão bom. A escrita é fantástica e envolvente e a ambientação é soberba, tanto na fidelidade e realismo histórico como nas poderosas descrições, que vão desde situações cotidianas ao treinamento árduo do agoge, que fez dos espartanos o exército mais temível da antiguidade clássica. Portões de Fogo é definitivamente um livro épico, uma história intensa, vívida e emocionante à altura do memorável e heroico feito daqueles 300 espartanos e seus aliados.

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