Rebelde (As Crônicas de Starbuck Vol.1) – Bernard Cornwell

RebeldeBernard Cornwell é mais conhecido aqui no Brasil pelos seus livros ambientados na Idade Média, e sem sombra de dúvidas As Crônicas de Artur, As Crônicas Saxônicas e A Busca do Graal são as séries mais conhecidas do autor pelo público brasileiro. Curiosamente As Aventuras de Sharpe, a mais extensa delas, já passando de mais de 20 volumes, parece não ter o mesmo apelo, talvez justamente pelo intimidante número de publicações ou pelo fato de se passar durante as Guerras Napoleônicas, substituindo as espadas, machados e arcos por baionetas, rifles e canhões. Fato é que não é nem de longe esses livros ambientados na Idade Contemporânea estejam tão vinculados com a imagem do autor aqui no Brasil quanto suas outras obras, muito embora o desespero dos campos bombardeados por peças de artilharia, o caos das saraivadas de tiros e a coragem necessária para permanecer firme durante essas cruéis e viscerais batalhas combinem perfeitamente com o estilo do autor britânico.

E se Sharpe já é um pouco esquecido, As Crônicas de Starbuck, série cujo cenário é a Guerra de Secessão americana, é praticamente desconhecida.

Rebelde conta a história de Nathaniel Starbuck, um ianque que acaba entrando para as fileiras do exército Confederado. Nathaniel se vê nessa situação após largar seus estudos teológicos no seminário em Yale por conta de uma paixão arrebatadora por uma atriz itinerante, que acaba o convencendo o rapaz a roubar o seu patrão e a fugir com ela para a Virgínia. O problema é que ela passa a perna no rapaz, fica com o dinheiro e o abandona. Nate, sem ter coragem de voltar para casa ou para o seminário, decide seguir para a cidade de Richmond, onde vive a família de seu melhor amigo, o que provou não ser a melhor das ideias, visto que Richmond era justamente a capital dos Estados Confederados da América, ou seja, o pior lugar para um nortista estar, ainda mais por chegar em um momento em que já eram conhecidas as notícias da tomada do Fort Sumter, o estopim para a deflagração da guerra civil.

Reconhecido como um nortista pelo povo da cidade, Starbuck é salvo da multidão furiosa por Washington Faulconer, o pai de seu amigo e um dos mais ricos donos de terras da Virgínia. Agradecido e sem ter pra onde ir, Nate se coloca aos serviços que Faulconer, que formava um regimento próprio para lutar contra os ianques.

Bernard Cornwel, que já mora muito tempo nos Estados Unidos já escreveu livros sobre batalhas travadas em solo americano, já resenhei aqui O Forte, uma obra que se passa na época da Guerra de Independência e que gostei bastante, muito embora Rebelde tenha sido escrito quase 20 anos antes. Pra mim, portanto, não seria novidade ou estranharia esse cenário, mas o que me atraiu foi a curiosa escolha do autor por retratar o conflito pelo ponto de vista do lado perdedor. Isso o possibilitou adicionar outras questões além da escravidão, que foi a principal causa da guerra civil, porém os valores políticos, como uma busca de uma maior autonomia e poder frente aos estados do norte, junto com um sentimento de “nacionalismo” sulista, foram tão preponderantes para a guerra quanto o fator dos valores morais do republicanismo americano.

Esperava coisas muito boas, mas achei o livro bem previsível e raso, não é à toa que As Crônicas de Starbuck sejam tão facilmente esquecidas quando se fala de Bernard Cornwell.  Até mesmo a escrita do autor, em geral um dos seus pontos positivos, dessa vez foi bem insípida, não houve aquele deslumbramento que costuma haver com suas descrições do cotidiano e dos cenários. A primeira metade é bem chata e literalmente nada acontece de relevante, e tudo antes da batalha é bem esquecível e pouco atraente, na verdade beira o entediante em várias partes, só passa a ter ação mesmo na parte final e mesmo aí não há uma emoção mais intensa em relação ao protagonista.

Vale dizer que de todos os protagonistas criados pelo autor Nathaniel Starbuck é de longe o mais desinteressante.  O papel dele dentro durante a história é mais por “estar lá” do que participar de fato, você nem sentiria falta dele ali, fora que as razões do personagem para lutar uma guerra são bem rasas. Aliás, os personagens em geral são planos e beiram o clichê, fora que a evolução deles é basicamente uma mudança brusca de personalidade.

O que muito me desagradou também foi o fato de diversas situações acontecerem ou serem resolvidas por conveniência. Só acontecem porque precisam ocorrer e pronto, não tem um desenvolvimento melhor ou mais criativo. Outro ponto chato, que já mencionei em outra resenha, é que o Cornwell é bem repetitivo em certos temas, em seus personagens, e na própria insistência em reforçar algum ponto; em outras obras é o exagero em mencionar os músculos dos arqueiros, nesse volume o excesso recaí sobre como Nathaniel é um rebelde. Sério, ele não perde uma oportunidade para pontuar esse fato.

As coisas só começam a ficar mais interessantes no quarto final do livro com culminação da Batalha de Manassas, que é como de costume o lugar onde o autor mais se sobressai. É realmente bem escrita e repleta de descrições cinematográficas, mas não é uma boa coisa apenas o final do livro ser interessante e o meio ser uma barriga gigante de enrolação. É impossível não comparar com As Aventuras de Sharpe, que é uma série com seus livros bem mais equilibrados e mais intensos como história, e era de se esperar que Rebelde pudesse seguir a mesma pegada, já que o autor já havia publicado mais de uma dezena de livros sobre as batalhas que Richard Sharpe participou antes de se lançar no conflito entre ianques e confederados. Foi impossível não ver esse livro como algo que poderia ter sido muito melhor, mas que ficou devendo.

Se quiserem histórias com disparos de artilharia, com infantaria marchando, projeteis voando e a fumaça de pólvora tomando os campos de batalha, eu indico justamente As Aventuras de Sharpe, que apesar do assustador número de volumes escritos, são fechados em cada livro em campanhas militares diferentes, fora que não foram publicados em ordem cronológica, ou seja, são histórias fechadas em si e pode-se pegar qualquer um pra ler tanto aleatoriamente quanto em ordem que não se perde muita coisa. Pra finalizar tenho que deixar bem claro que esse livro não é uma versão americana de Sharpe, antes fosse, Rebelde é muito inferior.

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