Coração de Aço (Executores Vol.1) – Brandon Sanderson

CoraçãoDeAçoHistórias de super-heróis voltaram com tudo nos últimos anos. Antes relegados como um tipo de entretenimento menor, as narrativas envolvendo seres superpoderosos acabaram por conquistar outros públicos ao explorar temas mais complexos, e pouco a pouco os próprios quadrinhos romperam essa barreira da marginalização e conseguiram atingir um status de trabalhos artísticos relevantes, como uma poderosa forma de expressão tão válida e merecedora de apreço como qualquer outra. Ainda assim quadrinhos sempre foram algo de nicho.

Isso mudou muito quando essas narrativas migraram para outra mídia de massa, o cinema. O meio fez toda a diferença, ainda mais nessa época da massificação da chamada cultura pop, fazendo que esse tema fosse popular como nunca entre os mais diversos tipos de público. A história é importante, mas o canal em que ela é transmitida é tão importante quanto. Falo isso uma vez que tinha um enorme preconceito com esse tipo de conteúdo em livros, justamente por estar tão acostumado com essas outras mídias, o que me fez dar uma chance ao livro foi o autor com seu superpoder de escrever boas histórias e de algum jeito sempre surpreender o leitor.

“Eu já vi Coração de Aço sangrar.

E o verei sangrar de novo.”

Grandes poderes nem sempre trazem em grandes responsabilidades. Em Coração de Aço, Brandon Sanderson resolver tomar um caminho diferente e ao invés de expressar o que há de melhor em nós através de um ser superior, opta justamente pelo caminho oposto, explorando a corrupção que um grande poder pode trazer. No universo do livro aleatoriamente algumas pessoas passaram a adquirir superpoderes após o surgimento de uma misteriosa estrela nos céus, a qual chamaram de Calamidade, já que estas pessoas acabaram corrompidas pelos poderes obtidos. Essas pessoas ficaram conhecidos como Épicos.

Governos e a própria sociedade ruíram diante desses seres que travaram disputas por poder e estabeleceram domínios e leis próprias, subjulgando todos aqueles que ficavam em seu caminho. Poucos são aqueles que ainda têm alguma coragem de tentar fazer algo a respeito da situação, os únicos que ainda oferecem alguma resistência são os Executores, um grupo dedicado a caçar e eliminar Épicos. David Charleston, um jovem que presenciou a morte do pai nas mãos de Coração de Aço, o tirano de Nova Chicago e um Épico tido como virtualmente invencível, dedicou a vida a estudar os Épicos e as suas fraquezas a fim de se vingar e vê nos Executores a única forma de matar Coração de Aço. Para ser aceito no grupo David conta com uma carta na manga, ele foi o único a presenciar Coração de Aço em um estado de vulnerabilidade, o único que vira um Épico tido como invulnerável sangrar, e como bem já nos ensinou o major Dutch em “O Predador”: “ Se ele sangra, pode ser destruído.”

If-It-Bleeds

Não vou mentir, esse livro me decepcionou um pouco. Como de costume o universo é fantástico, muito detalhado e fascinante, além de ter uma premissa muito atrativa, no entanto a trama se arrasta por tempo demais e só na parte final que engrena e fica um pouco mais interessante. Por ser destinado a um publico mais novo já esperava uma linguagem mais simples e um roteiro menos elaborado, contudo isso só me frustrou ainda mais, pois o cenário poderia ser mais bem aproveitado se a história fosse conduzida através de personagens mais carismáticos.

Este é o grande pecado do livro, os personagens são em sua grande maioria insípidos e rasos, beirando o clichê, o que fatalmente prejudica outros pontos, como os diálogos pouco inspirados. Outro ponto que não funcionou pra mim foram as inúmeras metáforas de David, que deveriam ser engraçadinhas, mas ficaram forçadas, poderiam ficar de fora que não fariam diferença alguma. Até as reviravoltas, tão comuns nos trabalhos de Sanderson, foram mais previsíveis dessa vez, eu as vi chegando de longe e não me causaram surpresa, e até mesmo resolução final não foi das mais arrebatadoras, foi bem morna na verdade.

No entanto o livro também tem seus pontos positivos, a exemplo dos próprios Épicos, com seus superpoderes interessantes, mas o detalhe das fraquezas, que todos eles possuem, é o que mais me chamou a atenção, é uma coisa que abre muitas possibilidades e acrescenta muito a todo esse universo. A linguagem mais simples também tem seus méritos por ser mais acessível, mesmo desejando por algo mais bem desenvolvido, ela é em si bem divertida e cumpre bem o papel de entreter.

Uma coisa que chamou a atenção foi a estrutura, que é bem parecida com a de Mistborn. A insurreição de um grupo rebelde contra o poder mantido por um ser inabalável e implacável que mantém a população submissa e sem esperanças. Até mesmo a ambientação sombria, dessa vez causada por um Épico que mantém uma continua escuridão, remete um pouco ao cenário igualmente tenebroso de Scadrial com suas cinzas e brumas. Não pude de deixar de relacionar as duas obras, obviamente guardando as devidas proporções por conta das propostas de cada uma.

Outra coisa interessante são as homenagens que Sanderson prestou aos criadores de diversos heróis da Era de Ouro dos quadrinhos. São vários os referenciados nos nomes das ruas de Nova Chicago, como Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Superman, bem como William Moulton Marston, criador da Mulher Maravilha, Martin Nodell, o criador do Lanterna Verde e Bill Finger co-criador do Batman. Além deles temos ainda uma rua Gibbons, homenageando Dave Gibbons, conhecido por sua parceria com Alan Moore em Watchman e também em “Para o homem que tem tudo”, uma das histórias mais aclamadas do Homem de Aço, fora isso ainda temos o endereço onde David mora, no Largo Ditko, obviamente uma referencia ao co-criador do Homem-Aranha, Steve Ditko.

Há também o símbolo utilizado pelos Fiéis, um grupo que acredita que Épicos heróicos ainda surgirão para ajudar a humanidade, que é um S estilizado, provavelmente algo pra remeter ao Superman. Isso é algo bem curioso, já que Coração de Aço foi claramente feito para representar uma versão mais maligna e corrompida do próprio Homem de Aço, e isso só deixa a coisa toda bem interessante, tendo em vista que o Superman é em si um herói criado para representar o ser perfeito, um símbolo de alguém superior, tanto na questão dos seus poderes, como também alguém superior moralmente.

Apesar de tudo Coração de Aço ainda é um livro bem divertido e com um universo criativo que abre incontáveis possibilidades a se explorar nos próximos livros, tanto em relação aos Épicos, com seus poderes e fraquezas, quanto ao resto das cidades, e talvez também com outros grupos e personagens que ainda possam interagir com os Executores. Acredito que Sanderson ainda possa tirar alguns coelhos da cartola e entregar histórias mais intrigantes nos dois livros que compõem essa trilogia. Não é um dos melhores do autor, contudo, mesmo com todos esses problemas, ainda assim é um livro suficientemente competente pra deixar aquela vontade de ler os próximos volumes.

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