Carbono Alterado (Altered Carbon Vol.1) – Richard Morgan

Carbono_AlteradoHá cerca de um ano Altered Carbon estreava na Netflix. Baseada no livro de estreia do britânico Richard Morgan, a série era uma das grandes apostas da plataforma de streaming. Esteticamente competente e com conceitos sci-fi intrigantes o seriado é inicialmente interessante, mas perde o rumo em sua segunda metade e tudo o que era atrativo acaba sendo deixado de lado, dissipando-se em meio a escolhas narrativas duvidosas. Apesar dos pesares, o universo em si era bastante chamativo e como não raramente o material original é superior à adaptação eu fiquei suficientemente curioso em relação ao livro para conferir o quanto o seriado se desviou da proposta inicial do autor. Eu esperava que em sua mídia de origem essa história deveria ser boa, afinal de contas ela tinha tudo para ser muito boa. Pois bem, a minha decepção foi ainda maior dessa vez.

Carbono Alterado se passa no século XXV, em uma época em que a morte do corpo se tornou apenas um leve transtorno graças ao desenvolvimento tecnológico que agora permite digitalizar a consciência humana e baixá-la para um cartucho implantado na região cervical, desse modo se o cartucho permanecer intacto, mesmo que o corpo pereça, o seu “conteúdo” pode ser transferido para outro corpo, tornando a pessoa em questão virtualmente imortal.

A trama em si gira em torno de Takeshi Lev Kovacs, ex-membro do Corpo de Emisários da ONU, uma das mais temidas forças militares de elite dentro do espaço colonizado. Séculos após a sua última morte Kovacs é reencapado na Terra a mando do obscenamente rico e influente Laurens J. Bancroft, a fim investigar um assassinato, e a vítima não é outra se não o próprio Bancroft.

“[…] a Morte, aquela pobre e velha camponesa trabalhadora, curvada sobre sua foice, não é mais. Pobre Morte, não mais à altura das poderosas tecnologias de armazenamento e recuperação de dados que o carbono alterado reuniu contra ela. Antes vivíamos aterrorizados com a sua chegada. Agora flertamos ultrajantemente com sua dignidade sóbria, e seres assim não vão nem deixá-la usar a entrada dos empregados.”

A princípio essa mescla entre esses elementos de ficção científica que carregam questionamentos sobre identidade e a própria moralidade do uso dessa tecnologia, além das suas implicações sociais e religiosas, junto com ingredientes de um bom thriller policial, até formam uma boa combinação, mas esses elementos acabam sendo diluídos diante de uma história pouco inspirada. Aliás, justamente na parte da investigação é que a trama mais se perde, entregando um enredo arrastado, com diálogos vazios e forçados.

Há uma verborragia desnecessária nos monólogos do personagem principal, sempre repletos de figuras de linguagem que deixam a coisa toda apenas mais confusa e cansativa, ainda mais por se alternar com descrições lacônicas, o que de certo modo seria mais adequado ao Kovacs, relatando a situação de uma maneira mais fria e analítica, mas que acaba ficando estranho ao oscilar entre esse tipo de narração com todos esses devaneios e divagações extremamente maçantes e supérfluas.

A história ser narrada em primeira pessoa mais atrapalha do que ajuda, e como se não bastante esses diálogos fracos e narrativa enfadonha, o próprio Takeshi Kovacs, os olhos pelos quais nos vemos essa história, é um personagem absolutamente sem carisma algum. O autor tentou forçar demais o arquétipo do detetive frio, do anti-herói solitário que vive à margem da sociedade e a vê de uma maneira cínica e pessimista, mas no fim das contas só o deixou extremamente apático, genérico e desinteressante. Não há apego algum ao personagem durante o livro, você simplesmente não se importa com ele, e isso pode ser estendido a todos os outros personagens.

Kovacs

Joel Kinnaman como Takeshi Kovacs/Elias Ryke na adaptação da Netflix

Como também pode ser dito a respeito de tudo o mais nessa história, ele poderia ter sido bem mais interessante se fosse mais bem trabalhado, afinal Kovacs é um pária, um alienígena tentando absorver a cultura local. O próprio treinamento dele para se adaptar a qualquer capa poderia ter tido um pouco mais de espaço dentro da trama, o que diluiria um pouco esse problema, mas por ficar tão preso a essa identidade estereotipada do típico protagonista cyberpunk o personagem não consegue ter uma personalidade mais marcante. Isso chega a ser irônico em uma obra que fala tanto sobre a identidade em um universo onde se vestem rostos como se troca de roupas, poderia até ser proposital, mas a impressão que fica é que o protagonista é assim apenas para seguir esse arquétipo. Como uma personagem mesmo o coloca durante o livro “Sempre o mesmo Kovacs. Cheio de som e fúria, tudo sem significado. Niilismo romântico.”.

Em relação à comparação com sua adaptação, surpreendentemente a Netflix conseguiu fazer algo em geral superior ao material original, sendo infeliz mesmo na adição de algumas subtramas que deixaram a série mais arrastada do que deveria, a exemplo da família Elliott, e se perdeu mesmo com o desenrolar do enredo segunda metade, mas conseguiu captar o clima que a série deveria ter e explorou alguns pontos até mais profundamente que o livro.

Altered_Carbon

Além disso os personagens, mesmo seguindo essa linha clichê do livro, em sua maioria são menos insípidos, tirando a Reileen Kawahara, uma das poucas coisas do material original que consegue ser bem melhor que a adaptação, mas por outro lado o “hotel Hendrix” é de muitas maneiras inferior à sua contraparte na série, o hotel “The Raven”, que personificado na figura de Poe foi de longe o melhor personagem da série.

O livro todo parece uma série de boas ideias jogadas em uma história mal executada, esperando que somente isso fosse o suficiente para manter essa narrativa interessante, mas que no fim das contas deixa tudo mais confuso e sem estabelecer uma real conexão com o leitor. Os conceitos encantam e o enredo em si até que consegue ser razoável, mas peca com uma narrativa fraca, com diálogos ruins e com personagens totalmente esquecíveis. Não é bem um livro ruim, mas não consegue em nenhum momento sair do limbo do mediano.

Esperei demais e por isso me decepcionei, mas pensando bem até daria uma segunda chance e encararia a continuação, que poderia compensar essas falhas e traduzir de fato todos esses conceitos incríveis em uma narrativa mais bem trabalhada, contudo, dessa vez certamente não vou criar muitas expectativas, infelizmente.

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