Mistborn: O Herói das Eras – Brandon Sanderson

O_heroi_das_erasO mundo vive à beira da destruição iminente desde que Vin libertou Ruína do Poço da Ascensão. Terremotos cada vez mais frequentes assolam a terra, as cinzas caem em maior profusão, cobrindo o solo e matando as plantas, e mesmo as brumas, que antes só apareciam à noite, agora surgem durante o dia, matando aleatoriamente as pessoas. Essa força consciente parece ser irrefreável e o fim de tudo aparenta ser inevitável, no entanto, o antigo bando de Kelsier ainda acredita que Ruína pode ser derrotada, e as pistas para detê-la podem se encontrar nos últimos depósitos deixados pelo Senhor Soberano que se encontram nas cidades de Fadrex e Urteau.

Foi uma jornada intensa através de uma história finamente desenvolvida, lapidada com a maestria para tornar essa narrativa tão consistente, surpreendente e memorável através de três livros igualmente fantásticos. Brandon Sanderson é um autor excepcional, e ao chegar ao final desse ciclo só posso ficar admirado com a composição sublime que foi a série.

Tudo é bem amarrado sem deixar pontas soltas, os relatos no início dos capítulos não funcionam apenas como uma ferramenta narrativa para entregar fragmentos desse grande quebra-cabeça que pouco a pouco vai sendo revelado ao leitor, ganhando outro significado depois que se tem a visão completa da história, geralmente com mais das quase infindáveis reviravoltas de Sanderson, mas também ampliam em muito esse universo, preenchendo as lacunas deixadas e concedendo algumas informações complementares as que são reveladas durante a história, mostrando como o autor se preocupou com cada detalhe para fundamentar  de uma forma bem consistente o funcionamento desse mundo, desde o motivo por trás da criação dos inquisidores, kandra e koloss, até a formulação da estrutura social, da magia e o estado em que o planeta se encontra. É admirável o quanto todo esse universo é intrincado e coeso.

É fácil demais para as pessoas caracterizarem Ruína como simplesmente uma força de destruição. Não; pense em Ruína como decadência inteligente. Não apenas caos, mas uma força que buscava uma maneira racional — e perigosa — de decompor tudo a suas formas mais básicas.

Ruína era capaz de planejar e tramar cuidadosamente, sabendo que, se construísse uma coisa, poderia usá-la para derrubar duas outras. A natureza do mundo opera de forma que, quando criamos algo, não raro destruímos outra coisa no processo.” 

A própria mitologia de Scadrial, o planeta onde essa história se passa, foi muito bem elaborada, não apenas dentro do aspecto metafísico da personificação de forças opostas, que são também complementares, algo comum ao campo da fantasia e de diversas religiões do nosso mundo (bem como uma representatividade da nossa psique, a exemplo de nossos instintos e valores morais), como também no nascimento de uma nova religião, a Igreja do Sobrevivente, e as cisões que vão se formando pelas dissidências e entendimentos diversos, fora todas as outras crenças que Sazed estudou que enfocavam em outros tantos aspectos diversos. A própria forma que o Senhor Soberano estabeleceu sua “religião”, também é bem interessante e tem um propósito bem crível dentro desse cenário, mais uma vez os a atenção aos detalhes são o que fazem toda a diferença e deixam esse universo tão rico.

Além da Alomancia e da Feruquemia, somos apresentados a mais um novo poder, a Hemalurgia, formando as chamadas “Três Artes Metálicas. A Hemalurgia é algo muito relevante para a trama, portanto, vou evitar entrar em mais detalhes, porém tenho que tecer algumas palavras sobre a magia em si no mundo de Sanderson.  Se existe algo que o autor seja especialista é em criar sistemas complexos de magia, sempre obedecendo a leis e regras, de fato, a própria magia é uma das partes mais importantes em seus trabalhos, e uma das que mais chama a atenção. O criativo sistema de magia de retirar os poderes dos metais, algo que ainda preserva uma aura fantástica, que fica mais evidente nesse terceiro volume onde é explicado a origem desses poderes, mas que ao mesmo tempo é algo também fica essencialmente preso ao lado material, justamente pela necessidade de metabolizar ou inserir/extrair esses poderes de algo físico. Além da estruturação e organização, tudo é bem explicado e ordenado. É algo fantástico e “místico”, ao mesmo tempo que também conversa um pouco com o lado mais metódico. Bem, de fato é um sistema, não algo incompreensível que de alguma forma pode ser usado. A magia é sempre tratada como algo que obedece a princípios e regras, que sempre são explicadas ao leitor.

“— Uma terceira arte — disse Ham, erguendo os olhos. — Uma terceira maneira de usar os metais. Há Alomancia, que extrai poder dos metais em si. Há a Feruquemia, que usa os metais para extrair poder do próprio corpo, e há…

— Marsh a chamou de Hemalurgia — Vin disse em voz baixa.” 

O Herói das Eras também adentra em temas políticos, sobretudo em relação a como as pessoas e seus ideais podem acabar se corrompendo e como as ações tomadas em nome de um bem maior podem levar a uma situação ainda pior. É algo que não apenas se conecta com a situação da insurreição contra uma ordem estabelecida, algo no cerne do primeiro volume e no da própria série, como também está intimamente ligada com a mitologia desse cenário, de como algo que tende a ser idealizado às vezes perde-se do caminho da realidade e não raramente acaba se distorcendo ou se afastando dos seus princípios originais. Quem acha que está fazendo algo pelo que é certo, geralmente encontra qualquer justificativa para seus atos, algo muito bem trabalhado no núcleo de Urteau, que emula bem essa distorção de princípios e é algo bastante semelhante a o que aconteceu em outras revoluções populares em nosso próprio mundo.

“Quando homens acham que estão ajudando o mundo, na verdade fazem mais mal que bem.” 

Essa parte em Urteau também concede um ar de credibilidade muito forte à obra, tanto por não se propor a mudar um sistema que perdurou por mil anos do dia pra noite, quanto às diversas mudanças que ocorreram em locais diferentes, que vão de propositalmente voltarem a um governo nos moldes daquele antes da queda do Império Final até essas revoluções mais contundentes que mudam totalmente o cenário político. Isso sem contar o impacto psicológico, religioso e social da queda de um “deus” e seu império milenar para uma rebelião de pessoas comuns.

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Esse conflito moral também é refletido nos personagens, sobretudo em Elend, que se vê dividido entre seu lado idealista e a posição de imperador, que o impele a tomar decisões difíceis e o aflige com a possibilidade de se aproximar daquilo que o Senhor Soberano era. Fantasma também vive um dilema moral parecido que o coloca em oposição a um personagem que usa dos fins para justificar os meios e que representa toda essa distorção dos ideais que acabam se tornando fonte de opressão. O garoto cresceu muito como personagem, muito por conta do seu núcleo ter mais espaço e ele maior relevância dentro da história, mas de qualquer forma ele teve um desenvolvimento notável nesse volume e foi de um dos personagens que eu não gostava muito no livro anterior a um dos meus preferidos. Marsh também foi um personagem bem intrigante, gostei muito dele em toda a trilogia, a luta interna dele por conta da influência de Ruína foi muito bem feita, aliás, o próprio Ruína é também muito fascinante.

Para mim, no entanto, os dois melhores personagens são Sazed, que em seu luto perde a fé, em suas crenças e em si mesmo, e passa por uma jornada de aceitação para reaver a esperança. As dúvidas e a falibilidade são o que justamente tornam os personagens humanos e críveis, e nenhum deles foi mais carismático do que o terrisano nessa trilogia. O outro personagem surpreendentemente foi o Senhor Soberano, que se torna outro com algumas informações adicionais que recebemos. Chega a ser incrível o quanto ele foi bem desenvolvido, sem termos o seu ponto de vista. Ele não deixa de ser um vilão, mas o torna mais profundo e mais complexo, sem se ater a um caráter maniqueísta. Ele foi um dos grandes acertos de Sanderson nesse volume.

O Herói das Eras foi um primoroso encerramento dessa primeira trilogia, épico como deveria ser. O livro é dinâmico, o cenário é fascinante e a história em si bastante atrativa, é um livro excelente dentro de uma série magnificamente bem estruturada, quase impecável. Ler essa primeira trilogia foi uma experiência e tanto, sem dúvidas uma das melhores séries que já li, e tenho certeza que será ainda mais interessante acompanhar a evolução desse mundo no decorrer das eras que estarão por vir.

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