Meio Mundo (Mar Despedaçado Vol.2) – Joe Abercrombie

Sou fã do Joe Abercrombie, poucos autores conseguem imprimir um estilo tão reconhecível em suas obras ao mesmo tempo em que sempre acham espaço para te surpreender. Sua narrativa ágil, permeada por cenas de ação intensas e diálogos mordazes magnificamente desenhados, só fica atrás da capacidade do autor em questão de caracterização e desenvolvimento de seus personagens. Para quem já o conhecia ficava a dúvida de como ele se sairia escrevendo uma “fantasia” young adult, visto que o autor se sobressai nos cenários mais realistas, sombrios, cínicos e violentos, e se em Meio Rei já deu pra ver que ele foi muito bem sucedido nessa empreitada, em Meio Mundo ele se supera e vai além das expectativas.

O segundo volume da trilogia Mar Despedaçado se passa alguns anos após o final do último livro, desta vez tirando o foco de Yarvi, agora ministro do rei Uthil, e apresentando dois novos personagens que protagonizam essa história: Thorn Bathu, uma garota “tocada pela Mãe Guerra” que deseja seguir os passos de seu falecido pai e se tornar uma guerreira e Brand, que também tem o mesmo objetivo, porém buscando nos campos de batalha uma forma de escapar da pobreza e dar uma vida melhor para sua irmã mais nova, além de encontrar um lugar para si na irmandade entre os soldados.

Durante um treinamento Thorn acidentalmente mata um garoto e é declarada assassina pelo mestre de armas, sendo então sentenciada à morte. Brand intercede por ela perante pai Yarvi, explicando o que aconteceu de verdade, e a garota tem sua vida salva pelo ministro, mas se vê acorrentada a ele por um juramento de lealdade. Enquanto isso, ataques de seus vizinhos impelem Gettland à retaliação, mas se optarem pelo caminho do aço o país desafiaria as ordens do Rei Supremo, se opondo à maior força do Mar Despedaçado. Para ter qualquer chance contra esse poderoso inimigo Gettland precisa desesperadamente de aliados. Essa missão cabe a pai Yarvi, que junto de Thorn, Brand e da tripulação do navio Vento Sul, atravessa meio mundo atrás de alianças para insurgirem contra o domínio do Rei Supremo e de sua ministra, a avó Wexen.

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Meio Mundo é um livro muito bom. A escrita é fluída e concisa, sem grandes rodeios, mas que consegue ser bastante movimentada, facilmente prende a atenção do leitor até o fim do livro. Ainda que voltada para um público mais jovem ele não se desprende de um cenário mais amoral e flerta com algo mais adulto, mesmo mantendo um tom geralmente mais leve e, naturalmente, mais simples, o que no fim das contas só deixa a leitura mais agradável. Também não poderiam faltar os adágios e as máximas tão característicos do autor, que só acrescentam aos diálogos sem soar como frases de efeito jogadas de qualquer jeito para dar um ar de profundidade.

Joe Abercrombie sobressai na criação dos seus personagens, sobretudo na forma como ele trabalha em suas falhas e fraquezas, algo necessário ao retratar uma história de amadurecimento, de enfrentar suas inseguranças e encontrar seu lugar no mundo. No último livro tínhamos um garoto com uma deficiência física na mão, neste temos uma garota que luta contra a desaprovação daquela sociedade que não via com bons olhos mulheres nos campos de batalha, e foi bem interessante a maneira que ele lidou com ambos, Yarvi teve de contar com sua astúcia e aprimorar suas capacidades diplomáticas e estratégicas, Thorn teve de superar a ideia de ganhar apenas pela força física, contanto mais com técnica e condicionamento. Também é curioso como ambos seguem pelo caminho de irem na contramão de suas ocupações, ainda que excedem em muito em capacidade em relação aos demais; Thorn como uma mulher combatente e Yarvi como ministro. Aliás, ainda que não protagonize o livro o crescimento de Yarvi como personagens foi fantástico, até aqui ele é disparado o meu personagem favorito da série.

mapa

Nesse volume fica bem claro que esse mundo é o nosso próprio mundo em um cenário pós-cataclísmico, a tal da “Fragmentação da Divindade”. Eu já disse em outra resenha que não curto muito quando essa volta às origens é meio forçada, como uma volta a alguma cultura antiga, este mundo, porém, é muito bem construído e funciona mais como uma reimaginação do período do que uma reconstrução total de uma cultura perdida. Ao mesmo tempo em que é semelhante, também é diferente. Fica evidente que Strokom seria Estocolmo, Kalyiv é Kiev, a “Primeira das Cidades” seria Constantinopla e o “Povo dos Cavalos”, provavelmente é uma alusão aos pechenegues, uma tribo semi-nômade da Ásia Central. Tudo isso fora a própria questão do culto a uma divindade única ganhando força diante da religião politeísta local.

Outra ponte interessante é a jornada em si. O caminho que eles fazem é idêntico à rota comercial dos varegues (ou varangianos) com os gregos, ligando a Escandinávia, os Rus’ de Kiev e o Império Bizantino, na verdade é muito similar, até mesmo o transporte dos navios entre dois cursos de água. Vale lembrar também que os próprios vikings foram importantes não só pelo comércio, – sobretudo trocando escravos, âmbar e peles por produtos como prata e seda-, como também na migração (o nome Rússia veio justamente do povo Rus’), e nos conflitos locais, não à toa a Guarda Varegue atuou por durante bastante tempo como uma força militar de elite do Império Bizantino, cujos membros inclusive serviram como guarda-costas dos imperadores. Até hoje existem inscrições rúnicas na Basílica de Santa Sofia.

Meio Mundo é um livro bem leve, rápido e divertido. O mundo fica mais rico e o enredo mais interessante à medida que a história avança, e a escolha de outros personagens como foco da aventura provou-se acertada. Recomendo o livro, a série e qualquer coisa que o Joe Abercrombie escreva.

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