1356 – Bernard Cornwell

1356Bernard Cornwell é um nome fácil nas recomendações dos leitores de ficção histórica. Mestre em narrativas militares, especialmente pelas descrições dos caóticos e intensos combates que facilmente ganham vida na imaginação do leitor. O autor faz por merecer sua fama, dificilmente você encontra outros que consigam captar tão bem quanto ele a atmosfera de desespero e êxtase de um campo de batalha, mas às vezes nem isso basta…

O ano é 1356, a França se vê flagelada pela destruição provocada pelo exército inglês. Eduardo, o príncipe de Gales, assola o país, pilhando e devastando cidades, deixando o indeciso rei francês em uma posição delicada, forçado a tomar uma atitude para não ser mais desmoralizado diante dos estragos causados em suas terras. Em meio a crescente tensão de um iminente conflito espalham-se rumores sobre o ressurgimento de uma antiga relíquia sagrada, “la Malice”, a espada que são Pedro usara no Monte das Oliveiras para defender Jesus, uma arma que traria a benção dos céus para o seu portador.

Uma relíquia dessas inflamaria exércitos, sabendo disso Thomas de Hookton, conhecido como “le Bâtard”, recebe uma ordem de seu senhor para que ele e seu bando de mercenários, os hellequins, encontrem a espada e não a deixem cair nas mãos dos franceses, uma busca que o coloca de frente com clérigos ambiciosos, condes vingativos e que culmina em uma das mais celebres batalhas da Guerra dos Cem Anos: a Batalha de Poitiers.

Realmente Cornwell é o rei das descrições da ação dos combates, ele te joga direto para o caos que é um campo de batalha, porém, como já havia dito, às vezes isso não é o bastante. O grande problema com essa história é que ela parece ser uma desculpa para narrar essa batalha, o que não seria nada de mais se a história em si fosse boa, e o começo e o final até que são bons, o problema mesmo é o que está entre eles. A trama da espada é praticamente esquecida durante a maior parte do livro, parece estar ali apenas pela força do hábito de ter alguma relíquia envolvida, mas sem um peso real para o desenrolar da história, é totalmente desnecessária; ela não te prende nem te faz ter apego aos personagens. A coisa toda poderia ser mais bem feita focando nos eventos que levaram a batalha e na batalha em si, sem tramas secundárias e dispensáveis de espadas místicas ou vinganças pessoais de lordes. Algumas resoluções dos problemas também foram pobres na maioria das vezes, e a cena do Keane com os cães de caça beira o ridículo dentro dessa pegada mais realística que a obra assume.

De longe esse foi o livro mais fraco do Bernard Cornwell dentre os que já li, e isso acabou ressaltando alguns pontos que não gosto tanto assim do autor. Ele é meio repetitivo, e não falo somente na necessidade do autor de falar sobre os músculos dos arqueiros a cada capítulo (o pior é que isso é sério mesmo), falo na repetição de temas, fórmulas e de tipos de personagens. Você sabe exatamente quais tipos personagens vai encontrar em seus livros, dificilmente algum deles foge dos seus padrões, então se você já leu algum livro do Cornwell vai facilmente correlacionar protagonistas e vilões com outros trabalhos do autor, fora que muitos deles são bem rasos. Isso fica mais problemático neste livro já que os vilões não tem uma presença intimidadora, não apresentam aquele perigo real para o protagonista, só estão lá como um contratempo passageiro para se ter algum conflito antes da batalha.

Na parte histórica não há do que reclamar, e o cenário escolhido era o perfeito para  retornamos à Guerra dos Cem Anos, já que essa foi  uma das 3 grandes batalhas em que os ingleses venceram apesar de estarem em menores números, muito embora Poitiers seja bem menos celebrada que as mais famosas vitórias em Crécy (1346) e Azincourt (1415). Também curti mais uma ênfase que o fator mais importante foi a capacidade de organização de um exército semi-profissional e o uso de estratégias eficazes do que o poder puro do arqueiro, ainda que Cornwell mantenha a mítica de quase invencível.

Batalha-de-Poitiers

A Batalha de Poitiers, em uma ilustração medieval de Loyset Liédet

Vale dizer que as flechas eram certamente mortais a uma boa distância, porém muitas não perfuravam totalmente as camadas de tecido que ficavam por baixo das armaduras e cotas de malha. Os danos que causavam aos cavaleiros eram mais por conta das concussões provocadas pelo impacto das flechas e da confusão que geravam pelas mortes dos cavalos, fora o fator moral do medo de encarar uma saraivada de milhares de flechas durante alguns minutos, do que serem usadas para matar os cavaleiros de fato.  Em Patay (1429), a “Azincourt” para os franceses, foi a vez dos arqueiros ingleses sofrerem uma derrota expressiva para um número muito menor de inimigos, que dessa vez exploraram as fraquezas dos arqueiros atacando antes que eles formassem uma defesa com estacas contra uma carga de cavalaria.

Falando em cavalaria, A Guerra dos Cem Anos marcou tanto o auge do cavalheirismo quanto o seu declínio, e talvez tenha sido na França que os ideais do código de cavalaria mais tenham ganhado força, foi interessante colocar um personagem que faça referência a isso, fora o próprio em contrate dessas visões romanceadas com o tom mais realístico que o autor usa e que de fato exprime o que era uma guerra de verdade.

Ainda que 1356 seja uma espécie de continuação da trilogia “A Busca do Graal”, ele funciona como história fechada, contudo existem diversas referências e menções de fatos ocorridos na série original que podem ser um pouco desagradáveis para quem ainda pretende ler sem tomar muitos spoilers. De qualquer forma é um livro que funciona por si, não se sente falta de uma contextualização maior ou algo do tipo, ele é acessível a qualquer um.

Vale mencionar que ainda que 1356 seja uma espécie de continuação da trilogia “A Busca do Graal”, ele funciona como história fechada, contudo existem diversas referências e menções de fatos ocorridos na série original que podem ser um pouco desagradáveis para quem ainda pretende ler sem tomar muitos spoilers. De qualquer forma é um livro que funciona por si, não se sente falta de uma contextualização maior ou algo do tipo.

Não recomendaria a quem nunca leu nada do Cornwell que começasse logo por esse, 1356 é um livro mediano, um pecado ainda maior pra quem costuma escrever livros que se mantém quase sempre naquela curta linha entre o bom e o excelente, mas infelizmente não foi o caso desta vez. Mesmo naquilo em que é meste, Bernard Cornwell não vai tão bem, faltou aquela presença e tensão características das cenas de ação tão comuns em outras obras do autor, sobretudo na batalha final que deveria ser o clímax do livro, mas nem ela salva, ficou sendo apenas uma batalha apagada dentro de uma história ainda mais apagada. Ainda bem que esse livro é uma exceção, um livro esquecível dentre uma miríade de outros livros muito melhores do autor. Leiam Cornwell, mas não comecem por 1356.

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