A Ascensão da Sombra (A Roda do Tempo Vol.4) – Robert Jordan

A_Ascensao_da_Sombra_Robert_JordanA Roda do Tempo tem sido uma das minhas séries de fantasia preferidas, o vasto e variado universo criado por Robert Jordan é muito convidativo e o autor não economiza na hora de criar culturas, costumes, personagens, locais e artefatos mágicos. É uma série que tende sempre para o épico, mas nem sempre a grandiosidade anda de mãos dadas com a intensidade e nesse volume as coisas começam a ficar um pouco arrastadas.

Após tomar posse de Callandor Rand al’Thor finalmente aceita seu destino como o Dragão Renascido, mas ainda é atormentado pela dúvida de se será capaz de cumprir as profecias e salvar o mundo ou então está mesmo fadado a enlouquecer devido mácula de saidin. Decidido a fazer o que deve ser feito, ele, junto de Mat, Egwene e Moirane, se dirige para Rhuidean, no deserto Aiel, em busca de respostas e para se tornar aquilo que deve ser.

Enquanto isso a história se divide em outras subtramas com Nynaeve e Elayne seguindo uma pista sobre o paradeiro da Ajah Negra que as levam diretamente para Tanchico, uma cidade à beira do caos e de uma iminente guerra civil. Em Tar Valon, Min tem visões sobre uma catástrofe que se abaterá sobre a Torre Branca. Perrin, por sua vez, se dirige a Dois Rios quando toma conhecimento que os Filhos da Luz estão atrás dele e de Rand em sua cidade natal e deve finalmente aceitar o seu papel no Padrão como ta’veren.

A Ascensão da Sombra marca um ponto de virada na série, os personagens, ainda que um pouco hesitantes, passam por um processo de amadurecimento ao terem de lidar com o peso do dever. É o ponto de passagem onde descobrem quem são, aceitam seu lugar e tomam conhecimento do que podem e o que devem fazer.

Mas não posso fugir, pensou. Tenho que fazer isso, porque não existe mais ninguém que possa. Ou eu faço, ou o Tenebroso vence. Uma barganha difícil, mas era a única que havia.”

Esse ponto ganha mais peso nas figuras de Rand e de Perrin, este último cresce bastante durante a história e rouba a cena em vários momentos, sem dúvidas é o destaque do livro em relação aos personagens. Ambos seguem bem a linha dos “heróis relutantes”, que não se veem como heróis de fato, ainda resistindo à ideia de que são algo a mais do apenas um pastor ou um ferreiro, mas as circunstâncias os obrigam a encarar o fato de que querendo ou não eles estão destinados a assumirem lugares de liderança e a fazer a diferença, adquirindo uma maior confiança no processo.

As partes que mais chamaram a atenção foram as em que Jordan expande ainda mais o seu já rico e extenso universo. É um mundo vivo, complexo e com grande pluralidade cultural, que abarca povos bem distintos com seus próprios costumes e pontos de vista. Os artefatos mágicos, os locais fantásticos de arquitetura única e as profecias também enriquecem ainda mais esse mundo, mas o que me chama mais a atenção é a própria mitologia do mundo e como ela aos poucos vai sendo desvelada, tanto em relação à Era das Lendas quanto o que aconteceu nos anos seguintes à Ruptura do Mundo. De longe a revelação sobre a origem dos Aiel foi ponto alto do livro, é uma daquelas partes que já fazem valer o livro todo.

Ainda que tenha gostado bastante do livro esse acabou sendo o volume que mais tenha críticas a tecer a respeito. Veja bem, é uma história que beira as mil páginas, mas uma boa parte poderia ter sido cortada que não faria diferença alguma. É muita enrolação desnecessária, e a história avança lentamente devido a desvios, repetições dispensáveis ou até mesmo trechos que não levam a lugar algum. Alguns cortes teriam deixado o livro mais dinâmico e a história mais objetiva e agradável.

A prisão do Tenebroso está enfraquecendo. Ele vai tocar o mundo outra vez, é apenas questão de tempo. Se Rand al’Thor não estiver aqui para enfrentá-lo na Última Batalha, se esse rapaz tolo e teimoso acabar se matando primeiro, o mundo estará condenado.”

Não gostei de como foram conduzidas algumas relações entre alguns personagens como a forçada amizade férrea da Aviendha com a Elayne, dado o menosprezo dos Aiel pelos “aguacentos”, ainda mais com a filha-herdeira do reino que seu povo mais despreza. É certa a dívida que ela sente por Nynaeve ter curado sua prima, ou “irmã-segunda”, mas é meio forçado esse lado com a Elayne (das três Aceitas, ela é a que tinha menos contato com a Aiel), muito menos se explica toda animosidade dela para com Rand. A amizade de Elayne e Nynaeve com Egeanin também não convence. Como duas pessoas que estão em uma missão onde a descrição deveria ser absoluta e ninguém desconfiar da ligação de ambas com Tar Valon confiam o bastante em alguém que acabaram de conhecer em uma situação extremamente duvidosa a ponto de falar abertamente sobre Aes Sedai? Essa foi de longe a pior parte do livro pra mim, totalmente sem sentido.

Falando em repetições o que o George R.R. Martin exagera em detalhes de pratos e alimentos em geral, Robert Jordan o faz com a descrição das vestimentas, isso é algo que incomoda um pouco. As personagens femininas repetirem exaustivamente que “os homens são uns cabeças-duras” e os rapazes por sua vez não perdendo uma oportunidade de dizer que “não entendem as mulheres”, também cansa, assim como o intrínseco traço de personalidade que é a teimosa, basicamente quase todos de Dois Rios são assim, e alguns de fora também.

Também não gosto de como o autor repete a fórmula de usar um dos Abandonados para criar o clímax no final. Até aí não teria nada de errado se eles fossem melhores desenvolvidos ao longo da trama e não aparecerem apenas nos últimos capítulos para oferecerem uma oposição derradeira aos heróis e dar o desfecho da história com uma batalha. Tirando Lanfear, eles só aparecem durante uns poucos capítulos e saem logo de cena, são bem pouco aproveitados para um grupo tão interessante de antagonistas.

Apesar das críticas esse foi um livro que gostei muito, esperava mais, não minto, mas mesmo assim foi uma leitura bem divertida, ainda que um pouco cansativa pelo ritmo mais lento, contudo os bons momentos fazem valer o livro. A Ascensão da Sombra é um livro que indico sem medo dentro de uma série que recomendo fortemente. E ainda estamos apenas no começo dessa história, há muito pela frente.

2 comentários sobre “A Ascensão da Sombra (A Roda do Tempo Vol.4) – Robert Jordan

  1. Dentre os livros já traduzidos da roda do tempo, o quarto foi o meu preferido.
    Eu concordo com vc, tem partes desses livros que são um tédio sem fim, mas na boa? Depois que eu cheguei ao final, fiquei pensando o que mudaria da historia e descobri que não mudaria uma vírgula, nem o tédio sem fim…

    Curtido por 1 pessoa

    • Nilda, isso também faz da série o que ela é, as pausas e interlúdios são tão importantes pro ritmo quanto as partes mais diretas e objetivas, mas eu gostaria que tivesse sido diferente em algumas partes, pq me soaram um pouco forçadas e consumiram bem mais espaço que a linha principal, acho que o Jordan se perdeu um pouco no terceiro e no quarto livro nesse ponto. Mas é bem por aí isso mesmo, algumas histórias ficam até melhores depois que a gente termina e nos lembramos mais do todo e não só das partes que o compõem, O Senhor dos Anéis é igualzinho nesse ponto.

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