Aniquilação (Comando Sul Vol. 1) – Jeff VanderMeer

AniquilaçãoJeff VanderMeer é um dos expoentes do chamado “New Weird”, um subgênero literário que mescla elementos de ficção científica, fantasia e horror. Não sou muito fã desses novos rótulos que surgem a todo instante categorizando alguma coisa com base em pequenas diferenças, ainda mais com algo um tanto disforme e com fronteiras nem sempre cristalinas, mas essa confusão de certo modo explica muito sobre o gênero, e por consequência, sobre este livro também.

Ao tentarmos encontrar um lugar a que algo pertença criamos uma ilusão de conforto, sabemos o que é e, portanto, a compreendemos, contudo se não é alguma coisa tão nítida assim nos sentimos um pouco deslocados, intrigados com a incerteza. A falta de uma clareza na real percepção dos fatos leva a uma sensação de incômodo, já que não lidamos bem com aquilo que está fora do nosso domínio, ainda que sejamos atraídos pelo mistério. Essa é justamente a intenção, promover um misto de desconforto e fascínio através do estranhamento. Nada é muito claro, não necessariamente podemos captar muito bem o que está acontecendo ali, mas queremos entender. Essa é a proposta de Aniquilação, instigar pelo insólito e te conduzir através da confusão e da incerteza.

Área_X

A história se passa em uma região conhecida apenas como “Área X”, palco de um misterioso evento que levou o governo a isolá-la do resto do mundo. Através das décadas que se seguiriam diversas incursões foram enviadas para averiguar as estranhas ocorrências do local, porém sem muito sucesso. Muitos dos que adentravam as suas fronteiras não retornavam e os que regressavam não voltavam exatamente os mesmos. Ninguém era capaz de explicar o que exatamente aconteceu ali.

Uma nova expedição é designada pelo Comando Sul, uma agência do governo criada para lidar com Área X, para retomar as investigações anteriores. A nova equipe, composta por uma bióloga, uma topógrafa, uma antropóloga e uma psicóloga, atravessa as divisas desse enigmático território em busca de respostas, mas o ambiente que as aguarda parece desafiar os limites da compreensão.

Aniquilação_01

O livro é narrado em primeira pessoa sob o ponto de vista da bióloga, como se fora o relatório deixado em seu diário para as próximas expedições, e como tal acaba tomando um tom um pouco mais distante, de modo a não “comprometer” o relato com preconcepções e visões pessoais, procurando ser uma representação mais fiel e imparcial dos fatos. Esse distanciamento é ponto importante e um recurso usado pelo autor para causar esse incômodo pela estranheza que venho falando. O sentimento de alienação é constante, a começar pelas personagens não terem nomes, elas apenas são identificadas pelas suas profissões, não possuem qualquer tipo de intimidade ou ligação que não seja essa missão específica, fora o próprio afastamento da civilização.

Tudo é criado para gerar uma sensação de separação muito forte, é um espinho na carne do leitor, mas tem um efeito negativo, a protagonista permanece distante de tudo, até mesmo do leitor e isso inevitavelmente prejudica a história. Você não se sente apreensivo pelo que acontece com ela ou se importa com sua vida, o que torna maçantes as partes em que a bióloga recorda sua vida antes da expedição e até mesmo e descartáveis, quebrando o ritmo da narrativa. Você se interessa apenas pela Área X, todo resto se torna dispensável. Certamente causa uma impressão nem um pouco agradável acompanhar a história pelos olhos de uma protagonista sem personalidade e carisma, totalmente sem vida que existe apenas para o seu trabalho, alienada de todo o resto, isso levanta essa sensação de que algo não está certo, algo artificial e fora de lugar, uma inquietação de irrealidade que conversa bem com o tom do livro, mas isso é também um grande tiro pela culatra.

Se por um lado tenho minhas críticas ao estilo da narrativa e aos personagens, por outro sou só elogios à ambientação. A atmosfera surreal que VanderMeer nos apresenta é magnífica, tantos nos cenários sufocantes de uma natureza grotesca em mutação, quanto nas descrições das anomalias criadas dentro (ou por) esse ambiente. Estruturas que parecem estar vivas, material orgânico formando frases, criaturas bizarras, ou a representação de outras ocorrências inexplicáveis, tudo feito de uma forma criativa, mas que carrega uma aura Lovecraftiana de um horror que desafia a sanidade ao encarar algo além da esfera de percepção humana.

Aniquilação_02

Sei que muita gente deve ter lido, ou pretende ler, devido a recente adaptação da Netflix, eu mesmo já conhecia e tinha interesse no livro, porém foi o filme que me animou a iniciar a leitura. Os dois seguem rumos bem diferentes, mas devo dizer que gostei mais da adaptação, ainda que os mistérios do livro me cativassem mais. O filme se saiu melhor na construção das personagens e na relação entre elas, parecem de fato seres humanos e a protagonista passa longe de ser a casca vazia que é no livro, além de visualmente conseguir expressar todo clima bizarro e absurdo da Área X. São quase duas histórias diferentes, e vale a pena conferir ambas.

O objetivo era causar confusão e de fato é muito bem sucedido nesse aspecto, até demais, diria, pois tenho impressões meio incertas a respeito do livro. Certamente é intrigante, mas também é monótono em certas partes e o desenvolvimento dos personagens é quase nulo, por conta disso não conseguiu me prender tanto, ainda assim gostei de algumas coisas, pelo menos o suficiente para querer ler as continuações, “Autoridade” e “Aceitação”. A única que posso ter alguma certeza é que de um jeito ou de outro vou ser surpreendido mais uma vez, e de que as coisas devem ficar ainda mais estranhas.

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