Os Pilares da Terra – Ken Follet

Os_Pilares_da_TerraA religião constituía uma parte fundamental na vida medieval, não apenas no papel unificador ou espiritual, mas também no campo intelectual, político, econômico e social. A igreja era o centro de tudo, era o coração das cidades e vilarejos, e nada manifestava mais a ascensão do poder e riqueza da Igreja do que as catedrais. As catedrais eram as maiores, mais caras e mais complexas construções da época, eram erguidas para inspirar admiração e devoção, mas toda essa imponência demandava uma quantia enorme de recursos humanos, materiais e financeiros, levando décadas, ou até mesmo séculos, até ficarem prontas. Elas refletiam não apenas o caráter religioso e cultural da época, mas também a ambição e o desejo humano. Os Pilares da Terra usa esse cenário, contudo esta não é exatamente uma história sobre a construção de uma catedral.

Situado na Inglaterra durante o século XII durante um período conhecido como “a Anarquia”, devido a crise causada pela guerra civil que assolou o país pelo direito de sucessão ao trono, o livro acompanha a vida de diversos personagens por décadas, todos eles com seus destinos entrelaçados com a construção da tal catedral. Temos os Aliena e Richard, os desapossados filhos do conde de Shiring, que perdera tudo e fora aprisionado após uma denuncia de rebelião contra o rei, buscando retomar o condado do pai; Jack, o filho de uma misteriosa mulher que vive na floresta; Tom Construtor, um habilidoso pedreiro que sonha em erguer a maior e mais magnífica catedral de todas, e Philip de Gwynedd, o novo prior de Kingsbridge, que luta contra tudo e todos para que esse sonho se torne realidade.

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Cena da adaptação do livro para a TV

Tinha enormes expectativas, algo natural para um best seller de um dos mais renomados autores da atualidade, mas sendo muito sincero me frustrei com o livro. O que se pode esperar de 900 páginas de uma narrativa que atravessa décadas e que abrange diversos personagens-chave? Poderia ser grandes disputas por riqueza e poder, reviravoltas inesperadas e complexidade de trama, mas dificilmente pensava em uma história de um amor improvável dentro de um enredo previsível, mas foi isso que vi na maior parte do livro.

Imaginava algo mais voltado para as intrigas e conspirações, porém elas não são tão frequentes ou realmente tem algum peso dramático mais forte, são pequenos percalços que logo são transpostos. Faltou um antagonismo mais presente no livro, além do pouco aproveitado poder do bispo Waleran Bigod ou do sadismo eventual de William Hamleigh, este último, apesar de ser o vilão típico e ideal para despertar a antipatia do leitor, some por partes inteiras da trama e não representa uma força mais atuante de um modo geral, aparecendo ocasionalmente para causar tumulto e sair logo de cena. Ambos poderiam usar de suas posições privilegiadas para dificultar os objetivos dos protagonistas não apenas em partes pontuais de ações violentas, mas como forças políticas influentes, já que representam o topo da estrutura social da época, mas esse tipo de autoridade na maior parte da história não tem de fato o peso de um desafio real para a construção da catedral.

Esse foi o ponto que mais me decepcionou, pois era o que eu mais esperava do livro. Faltou uma atenção maior para trama política e para as maquinações de poder que aos poucos foram se perdendo no meio da relação entre Aliena e Jack. O livro me pareceu um pouco arrastado em alguns pontos por isso, faltou um pouco mais de interesse pelo confronto do que pelas tecnicalidades de construção e pela trama novelesca que se seguiu. O final melhora muito, justamente porque foca mais nesses pontos, mas é uma parte bem pequena se comparada ao resto do livro.

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The Pillars of the Earth (2010)

Outra coisa que incomodou bastante foram as inúmeras soluções de roteiro usadas pelo autor. Muita coisa é resolvida ou a trama só é movimentada apenas por conveniência. Logo de início temos a repentina riqueza de certo personagem em um período de três anos, algo adicionado claramente por questões de enredo, mas totalmente fora de um contexto minimamente realístico que fatalmente atrapalha um pouco na ambientação. Outro exemplo é a existência de um de um menestrel tão instruído como há nessa história (na verdade eram poucos os menestréis que sabiam ler ou escrever na época), inclusive a ponto de ensinar a outros tão bem em pouquíssimo tempo, ainda mais em áreas que fugissem do campo da música ou poesia, novamente por pressão do roteiro essa foi saída encontrada pelo autor para justificar o conhecimento, e até a forma de pensar, de Ellen e Jack. Vejo como aceitáveis pequenas omissões e algumas liberdades para efeitos de trama, isso é normal para tornar a narrativa mais atrativa ou compreensível, mas são os detalhes que fazem toda a diferença em um romance histórico.

Tenho poucos elogios aos personagens, que em sua grande maioria são pouco desenvolvidos, estereotipados e subaproveitados. Há uma notável falta de complexidade de caráter, deixando muitos deles presos a certas características que praticamente os definem. Esse tipo de coisa deixa os personagens muito superficiais e pouco realísticos, beirando a caracterização de protagonistas de novelas com seus belos mocinhos sofridos de bom coração ou vilões maquiavélicos e asquerosos. Não estou brincando, isso também se reflete na aparência dos personagens, ou na quase obrigatoriedade de personagens de boa índole possuírem uma inteligência afiada. O autor também força muito a barra do protagonismo com alguns deles, como no caso do intragável Jack, e deixa de lado outros que poderiam oferecer mais para a trama, os personagens secundários praticamente não tem importância, tirando aparições esporádicas a fim de movimentar alguma linha do enredo.

Dos que eu acabei gostando foram Tom Construtor, Regan Hamleigh (no início do livro) e principalmente o prior Philip, talvez por ter me interessado mais pelo seu núcleo, contudo, os personagens mais interessantes mesmo são a catedral e a própria cidade de Kingsbridge. Uma das coisas que mais me agradaram no livro foi justamente ver o nascimento da cidade, da vida que o lugar ganha com as pessoas se estabelecendo e formando uma comunidade, tudo isso intimamente entrelaçado com a própria prosperidade que a construção da catedral possibilitou.

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The Pillars of the Earth (2010)

Esse é o ponto alto do livro, ainda que ambientação seja prejudicada pelo anacronismo dos personagens e alguns erros históricos leves, a parte da pesquisa sobre a arquitetura realmente foi bem convincente, mesmo que inevitavelmente quebre um pouco o ritmo da narrativa com o uso de tantos termos técnicos. Toda a parte referente à construção da catedral é fantástica, sobretudo o panorama da vida dos trabalhadores e do ofício em si, desde a questão da movimentação de recursos financeiros, materiais e humanos até os aspectos da vida cotidiana e profissional dos construtores, como o vínculo de irmandade entre esses artífices. Particularmente gosto de ver um período histórico pela perspectiva das pessoas comuns, e mesmo mostrando a nobreza e o clero, o autor o faz priorizando mais a relação dessas classes mais com os camponeses do que com membros mais bem posicionados na pirâmide social da época.

Não consegui ver esse brilho todo que dizem a respeito do livro, veja bem, não acho que seja ruim, porém os pontos negativos são muitos para serem relevados diante do que o a história apresenta de bom. Para mim foi frustrante, um épico não deve ser mediano. Gostei muito do início e do final da história, porém a maior parte do livro não me agradou, teria sido muito melhor se deixasse o drama novelesco em torno de Aliena e Jack de lado e focasse mais em Tom, Philip e Waleran, se preocupando realmente com uma trama sobre poder e ambição e sobre a vida medieval. Ainda tenho vontade de ler outras coisas do autor, porém vou procurar dar preferências aos thrillers da próxima vez.

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