Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Philip K. Dick

 

androides_sonham_com_ovelhas_eletricasÀs vezes a vida nos apresenta algumas contradições, ambiguidades e ironias, mas isso parece ser uma constante para Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, aquela que provavelmente é a obra mais conhecida de Philip K. Dick, um dos mais influentes escritores de ficção científica de todos os tempos. Como pode algo ser tão conhecido, e ao mesmo tempo permanecer em certa obscuridade? Eclipsado pela icônica adaptação para os cinemas, ainda hoje a própria existência do livro causa surpresa a muita gente, surpresa intensificada ainda mais pelo o título não ser Blade Runner”, outro exemplo de como um ofuscou o outro. A própria versão cinematográfica, que viria mais tarde servir de base para toda a posterior estética cyberpunk e ser um dos mais importantes e aclamados filmes do gênero de todos os tempos, foi inicialmente um fracasso de público e crítica, só ganhando o status de clássico cult através das locadores de VHS. Isso sem falar na própria diferença da famigerada estética de luzes de neon e chuvas constantes, próprias do filme, em contraste com a desolação poeirenta dos cenários do livro.

Contradições, ambiguidades e ironias parecem ser uma constante para “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, pois bem, eu não falava apenas sobre o vínculo entre o material original e adaptação, mas da trama si, dos temas existentes e das questões levantadas nesse grande clássico da ficção científica.

O planeta Terra se encontra arrasado após uma guerra nuclear que dizimou a maior parte da fauna e da flora global. Devido à contaminação pela poeira radioativa as pessoas se viram forçadas a migrar para as colônias fora do planeta para escapar da iminente degeneração genética, os poucos que ainda vivem na Terra, seja por escolha ou pela obrigação por já estarem contaminados, se veem forçados a habitarem cidades cada vez mais decadentes e desoladas.

Blade_Runner_2049

Cena de “Blade Runner 2019”, a paisagem desolada é bem próxima das descrições do livro

O colapso ecológico também levou a uma obsessão por possuir e cuidar de qualquer animal vivo que restasse, criando não apenas um novo tipo de status social como também expressava todo o padrão de moralidade dessa sociedade, que enxergava como valor máximo a capacidade de sentir empatia por toda tipo de vida animal, a única forma de se diferenciar um ser humano de um androide.  Os pobres demais acabam tendo de adquirir animais sintéticos, idênticos aos reais, para não perderem o senso moral e se enquadrarem dentro desse padrão. Rick Deckard, um caçador de recompensas do departamento de polícia de São Francisco, é uma dessas pessoas. Ele sonha em conseguir dinheiro o suficiente para substituir sua ovelha elétrica por algum animal real, e a oportunidade surge quando é designado para encontrar e aposentar seis androides fugitivos Nexus-6, os mais modernos e perfeitos, praticamente indistinguíveis dos humanos. Deckard logo descobre que essa missão não é tão simples assim quando é levado a questionar seus valores. Afinal, o que podemos definir como vida? O que nos torna, afinal, de fato humanos?

Deckard

Harrison Ford como Rick Deckard, em “Blade Runner” (1982)

De certa forma esse é o ponto principal da história, o que diferencia um humano de um androide? A distinção de nossa humanidade acaba dando valor a nossa existência, dando um significado para nossas vidas, e dentro dessa sociedade o que caracteriza a distinção entre a vida humana e a “imitação de vida” dos androides é a empatia, a capacidade de sentir, de tocar, de compreender a existência de outro ser. Mas e quando essa fronteira já não é tão mais nítida quando os humanos vão ficando cada vez mais artificiais?

Cuidar dos animais parece ser mais uma atividade voltada para tentar dar algum significado para a própria vida, ou pelo status, do que se importar realmente com o animal em questão. As emoções já não são reais, são estimuladas ou suprimidas por uma caixa de empatia, são puramente forjadas, mais uma vez voltadas mais para essa tentativa de preenchimento existencial do que de fato se importar com algo além de si mesmo. Até o Mercerismo, uma religião voltada para mantermos esse traço, é algo que força a empatia, colocando as pessoas no lugar de Wilbur Mercer, uma espécie de Messias virtual, em sua Via Crúcis, mas toda essa união e o compartilhamento de sentimentos é em si fabricado, ou seja, é necessário uma simulação para que de fato possam se colocar no lugar de outro, fora a questão da própria ironia de sustentar essa socialização à medida que cada vez mais se isolam. No fundo as pessoas fingiam tanto as emoções quanto os próprios androides que tentavam imitar o comportamento humano.

Coruja

Outra contradição dessa sociedade se dá na hipocrisia da estratificação social que coloca colocando as pessoas que foram contaminadas pela radiação, os chamados “especiais” (que acabam por ter parte da capacidade intelectual afetada pela ação da poeira radioativa) como inferiores, um grupo quase à parte da própria sociedade humana devido ao medo da degeneração genética da humanidade. Ironicamente, John Isidore, um desses especiais é o personagem mais humano, o que mais consegue enxergar o valor da existência de outros seres, elétricos ou não.

O que deixa ainda mais absurda e contraditória a questão do valor sacrossanto sobre toda a vida nessa sociedade, é que os androides, que não são simplesmente autômatos mecânicos, mas entidades biológicas, mesmo sendo criaturas orgânicas não possuem a mesma condição que os outros animais ou pessoas, para todos os efeitos eles são vistos como seres não dotados de vida. O que define então a vida?  Associando a sua ovelha elétrica aos androides, Deckard,  em um primeiro momento, via essa diferenciação entre viver e existir a capacidade de se importar com os outros, desse modo poderia enxergar os androides como coisas, o que tornava o seu trabalho como caçador de androides tolerável.

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O teste de empatia de Voigt-Kampff permitia ele despersonalizar quem estava caçando, aliás, o uso do próprio termo “aposentar”, um eufemismo para matar, é algo que visa tornar isso mais fácil e suportável, pois também despersonaliza o ser. Ele não estaria matando nada, pois não é algo vivo, seria como uma máquina velha que precisava ser posta fora de uso, portanto não seria nada ilegal ou imoral. Mais tarde essas concepções caem por terra e ele entra em uma crise moral no momento que passa a ver algum valor na vida deles, aliás, passa a enxergá-los como criaturas dotadas de vida.

Deckard_Roy_Batty

Essa discussão também acaba entrando fundamentalmente na questão da natureza da realidade. Se o artificial pudesse imitar à perfeição o autêntico, de modo que fossem indistinguíveis, a imitação não seria tão real quanto o verdadeiro? Os androides não compreendiam bem alguns aspectos emocionais humanos, eram criaturas quase que puramente lógicas, mas seriam tão diferentes assim dos humanos que vivenciavam suas emoções de modo artificial programadas por uma máquina? O próprio mercerismo e sua forma de compartilhar experiências e emoções se dá através de uma realidade simulada. O autor ainda brinca com essa questão do que seria de fato real com os efeitos físicos gerados fora dessa simulação, como as feridas manifestadas após o apedrejamento de Mercer.

É um pouco injusto que todo o reconhecimento de Blade Runner acabou deixando o livro em um segundo plano, quase esquecido, preterido em favor do filme, que, diga-se de passagem é de fato um filmaço. Sendo justo eu até gosto mais da adaptação do que do original. O filme não se limita e vai além, complementando perfeitamente o livro. É verdade que não temos alguns personagens e outros foram inseridos ou modificados, mas a essência desse mundo está toda ali, e sob uma ótica diferente. Se por um lado o livro trata mais a questão do que nos torna humanos através da própria sociedade e dos dilemas morais enfrentados por Deckard, o filme segue uma abordagem que dá ênfase nos “replicantes e sua vontade de estender o tempo de sua existência, que era de apenas 4 anos, demonstrando empatia e a valorização da própria vida, exprimida pela cena final entre Roy Batty e Rick Deckard, uma das mais icônicas do cinema.

PowerPoint Presentation

Publicado originalmente em 1968, “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” ainda hoje é extremamente relevante e nos faz encarar a sombra de nosso próprio mundo, de nossa sociedade cada vez mais integrada ao virtual, de compartilhamento de experiências e do paradoxo da aproximação entre pessoas ao mesmo tempo em que nos isolamos cada vez mais, e muito embora a questão do homem x máquina (que é uma forma de repensarmos a própria condição humana), seja algo frequentemente explorado na ficção, poucos conseguiram exprimir tão bem esse anseio de buscar um sentido real para nossa existência, de definir nossa identidade, nossa humanidade, quanto Philip K. Dick. Essa história é um marco não só para o cinema, como é também para a literatura, e pôr de lado um ou outro é perder metade do que essa história tem para oferecer.

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