Altered Carbon

Há alguns dias terminei de assistir a série original da NetflixAltered Carbon, baseada no livro homônimo de Richard K. Morgan, livro este que já estava na minha lista há tempos e que certamente ainda irei ler. A premissa me interessou muito, fora todo o investimento despendido e o hype que se criou entorno da série, tornando essa uma das grandes apostas da plataforma para esse ano, mas tudo que tem a capacidade de criar grandes expectativas também corre o risco de gerar grandes frustrações.

Altered_Carbon

Apesar do orçamento generoso essa era uma série arriscada, haja visto que o cyberpunk não é um gênero que agrada a todos, vide os fracassos de bilheteria de Blade Runner e da sua recente continuação, Blade Runner 2049, apesar de todas as críticas positivas e do primeiro ter se tornado um filme cult. É algo de nicho e todo esse investimento não deveria ser voltado para um produto que pouca gente consumiria, e aí que residia o meu medo, de tentarem agradar o máximo possível de pessoas e deixarem a coisa mais superficial a fim de ficar mais palatável para o gosto do público médio. Meus medos se concretizaram.

A série é ambientada em um futuro onde a consciência humana pode ser armazenada em uma espécie de chip implantado na região cervical que pode ser inserido posteriormente em outro corpo qualquer em um processo conhecido como “encapamento”, possibilitando assim uma vida potencialmente eterna ao se enganar a morte transferindo a consciência para outras “capas” ad infinitum, abrindo espaço ainda para viver sempre em um corpo que esteja no ápice da juventude ou mesmo escolher a aparência que desejar. A morte “real” só é possível se esse implante for destruído.

Dentro desse contexto somos apresentados a Takeshi Kovacs, um “ex-emissário”, uma espécie de militar do Protetorado das Nações Unidas que é “reencapado” em outro corpo 250 anos após sua morte a mando do influente e absurdamente rico Laurens Bancroft a fim de investigar um assassinato, o do próprio Bancroft.

Kovacs

Joel Kinnaman, como o protagonista Takeshi Kovacs

Com essa sinopse dava para ver que tinham tudo para fazer algo realmente interessante, e conseguiram na questão da ambientação, que é fantástica, diga-se de passagem, mas decepciona na parte do desenvolvimento dos personagens e da trama, entregando um roteiro fraco, recheado de clichês. A série até começa bem com um universo convidativo e personagens a principio até interessantes, mas acaba perdendo o fôlego a medida que avança, deixando de lado o potencial absurdo que tinham em mãos para focar em relações pessoais insípidas e pouco interessantes.

Aquele cinismo inicial dos personagens que combinava tão bem com todo esse clima da série vai se dissipando ao longo dos episódios, mas não dão uma profundidade que os torne mais carismáticos ou mesmo se tem a coragem de manter o distanciamento comum nos protagonistas desse tipo de história, eles simplesmente vão ficando mais comuns e esquecíveis. O único personagem realmente interessante é o Poe, a I.A que não só é proprietário do hotel “The Raven”, local de encontro dos personagens, como ele em si é o próprio hotel, um conceito bem interessante, dentre todos ele é de longe o mais carismático. Por outro lado a tenente Ortega destoa negativamente de todos os outros, ela é basicamente o padrão da policial durona que luta contra o sistema, fazendo o que acha necessário e que é sempre acobertada das cagadas que acaba arrumando, ela é clichê ao máximo, e mesmo até a mãe dela é o estereótipo máximo da mãe latina.

cidade2

O universo apresentado tinha uma potencialidade enorme, exibindo na primeira metade (a melhor parte da série) uma série de questões morais e dilemas éticos da vida eterna, mas sem nunca se aprofundar nestas questões. Os conceitos e a tecnologia apresentados eram de encher os olhos, tanto na questão da mudança da sociedade, como a intensificação do abismo entre pobres e ricos, da relação entre religião e ciência nesse contexto, como na própria falta de sensibilidade diante da morte, ou mesmo nos novos negócios obscuros de vendas de capas e na parte da realidade virtual à la Black Mirror, mas tudo isso se perde no meio do melodrama que acabou tomando conta da segunda metade do seriado.

O que se pode criticar das escolhas narrativas, não se pode na parte estética, essa sim foi o grande ponto forte da série. A fotografia é impecável e os cenários são fantásticos. A atmosfera cyberpunk inunda a tela, está tudo lá para compor o tom melancólico e marginal e te transportar para aquele mundo distópico: carros voadores, a onipresente chuva, cidades sujas apinhadas de gente e iluminadas por neon. E para aumentar o contraste social temos o refúgio paradisíaco onde os ricos ficam, longe do mundo sombrio dos pobres, pairando acima das nuvens como um Monte Olimpo futurista, onde a iluminação é natural em contraste com a luz fria e artificial das vielas de baixo.

ponte

Um detalhe interessante, a ponte virou uma espécie de cortiço de contêineres empilhados

Esperava por algo a mais e veio alguma coisa que, se não digo que foi decepcionante, foi pelo menos frustrante, principalmente pelo que tinha sido apresentado na primeira metade, que cheguei a gostar, mas que se torna outra coisa gradativamente e acaba por se perder em pequenos detalhes que não importam muito, entregando um final bem medíocre. Perderam uma oportunidade de realmente focar mais no lado detive da coisa e de explorar mais as questões morais apresentadas.

Eu realmente gostaria muito que a série tivesse sido boa, tinha a possibilidade para ser excelente, mas ao invés disso contenta-se apenas em ser mediana, não acho que será dessa vez que o cyberpunk vai cair nas graças do público. Ainda que frustrante eu gostaria de ver uma segunda temporada, uma segunda chance para ver uma outra história dentro desse mundo, já que gostei mais do universo em si do que da história apresentada e acho que há potencial para isso, há boas cenas de ação e conceitos bem interessantes foram apresentados, o que demonstra que há espaço para evoluir para algo realmente evolvente, além disso fiquei bastante curioso com o livro, certamente irei ler futuramente, até por motivos de comparação. Acho que ainda vale assistir, até pela escassez desse tipo de seriado, mas não eleve muito suas expectativas.

 

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