Duna (Crônicas de Duna Vol. 1) – Frank Herbert

DunaDuna é um daqueles livros que é fácil de elogiar, mas um pouco difícil de escrever sobre. Vejam bem, a admiração por algo às vezes é uma barreira difícil de transpor. A grandiosidade intimida, te deixa receoso de não conseguir fazer jus a obra, de não exprimir em palavras todos os pormenores que tanto te maravilharam. Duna teve esse efeito em mim. Enfrentarei meu medo e tentarei colocar em palavras tudo aquilo que me fascinou nesse Universo criado por Frank Herbert, pois Duna é um livro que merece esse respeito, e merece ser mais reconhecido pelo grande público.  

A história se passa milhares de anos no futuro onde, após uma guerra contra as máquinas, ficou-se estabelecido que a humanidade jamais deveria criar outra “máquina pensante”, ou seja, qualquer tipo de máquina com inteligência artificial igual ou superior à mente humana. Isso levou a uma necessidade de encontrar algo que substituísse os computadores, sobretudo para que as viagens espaciais pudessem continuar sendo possíveis, e o caminho encontrado foi elevar as capacidades mentais humanas a um nível superior através de um treinamento mental rigoroso aliado a seleção genética e o uso de substâncias narcóticas para criar “computadores humanos”, como os Mentats, uma classe treinada para resolver problemas lógicos, e os Navegadores da Guilda, que são os seres que realmente tornam possíveis as viagens interplanetárias.

“- Um dia os homens entregaram a própria razão às máquinas, esperando que isso os libertasse. Mas só se deixaram escravizar por outros homens com máquinas.
–“Não criarás uma máquina à semelhança da mente de um homem” – citou Paul.
-É o que dizem o Jihad Butleriano e a Bíblia Católica de Orange – ela disse. – Mas a Bíblia C. O.  deveria ter dito: “Não criarás uma máquina para imitar a mente humana”.”

Neste contesto a civilização acabou por se organizar em um sistema político que se sustenta em três forças: A Família Imperial, o conselho das Casas Maiores do Landsraad, e a Guilda, que tem o monopólio do transporte interestelar e do sistema bancário.

A sociedade então regrediu a um estado onde feudos planetários passaram a ser governados por Casas nobres, vassalas ao imperador padixá Shaddam IV. Uma dessas famílias são os Atreides, que recebem do imperador o controle do planeta-deserto Arrakis, antes dominado pelos seus inimigos, os Harkonnen. Arrakis, também chamado de Duna por seus habitantes, é o lar dos gigantescos vermes de areia e o único local onde se encontra a especiaria mélange, a substância mais importante do universo, capaz de prolongar a vida e proteger de doenças, bem como potencializa os poderes mentais (despertando até visões prescientes em certos indivíduos, dependendo da quantidade), e vital para a viabilidade das viagens espaciais.

Duna_capaPor essa importância o controle de Arrakis é um presente e tanto, e muito embora o Duque Leto Atreides estivesse alerta de que isso poderia ser uma armadilha, a oferta direta do imperador era algo praticamente irrecusável, restando a ele se preparar e resistir,  e ter esperanças de sobrepujar os obstáculos e armadilhas que certamente estariam a sua espera. Acabando por fim pego na conspiração criada pelo Barão Vladimir Harkonnen juntamente com o próprio imperador padixá – que temia a popularidade de Leto com outras Casas Maiores e o poderio militar crescente dos Atreides -, o Duque é morto pelos seus inimigos, mas sua concubina, a Bene Gesserit Lady Jéssica, e seu filho e herdeiro, Paul Atreides, conseguem escapar para o deserto.

Paul, que desde cedo mostrava sinais de visões prescientes, era visto pelos fremen, o povo do deserto, como aquele que as profecias que apontavam como “Lisan al-Gaib”, o profeta que os lideraria em direção ao paraíso. Mas à medida que as visões prescientes ficavam mais fortes Paul, agora conhecido pelos fremen como “Muad’Dib”, despertava também a consciência de sua imagem como o messias  que procuravam, podendo abraçar de vez sua posição de liderança para se vingar dos Harkonnen e retomar Duna, muito embora a escolha desse caminho possa desencadear um futuro sangrento ao aceitar o seu “propósito terrível”.

É fácil perceber o motivo da obra máxima de Frank Herbert ser considerada um dos melhores livros de ficção científica de todos os tempos. Originalmente publicado em 1965, Duna é um épico que consegue misturar intrigas políticas, religião, ecologia e os medos da humanidade diante da tecnologia, criando culturas críveis e bem fundamentadas, além da própria história ser uma alegoria para as disputas pelo petróleo na Península Arábica; não à toa foi o vencedor do prêmio Nebula, em 1965, e do Hugo em 1966, além de servir de inspiração para inúmeras obras. Rendeu também um filme bem ruinzinho dirigido por David Lynch e duas minisséries produzidas pelo Sci-Fi Channel.

Em uma época que vemos com maior clareza os efeitos do aquecimento global, com mudanças climáticas mais acentuadas, a obra de Herbert torna-se mais relevante do que nunca. É realmente de encher os olhos o esmero que o autor colocou nesse ponto, principalmente no sonho dos fremen de “terraformarem” Arrakis para transformar o planeta em um paraíso, criando as condições adequadas para suportar um ecossistema mais diversificado e favorável à vida humana, calculando todos os problemas ecológicos para que se possa criar a longo prazo um sistema estável e autossustentável. Imagino o impacto que teve na sua publicação em meados dos anos 60, quando isso parecia realmente algo distante e aos poucos ver esses conceitos tornando-se mais próximos de nossas vidas, de como é delicado o equilíbrio da natureza, como tudo é dependente e interconectado, um sistema intricado, mas também frágil. Vale muito a pena ler o apêndice sobre a ecologia de Duna, um dos pontos altos desse livro.

Shai-Hulud

As comparações que vez ou outra aparecem de tantos e tantos livros com “O Senhor dos Anéis”, geralmente exageradas, no caso de Duna são totalmente válidas. A atenção aos detalhes ao criar um universo fantástico crível é capaz de levar o leitor a uma imersão total na história. Imaginar caminhos que tomaríamos dependendo de certas condições e como isso teria um impacto profundo no pensamento e na forma como viveríamos é o que de fato torna algo verossímil e dá a vida que destaca essa obra das demais, e a falta de água no planeta é o que moldou toda a cultura fremen.

É interessante o respeito religioso pela água por conta da necessidade extrema de cada gota, chegando-se a reaproveitar a água dos mortos (“A carne pertence à pessoa, mas a água pertence à tribo…”), ou do valor extremo que é se dar ao luxo de derramar lágrimas pelos mortos, da obrigação de criar formas de medir precisamente a água, como também na admiração pelas criaturas do deserto que são totalmente adaptadas à vida de Arrakis, como o ratinho Muad’Dib, motivo de agrado dos fremen ao verem a sabedoria de Paul ao escolher esse nome para si. A adaptação dos fremen, tanto na questão de reaproveitar a umidade do corpo com os trajestiladores, quanto na maneira de caminhar no deserto e saber como montar nos vermes de areia também mostram com clareza a força e ferocidade do povo do deserto e como são moldados pelas dificuldades que marcam bem todo o pensamento e a moral deles, do foco no coletivo. São sobreviventes, guerreiros natos lutando uma luta diária.

Outros grupos merecem também algum destaque, como os Mentats, visto como é interessante que há essa quebra do conceito do “homem máquina”, que geralmente reflete o medo da desumanização, da perda das nossas emoções, isso não ocorre com os computadores humanos de Duna, de fato eles podem ser tão passionais quanto qualquer outra pessoa e podendo até ser algo que acaba afetando seus cálculos e previsões.

As Bene Gesserit também são muito interessantes. Uma ordem exclusivamente feminina que remonta a uma centena de séculos, que desde muito cedo são treinadas nas mais diferentes técnicas a fim de desenvolverem habilidades físicas e mentais superiores através de um condicionamento rigoroso, que agem nos bastidores do poder, manipulando, seguindo um plano de gerações. Isso por si só já chama a atenção, ainda mais por esse ar de misticismo que carregam, sendo vistas como bruxas possuidoras de capacidades mágicas por outras pessoas, mas que utilizam apenas técnicas apuradas focadas na obtenção e análise de dados coletados através de observação minuciosa, além de outras táticas de manipulação, como instalar crenças e superstições em povos mais primitivos para futuramente usarem isso a seu favor se surgir alguma necessidade.

Os personagens são bem cativantes em sua maioria: o Duque Leto Atreides, o melhor personagem disparado; a forte e obstinada Lady Jéssica; Kynes e seu sonho de transformar Arrakis; Gurney Halleck e sua lealdade, mas o que realmente se destaca é o protagonista Paul Atreides, o herói relutante.

Paul_Atreides.jpg

A presciência de Paul o faz ver diversas possibilidades de futuro, a maioria levando ao medo do que a sua figura como messias poderá acarretar. É algo bem curioso que apesar de seguir o clichê do herói escolhido que tem medo de seu destino, acaba-se tendo uma história um pouco diferente por Paul temer justamente algo que ele vê em diversas possibilidades de futuro de suas visões prescientes. É o messias que sabe seu papel de libertador, mas que também tem ciência do mal vindouro, de um futuro onde guerras serão travadas em seu nome. Vemos o nascimento de uma lenda, de um mito, de um profeta que sabe seu papel futuro e tem a consciência da transformação do oprimido em opressor, que vê o desenrolar das consequências de seus atos. É um herói que tem consciência não só do que ele representa no presente, mas do que ele representará no futuro, independente de tudo de positivo que possa fazer em um presente imediato. Ele tem noção que sua imagem é mais forte do que ele mesmo.

Não terei medo. O medo mata a mente. O medo é a pequena morte que leva à aniquilação total. Enfrentarei meu medo. Permitirei que passe por cima e através de mim. E, quando tiver passado, voltarei o olho interior para ver seu rastro. Onde o medo não estiver mais, nada haverá. Somente eu restarei.”

Uma coisa que fica até bem óbvia são os paralelos e inspirações históricas que Herbert usou no livro, especialmente relevantes na época da publicação, sobretudo com a crescente preocupação dos países produtores de petróleo com o domínio de empresas estrangeiras que controlavam o preço e a produção do produto, o que culminou na criação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em 1960. É nítido, chegando a ser gritante, que o mélange é uma alegoria para o petróleo. Ambos servem para a navegação e são vitais para o comércio, sendo fontes de riqueza para os povos do deserto, gerando conflitos pelo seu controle. Não é à toa que a história se passa em um planeta desértico com uma influência forte da cultura árabe.

Paul muito provavelmente deve ter sido inspirado, um pouco que seja, em T. E. Lawrence, o “Lawrence da Arábia”, um oficial e diplomata britânico que teve um papel importante durante a Revolta Árabe contra o Império Turco Otomano durante a Primeira Guerra Mundial, principalmente pelas similaridades de um estrangeiro identificado com a causa de povo chegando a ser parte fundamental de operações militares, e muito embora essa história também não seja lá algo muito nova ou exclusiva, é uma referência plausível, visto essas alegorias propositais a respeito do Oriente Médio.

Duna é mesmo tudo isso que dizem e ainda mais. É um daqueles livros clássicos que simplesmente você deve ler. É fácil se deixar levar e mergulhar de cabeça no universo de Frank Herbert, sobretudo depois de ler os fantásticos apêndices, que chegam a ser tão bons quanto à própria história. Herbert ainda acertou ao tirar um pouco o foco sobre a evolução tecnológica e se voltar mais para as relações humanas, explorando mais as intrigas políticas e crenças religiosas, e talvez por isso, mesmo após tantas décadas, Duna ainda permanece relevante em suas questões levantadas sobre ecologia, fanatismo e na exploração e dependência de certos recursos (mélange/petróleo), ou envolve apenas pelo seu bom enredo, pela construção soberba e minuciosa desse mundo e pela narrativa em si.

Naturalmente o universo riquíssimo em detalhes de Duna não se restringe a apenas esse livro, apesar de ser uma história fechada, esse volume abriu espaço para que Herbert escrevesse ainda mais cinco continuações: Messias de Duna (1969), Filhos de Duna (1976), Imperador Deus de Duna (1981), Hereges de Duna (1984) e Herdeiras de Duna (1985). Como Duna me fascinou profundamente, certamente esses livros já entraram para minha lista e não vejo a hora de voltar ao planeta Duna.

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