Herança de Sangue (Guerra das Rosas Vol.3) – Conn Iggulden

Herança_de_SangueAs forças de Lancaster triunfaram sobre o duque de York e o conde de Salisbury na batalha de Wakefield. Com as cabeças dos seus principais inimigos espetadas nas muralhas da cidade de York, a rainha Margarida de Anjou marcha com um grande exército em direção ao sul, visando libertar o rei Henrique VI das mãos dos últimos dos seus opositores, e nada parece ser capaz de impedi-la. No entanto, ao matar e decapitar os líderes das casas de York e Neville, Margarida acabou por liberar os herdeiros para assumirem a causa de seus pais, unindo o filho de Salisbury, Ricardo Neville, o conde de Warwick ao filho mais velho de York, Eduardo, o conde de March, em uma vingança contra a Casa de Lancaster.

“Sejamos todos liberados então, Ricardo, diante desses homens que nos seguem. Não admitamos rédeas nem arreios, nenhuma restrição, nenhuma mão no braço até tomarmos tudo o que nos devem de todos aqueles que nos devem.”

As vitórias conquistadas contra seus inimigos ao longo do caminho para Londres acabam cobrando um preço alto; exauridos de recursos, as tropas de Margarida acabam saqueando todas as cidades e vilarejos que encontravam. As notícias sobre a destruição causada pelo “exército de bárbaros do norte” viajam a frente de suas tropas e aterrorizam os moradores de Londres, que fecham os portões da cidade ao rei e à rainha, obrigando o exercito de Lancaster a recuar para o norte. Warwick e Eduardo por sua vez são bem recebidos na cidade, e aproveitando-se do direito de suceder ao trono, graças ao acordo que seu pai fizera com o rei Henrique VI para torná-lo herdeiro, Eduardo de York se declara rei da Inglaterra em Westminster, sem uma coroação formal, no entanto. Não até que ele derrotasse as forças de Henrique VI em batalha.

Herança de Sangue é o livro mais envolvente da série. A escrita melhora muito em questão de dramaticidade e em explorar os personagens, sobretudo Ricardo Neville, o conde de Warwick. Conn Iggulden desenha bem as motivações de cada um, descrevendo o que realmente deve ter passado pelas cabeças das figuras históricas na época para terem tomado certas decisões ou explicar algum comportamento qualquer, o que além do caráter narrativo acaba gerando uma maior empatia por eles.

Não há uma tentativa de criar vilões ou heróis, as ações dos personagens são bem fundamentadas e entregam bem para o leitor um panorama do pensamento da época misturado com os próprios interesses pessoais que vão além de um julgamento moral mais maniqueísta. De certa forma estamos tão acostumados com a forma romanceada que a História nos é passada que chega a ser um pouco surpreendente encontrar em um livro de ficção uma visão mais realística nessa questão dos princípios morais de cada um, moldados pelas condições que são expostos e pelos princípios da época em que viviam, a exemplo da própria mística em volta da figura do rei.

O livro em si é dividido em duas partes; a primeira focada mais nas batalhas e no enfrentamento entre as forças dos dois reis, culminando na famosa Batalha de Towton, e uma segunda parte, mais voltada para as consequências do resultado da batalha, tendo um foco mais na política e nas relações entre os personagens.

A_Batalha_de_Towton_por_Richard_Caton_Woodville

“A Batalha de Towton”, por Richard Caton Woodville

As batalhas, como de costume, são muito bem descritas, trazendo não só a questão da própria ação e da transcrição da intensidade das batalhas, mas também das peculiaridades das guerras medievais, como, por exemplo, a utilização de canhões e armas de fogo nos campos de batalha. Apesar de não parecer combinar com o período, a pólvora já era fabricado na Inglaterra em meados do século XIV, e desde a Guerra dos 100 anos já eram utilizados os primeiros canhões europeus (lembrando que já existiam modelos árabes e chineses) em batalha, os pot-de-fer, que disparavam projéteis parecidos com flechas.

Vale ressaltar aqui a Batalha de Towton, o mais sangrento combate travado em solo inglês, com um número de fatalidades acima de 28 mil mortos num único dia, segundo palavras do próprio autor nas notas históricas: “O rio correu vermelho durante três dias depois do combate.”. Além disso, é a batalha perfeita para mostrar a relevância da boa utilização de estratégias de batalha, usando a seu favor os fatores aleatórios que podem mudar tudo, ou a própria força que a motivação dos soldados no campo de batalha, bem como exemplifica perfeitamente toda a imprevisibilidade que marca essa história cheia de reviravoltas.

A realidade às vezes é muito mais surpreendente que qualquer coisa que a ficção possa criar, mas o polimento narrativo correto faz da História algo ainda melhor. Conn Iggulden é um dos meus escritores favoritos e um dos melhores do gênero na atualidade, estava bastante ansioso para ler esse volume e ele não decepciona. Herança de Sangue é o melhor dos três primeiros volumes da série e traz a tona toda a capacidade que o autor tem em preencher as lacunas da História e dar vida a esses personagens complexos, além de habilmente conseguir passar todo o espírito da época para os leitores modernos.

Desde já estou ansioso pelo volume final da série, ainda há muitas reviravoltas por vir, além de personagens importantes que estão para aparecer, e se continuar nessa evolução de um livro para o outro o próximo volume tem de tudo para corresponder todas as minhas expectativas.

 

PS: Quem quiser saber mais sobre a parte histórica, já fiz de um apanhado geral da Guerra das Rosas e seu desenrolar em um post sobre as inspirações históricas das Crônicas de Gelo e Fogo.

 

 

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