A Lança do Deserto (Ciclo das Trevas Vol.2) – Peter V. Brett

E eis que faço as minhas proteções e retorno as terras de Thesa para encarar a Noite e lutar a Alagai’sharak nesse segundo volume de Ciclo das Trevas.

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Após a batalha na Clareira do Lenhador boatos sobre o Protegido começam a se espalhar por todo o norte de Thesa e cada vez mais pessoas passam a acreditar o Salvador retornou para livrar o mundo dos terraítas, porém, em Krasia, o Salvador é visto como ninguém menos que Ahmann Jardir, que logo após obter a Lança de Kaji se proclama o Shar’Dama Ka e usa seu status como o líder supremo dos krasianos para unir o povo do deserto e seguir os passos do Salvador anterior e dar inicio a um novo Sol de Sharak, a Guerra da Luz, onde os krasianos marchariam para conquistarem as Terras Verdes e recrutar guerreiros para lutarem a Sharak Ka, a grande guerra sagrada contra os demônios.

Enquanto isso ressurge um novo tipo de terraíta já há muito esquecido pela humanidade, os demônios da mente. Príncipes entre os demônios das Profundas, eles eram mais inteligentes, conseguiam enxergar falhas nas proteções, comandavam outros demônios e eram capazes de entrar na mente das pessoas e controlá-las. Não tendo um poder físico tão grande quanto o mental eram protegidos por outra espécie de terraítas, os mímicos, seres capazes de assumir a forma de qualquer outro demônio, além de também serem capazes de copiar perfeitamente a aparência e a voz humana.

A coisa que mais chama a atenção é o próprio universo da série, tanto na questão da ambientação com todo o clima de isolamento que o autor consegue passar, quanto pela cultura de cada localidade e pelos próprios terraítas, inclusive seria um livro mais interessante se o autor resolvesse explorar mais esse universo do que ficar focando em alguns dramas e questionamentos dos personagens que não parecem levar a lugar algum, mas em relação a esse volume especificamente o ponto alto fica por conta da cultura de Krasia, fazendo com que o leitor enxergue com outros olhos personagens e situações passadas no livro anterior. É interessante ver como o autor usou elementos de A Arte da Guerra, livro do general chinês Sun Tzu, para fundamentar o pensamento guerreiro desse povo, além da própria divisão da sociedade em castas, dando poder e honra a aqueles que dedicam suas vidas a alagai’sharak, a guerra contra os “alagai”, a forma como os krasianos chamavam os terraítas, encarando isso como um dever sagrado.

O tema da coragem e a necessidade de agir para que possa haver alguma mudança é o que permeia a obra. O interessante são as visões quase que opostas, mas que ao mesmo tempo almejam um mesmo objetivo. O Protegido se nega a ser visto como o Salvador, para que as pessoas não vejam uma figura messiânica e deixem de agir por si próprios para mudar a situação em que se encontram. Para ele é mais necessário e benéfico ensinar o povo a se defender e não defender o povo, evitando assim que criem uma dependência dessa figura e mais uma vez acabem voltando para a estaca zero quando o Salvador não estiver mais por perto. Mas se Arlen nega a alcunha de Salvador, Jardir a abraça. Ele assume o peso a responsabilidade do título de Shar’Dama Ka para unir os povos do mundo contra os alagai para tentar mais uma vez derrotar os demônios, assim como aconteceu há eras anteriores com o antigo Salvador, vendo como única salvação a humanidade unida em uma guerra contra os terraítas.

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O livro vai muito bem em algumas partes, sobretudo na descrição das lutas e durante a parte passada em Krasia, porém como nem tudo são flores em algumas outras partes o nível do drama chega a beirar a de uma novela das oito, além do autor se estender em diálogos e interações entre personagens que poderiam ter sido encurtados para dar um maior dinamismo para a história ou mesmo porque parecem não levar a lugar algum. Seria interessante também o livro contar com um glossário de termos krasianos, visto que além de serem numerosos também aparecem a todo o momento, o que já deve ter ficado claro pela quantidade deles que coloquei nesta resenha, e muito embora estes termos não cheguem a atrapalhar a leitura, contudo o glossário seria um acréscimo muito bem vindo para facilitar a vida do leitor, ainda mais pelo núcleo de Krasia ser tão relevante para este livro.

Em A Lança do Deserto, a exemplo do que foi visto em O Protegido, também vemos as histórias de alguns personagens importantes para a trama sendo construídas desde a infância até a vida adulta, todos anteriormente já apresentados no volume anterior, são eles Jardir, que dispensa maiores apresentações; Abban, o khaffit amigo de Arlen em Krasia e Renna, a prometida de Arlen na infância, antes dele abandonar Riacho de Tibbet.

Gostei mais do Arlen nesse volume, apesar de quase não aparecer, porém achei interessante o fato do poder cobrar seu preço e O Protegido se ver mais perto da Noite e mais afastado da humanidade. Outro personagem que gostei foi o Rojer, muito por ele ser o mais fraco e mais falível, o que para mim é interessante dentro desse universo, que admito, não gostei muito do modo como os humanos viraram o jogo e se tornaram poderosos de uma hora para outra, não havendo mais aquele clima de desespero contra algum terraíta.

Também senti uma falta de um desenvolvimento maior em alguns pontos, as coisas acontecem muito rápido quase pela necessidade do que a trama pede no momento e não por alguma evolução mais natural, de forma que é bem comum vermos personagens que de camponeses passam a matadores profissionais de demônios com uma rapidez incrível, ou personagens se apaixonando em um piscar de olhos ou seguindo em frente após as desilusões amorosas como se não tivesse acontecido nada. Alguns pontos também soam forçados, como uma garota de 15 anos ser maior e mais forte que a grande maioria de lenhadores adultos da região, além de conseguir derrotar no braço três guerreiros treinados a vida toda (ainda mais depois de mostrado o quão espartano era o treinamento dos tais guerreiros), algo diferente de como lutam Inevera, que usa a seu favor o conhecimento dos pontos de pressão do corpo, ou da própria Leesha, que usa a botânica e a química ao seu favor.

Achei esse segundo volume inferior ao primeiro, muito pela falta de um combate contra uma ameaça maior que oferecesse efetivamente alguma resistência, além dos inimigos humanos pouco se mostrarem uma ameaça real em questão de enfrentamento. O livro também é um pouco repetitivo se comparado ao anterior, além de ser levemente previsível, contudo creio que quem gostou de O Protegido muito provavelmente vai gostar também de A Lança do Deserto, mas aqueles que não gostaram dificilmente irão cair de amores pela série nesse volume.

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