República de Ladrões (Nobres Vigaristas Vol.3) – Scott Lynch

República_de_LadrõesOs Nobres Vigaristas já atuaram em quase todas as esferas possíveis do mundo da trapaça e da falcatrua. Já foram batedores de carteiras, estelionatários, apostadores trapaceiros, golpistas e até mesmo piratas, mas agora Locke Lamora e Jean Tannen se arriscam em uma empreitada por um lado mais dissimulado do campo da ladroagem e da arte da enganação e se aventuram na política!

A história segue diretamente os acontecimentos de Mares de Sangue, o livro anterior da série, quando Locke fora envenenado por Maxilan Stragos, o então Arconte de Tal Verrar. Especializados cada vez mais na nobre arte de não serem mais bem vindos pelas terras por onde passam, com o tempo e os recursos financeiros ficando cada vez mais escassos, assim como as possibilidades de um auxílio médico convencional efetivo, os Nobres Vigaristas parecem estar diante de um abismo sem esperanças, e é nesse momento mais sombrio que recebem a visita totalmente inesperada da Arquidama Paciência, uma das mais poderosas e influentes magas de Kartane, que oferece a chance de uma cura através da magia em troca dos serviços da dupla para fraudar a eleição do Konseil, a assembleia que governaria a cidade dos magos pelos próximos cinco anos.

“O que é o governo, senão roubo consentido? Vocês vão circular numa sociedade de espíritos irmãos.”

Sem poder usar magia para a disputa, os Magos-Servidores escolhem um “colaborador” de fora encarregado de manipular os votos a favor de seu partido, gerando uma espécie de competição entre as duas facções políticas de Kartane, no que é chamado “Jogo dos Cinco Anos”. As duas facões se dividem entre os Magos-Servidores mais conservadores, facção a qual a Arquidama Paciência faz parte, que ignoram a maior parte do tempo os “sem-dons”, ocasionalmente aceitando contratos e quase sempre manipulando as pessoas conforme seus desejos, e os excepcionalistas, que são mais radicais e pensam que a melhor forma de se lidar com aqueles que não são magos é somente através da dominação total. A facção que vence a disputa acaba ganhando prestígio e poder pelos próximos anos.

Pra quem já derrubou governos e ajudou a por abaixo todo um esquema de poder no submundo do crime de Camorr, ter seis semanas para ganhar as eleições usando de trapaças e artimanhas com muitos recursos a disposição não deve ser uma tarefa tão árdua, o problema é que o lado dos seus adversários conta com Sabeta Belacoros, uma antiga Nobre Vigarista e amor da vida de Locke Lamora, tão boa nas artes da trapaça quanto ele.

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Não lembro se já disse isso, se não disse cometi um pecado imperdoável, mas se disse vale a pena dizer de novo: Essa é uma das melhores séries que li nos últimos tempos! A narrativa rápida e sempre divertida de Scott Lynch continua afiada nesse volume. Ele consegue facilmente envolver o leitor na história, misturando diálogos mordazes e bem humorados com planos malucos e uma ambientação fantástica, algo que deixa essa série com uma cara toda particular, porém devo dizer que em certos momentos o ritmo sofre uma quebra e fica um pouco arrastado, porém nada que chegue de fato a atrapalhar o livro como um todo, ainda que certas partes pudessem ter sido encurtadas, falarei mais sobre elas depois.

O mundo também vai ganhando contornos mais nítidos, abrindo não só um espaço para novas cidades, e de uma situação política que será explorada no próximo volume, mas também explorando um pouco mais a questão da magia, algo até então muito sutil e pouco presente nos outros livros, apresentando de forma mais clara todo o modus opperandi dos Magos-Servidores e o funcionamento e organização de sua sociedade. Além disso, ainda temos a revelação do possível passado de Locke Lamora, até então um mistério nebuloso.

Eu gosto bastante da fórmula empregada por Lynch na série, tanto por cada livro explorar facetas diferentes dos Nobres Vigaristas, funcionando como aventuras fechadas, quanto na questão extremamente irônica de ladrões tão ardilosos como esses acabarem de algum modo sempre sendo usados pelos outros. Cada livro é único de alguma forma, mas ao mesmo tempo mantém a essência de tudo que torna essa série especial sem se tornar repetitivo, evitando o erro de ficar preso a um mesmo tema. A dinâmica do enredo pode ser a mesma, mas a variedade proporcionada por esse recurso faz toda a diferença.

República de Ladrões, ao contrário de seus antecessores, não é voltado para um grande golpe em que Jean e Locke estejam envolvidos enquanto são forçados a agirem contra a sua vontade em outras frentes, mas em pequenas trapaças a fim de enfraquecer o partido adversário e ganhar alguma vantagem com os eleitores de Kartane, ou seja, aqui eles tem a liberdade de só serem obrigados a atuar como os peões no jogo de outras pessoas. Isso deixaria a história mais focada nessa parte da eleição, contudo o livro se propõe a abordar mais a relação complicada de Locke com Sabeta, que beira a obsessão, o que, a meu ver, acabou deixando a história um pouco mais arrastada do que deveria.

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Desta vez os interlúdios se dividem em dois pontos distintos, uma primeira parte fantástica focada na infância dos Nobres Vigaristas, coroada com uma passagem sobre a iniciação que os ladrões de Camorr passam dentro do culto ao Guardião Torto, um dos pontos altos desse livro.

Já a segunda, focada em uma missão que Correntes envia os Nobres Vigaristas para a cidade de Espara para se juntarem a uma companhia de teatro decadente liderada por um antigo amigo, a fim de possibilitar o grupo uma compreensão maior da arte de atuar e principalmente a cooperarem de forma mais organizada uns com os outros, foi, bem, foi desnecessariamente longa. Essa parte por vezes quase chegou a ser maior do que a parte da história principal, pouco acrescentando a narrativa e deixando tudo com uma cara de uma enrolação desnecessária para aprofundar o relacionamento do Locke com a Sabeta, além de retirar o espaço para maquinações e algum senso de perigo mais urgente e extremo, o que daria um pouco mais de intensidade para a história. Não precisava de tanto para entender bem a dinâmica entre os dois.

Ainda que mais um pouco sombrio e com um ritmo um pouco mais irregular que seus antecessores, República de Ladrões é um ótimo livro. É fácil dar gargalhadas com as tiradas de alguns personagens e, apesar de algumas partes, ainda é uma leitura muito fluída e extremamente prazerosa que presenteia o leitor com momentos bem divertidos e entrega um gancho que te deixa ansioso pelo próximo volume.

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2 comentários sobre “República de Ladrões (Nobres Vigaristas Vol.3) – Scott Lynch

  1. Gallo, fala a verdade, em algum momento tu mistura as histórias? São tantas resenhas de universos fantásticos sensacionais que eu fico com a sensação de que esqueceria de alguns eventos.
    Às vezes, enquanto assisto O Senhor dos Anéis, isso acontece um pouco comigo, ainda mais quando temos tantas leituras pra dar conta.
    Dá uma pontada de tristeza, mas… É a vida, rsrsrsrsrs…
    Adorei a resenha, fiquei com vontade de ler, mas necessito de um viratempo ou coisa que o valha.
    Abração

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Elaine! Olha, eu acabo lendo muito ficção fantástica, e em geral são os livros que me levam mais a escrever alguma coisa a respeito deles, muito por conta da própria diversidade e espaço para especular sobre os universos e a narrativa em si. Não chego a misturar as histórias por já estar acostumado, mas realmente muita coisa acaba se entrelaçando e vc é transportado para outrs histórias, mas muita coisa acaba se perdendo mesmo, é o meu medo quando sair o 6º volume das Crônicas de Gelo e Fogo, e nesse uma relida fica difícil, hahaha Mas dá pra lembrar de muita coisa quando a história vai se desenrolando.
      Essa é uma das melhores séries de fantasias que li nos últimos anos, vale muito a pena mesmo.
      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

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