O Conde de Monte Cristo – Alexandre Dumas

OCondedeMonteCristoÉ sempre difícil falar de uma obra que beira a unanimidade em questão de excelência sem que se caia no óbvio, ainda mais uma que consegue ser tão magnética a ponto de prender o leitor por mais de 1500 páginas. O Conde de Monte Cristo, magnífica obra de Alexandre Dumas, ignora as barreiras das épocas e se sustenta de modo inabalável como um clássico da literatura mundial por mais de 170 anos, admiravelmente conseguindo se manter popular e cativar os leitores atuais com a mesma intensidade com que conquistava os seus primeiros leitores em meados do século XIX.

A esta altura, depois de tantas e tantas adaptações ao longo dos anos, a história já deve ser conhecida pela maioria e corro o risco de ser repetitivo, mas prefiro pecar pelo excesso do que pela ausência, portanto segue uma pequena sinopse para os perdidos:

A história se passa em 1815, na França, portanto um ano após a queda de Napoleão Bonaparte, que foi mandado ao exílio na Ilha de Elba, enquanto o trono era restaurado aos Bourbon. Edmond Dantès, um honrado, porém ingênuo, marinheiro vive o ápice da felicidade em sua vida: recebe o comando do navio Pharaon e planeja casar o mais rápido o possível com o amor de sua vida, Mercedes. Tudo muda, no entanto, quando Dantès é falsamente acusado de ser um agente bonapartista em uma trama arquitetada pelos invejosos Danglars, que se ressentia pelo sucesso de Edmond, e por Fernand Mondego, que era apaixonado por Mercedes, que enviaram uma carta anônima ao procurador do rei alertando que o marujo teria recebido uma carta de Napoleão quando o Pharaon teria feito escala na Ilha de Elba.

Dantès é levado a Gérard de Villefort, substituto do procurador do rei, que percebe que o rapaz é inocente, mas ao ver que a carta era endereçado ao seu pai, fiel apoiador do ex-imperador, resolve levar a cabo a acusação por temer perder a boa posição que conquistara no governo de  Luís XVIII. Sentenciado a prisão no Castelo de If, Edmond se vê à beira do desespero nos seus anos de cárcere, porém desta vez a fortuna lhe sorri quando conhece o seu vizinho de cela, o abade Faria, um preso político que o educa em troca de trabalharem juntos em uma fuga da prisão, além de lhe contar o segredo do fabuloso tesouro de Spada, que se encontrava escondido na deserta ilha de Monte Cristo.

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Eventualmente Dantès escapa, mas vê que o mundo mudou radicalmente após os anos que passara aprisionado: seu pai morrera e seu antigo patrão e benfeitor estava à beira da falência enquanto seus inimigos se tornaram pessoas eminentes da sociedade parisiense. Fernand fez carreira militar, alcançou um alto posto, fez fortuna considerável e se tornou conde, além de se casar com Mercedes; Danglars também enriqueceu e se tornou barão; Villefort agora era o procurador do rei.

Vítima do destino, descrente na justiça divina e na justiça dos homens, Edmond Dantès resolve usar a fortuna de Spada para punir aqueles que tramaram contra sua felicidade e o condenaram ao abismo do sofrimento. Comprando um título de nobreza e planejando meticulosamente cada passo da sua vingança, Dantès retorna à sociedade como o Conde de Monte Cristo.

ilustração_o_conde_de_monte_cristoEm tempos em que ideias são reduzidas a poucas linhas ou algumas imagens pode parecer um desafio aos novos leitores encarar um livro com quase duas mil páginas, ainda mais por se tratar de um livro que merece e deve ser lido com calma, seguindo o próprio ritmo. A forma um tanto dramática de alguns diálogos, um pouco teatral, bem diferente de hoje em dia, e tenham isso em vista, pode parecer levemente estranha para alguns. O ardor nas palavras que só os escritores de outrora davam aos seus romances, com uma intensidade e forma de narrar que para uns pode soar às vezes como quase exagerada, mas que está dentro do espírito literário da época, além dos próprios modos da nobreza e da alta sociedade em geral, aliados, obviamente, ao estilo de uma narrativa que tocasse e envolvesse os leitores. Para quem não está acostumado a esse estilo pode sentir essa estranheza, mas não é algo que sirva de empecilho para a leitura, muito pelo contrário, penso que, assim como foi o meu caso, agradará quase que certamente a outros leitores. Não se preocupem, não é um livro difícil de ser lido.

Vale ressaltar que O Conde de Monte Cristo foi publicado originalmente como folhetim entre agosto de 1844 e janeiro de 1846 (e já no ano seguinte de publicação na França, isto é em 1845, chegava ao Brasil nas páginas do Jornal do Commercio), portanto é um livro repleto de ganchos e reviravoltas que conseguem prender a atenção do leitor e movimentam a trama, com a inserção de pequenas histórias paralelas que de um modo ou de outro tem ligação com Monte Cristo ou com aqueles ligados a ele, quase como pequenos contos dentro da história que são bem interessantes, como, por exemplo, a do bandido Luigi Vampa.

Algo interessante a ser dito é que o autor trabalhava com a colaboração de outros escritores e pesquisadores, muito por conta das pesquisas históricas que depois eram romanceadas por Dumas, aliás, um dos grandes nomes dentro do estilo de romance histórico. A principal destes ajudantes foi Auguste Maquet, porém, que justiça seja feita, Maquet escrevia esboços aos quais Dumas mais tarde romanceava, dando todo o de dramaticidade e do próprio magnetismo da escrita que fazia as histórias serem um sucesso, tanto que quando a parceria se desfez e Maquet entrou com um processo contra Dumas, mas acabou perdendo o direito de assinar como coautor.

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Falando no autor e sua obra, Dumas teve a ideia de escrever o livro quando esteve na companhia de um sobrinho de Napoleão Bonaparte ao passar por essa pequena ilha desabitada quando estavam em uma viagem para que o sobrinho do ex-imperador da França conhecesse a Ilha de Elba, local onde anos antes Napoleão fora exilado, prometendo ao príncipe que daria o nome da ilha a algum romance que escreveria. Dois anos depois dessa viagem o público ganhava O Conde De Monte Cristo.

Dá pra perceber que o próprio cenário político que a França vivia é um aspecto importante dentro desse romance, com tramas que se desenvolvem por questões políticas relativas à queda do Império e a restauração da monarquia ao poder, usando como plano de fundo o momento político conturbado daquele país e da própria Europa, com a Restauração Bourbon, o Governo dos 100 dias e a Revolução de 1830. O leitor que conhecer um pouco sobre essa época certamente aproveitará mais a leitura, porém para aqueles que pouco conhecem do período, esse ponto não chega a ser um problema para a compreensão da história ou das motivações dos personagens, até pelo caráter primário da vingança pessoal de Dantès, muito embora a história não fique presa a só um assunto e explore também temas como lealdade, ambição, perdão e a esperança.

Em Monte Cristo temos um herói soturno, excêntrico, culto, e que exerce um magnetismo natural que atraí a atenção das pessoas ao mesmo tempo em que fascina pela figura que se apresenta e pelo mistério que é. Vemos a mudança de um jovem ingênuo e de bom coração que, endurecido pela vida e pelo sofrimento, transforma-se em um misantropo, nutrindo pouco apreço pela sociedade e pela justiça mundana ao mesmo tempo em que se vê como parte da providência divina para levar a justiça aos culpados. Como parte pelo desprezo pela própria sociedade ele não raramente se associa com bandidos e usa de meios escusos para alcançar seus objetivos, mas ao mesmo é tempo não totalmente abandona a bondade e a fé na lealdade de algumas pessoas e é capaz de rever a validade de seus atos, ainda que o desejo de vingança lhe fale alto. Vale a menção de outros tantos personagens interessantes, como o abade Faria, o mentor de Dantès, e Noirtier de Villefort, o pai do procurador do rei.

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Uma obra que sem dúvidas figura por merecimento no panteão das grandes obras literárias. Foi uma verdadeira jornada que levou quase um mês e 1663 páginas, mas que compensou imensamente, e por isso mesmo é um livro que demanda um tempo próprio e que deve ser lido aproveitando-se cada página, sem pressa. Em uma época em que umas poucas linhas juntas já são consideradas como um “textão”, e para qual essa resenha é quase uma ofensa, as quase duas mil páginas passam voando enquanto o leitor continua entretido com a narrativa de Alexandre Dumas. Ao final, além de uma já saudade da obra, fica também a certeza que algumas histórias devem ser lidas e se possível relidas, e que também o tempo não significa muita coisa diante da qualidade que faz com que seja possível algumas histórias se tornarem imortais.

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2 comentários sobre “O Conde de Monte Cristo – Alexandre Dumas

  1. “Uma obra que sem dúvidas figura por merecimento no panteão das grandes obras literárias”, concordo, em absoluto.
    Uma das coisas que me atrai nas grandes histórias – e aí lançaria mão, rapidamente, de O Senhor dos Anéis e A Montanha Mágica – é a presença de figuras essenciais como os “mentores”. Como eles são sensacionais e como deveriam existir para além do universo literário, rsrsrsrrs…
    Excelente resenha, Gallo! Parabéns!!

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigado, Elaine!

      O papel do mentor é importante pra definir o herói, não à toa é um elemento importante dentro do monomito, em geral é quem direciona o herói pra um determinado lado, se bem que Monte Cristo demorou bastante pra acatar os conselhos do abade Faria. Hahaha É dificil esbarrar com velhos sábios de barbas brancas que dão conselhos valorosos por aí, mas os pais, professores e amigos que acabam por ajudar na nossa formação acabam se dividindo um pouco nessa figura de um guia e formador do nosso caráter e de como nós acabamos por perceber o mundo, só é uma pena que raramente a gente os enxergue como essa imagem mais bem definida do arquétipo do mentor, e por vezes acabamos perdendo um pouco a oportunidade de absorver alguns bons conselhos como deveríamos por achar que os estamos recebendo de gente muito nova, mais simples, conhecida, etc. Acho que são interessantes justamente pq são reais e as historias acabam falando com a gente quando usam esses arquétipos para expressar parte do cada um vive diariamente, mas a ficção tem a leva vantagem de poder extrapolar um pouco, haha. Mas se o Gandalf chegar me convidando pra uma aventura na Terra-Média eu faço minhas malas na hora!

      Curtido por 1 pessoa

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