O Feiticeiro de Terramar (Ciclo Terramar Vol.1) – Ursula K. Le Guin

Terramar_Vol_1Gerar expectativas altas para qualquer coisa geralmente é um caminho que leva diretamente para a frustração. É inevitável que a ansiedade mal controlada gere algum tipo de idealização que reflete muito mais aquilo que você deseja que a obra seja do que aquilo que de fato ela se propõe a ser, e não raramente essa distorção que você mesmo acaba criando é um dos fatores que mais prejudica a sua experiência em relação a tal obra. Da mesma forma, tentar ter um olhar mais amplo, procurando entender a proposta do autor antes de julgar por algo subjetivo e pessoal, pode lhe fazer ter outra perspectiva mais positiva sobre alguma composição artística qualquer. Digo isso, pois O Feiticeiro de Terramar me frustrou quase da mesma maneira como me agradou.

A história acompanha Ged, conhecido como Gavião, um jovem com aptidão para a magia que um dia se tornará o maior mago do arquipélago de Terramar, porém não acompanhamos o mito, mas o garoto em seu processo de aprendizado, passando pela descoberta de sua inclinação para o domínio da magia, seus estudos, suas amizades, rivalidades e as consequências das escolhas e dos erros que ele acaba cometendo por ser imaturo.

O talento nato de Ged o leva a estudar magia com outros jovens em uma escola para magos, onde ele logo se destaca, contudo, ao responder a provocação de um dos seus colegas ao qual enxergava como um rival, ele, orgulhoso, comete o erro de tentar invocar um espírito dos mortos, mesmo sem ter controle do feitiço ou entendê-lo por completo, liberando no mundo uma sombra maligna a qual poderia tomar o controle do garoto. Ged então deve viajar por toda a Terramar em busca de uma solução para se libertar da criatura e evitar que um mal ainda maior seja feito.

Escrito pela premiada autora americana Ursula K. Le Guin, O Feiticeiro de Terramar se tornou um clássico da literatura de fantasia por quebrar uma série de paradigmas dentro do gênero da literatura fantástica. Publicado originalmente em 1968, época em que quase não havia livros de fantasia para adolescentes, a bem da verdade até a década de 50 não havia quase nada voltada para essa fatia de mercado- e antes disso nem havia bem uma ideia de “público adolescente”-, tampouco havia livros de fantasia onde os magos ao invés de serem velhos sábios eram na verdade jovens inexperientes, contudo o que mais chama a atenção é o fato do protagonista, bem como a maior parte dos personagens, não ser branco, tendo na verdade um tom de pele mais puxado pro “marrom acobreado”, só lembrando que a história foi escrita na década de 60, época do auge do movimento pelos direitos civis nos EUA.

Essa inexperiência do protagonista permite a autora não só deixar Ged com apenas características positivas, muitas das já bem conhecidas pelo público de outros tantos personagens de fantasia, como ter um dom inerente e ser capaz de aprender rápido, mas também permite colocar traços de personalidade que possam ser considerados negativos, traços esses comuns até da própria juventude, como a vaidade e o orgulho, algo que ela trabalha bem dentro da proposta do amadurecimento do garoto e do processo de compreensão da natureza, do poder e das ações de atos impensados que alteram o equilíbrio do universo e de suas efeitos, que podem gerar eventos desastrosos. Aliás, a magia usada no livro, com a noção de que tudo possui um nome verdadeiro e saber o nome verdadeiro de algo lhe daria poder sobre aquilo, implica na própria questão de conhecer algo em sua essência, de compreender perfeitamente o lugar que tal coisa pertence.

Apesar desses elogios também tenho que falar do que me desagradou. Por ser um livro bem rápido faltou maturar certas passagens, criar apreensão e dar um clímax maior aos acontecimentos, o que fatalmente deixou a aventura um pouco corrida e sem muita emoção, algo que talvez seja mais sentido pela falta de ação, até por conta da aventura focar mais na busca pelo entendimento do “verdadeiro eu” do que uma luta entre o “bem x mal”, mas que acaba deixando o livro sem aquela emoção verdadeira ou sem um sentido de apreensão que poderia ajudar na empatia pelos personagens e no próprio entendimento do peso que Ged carrega por seus atos.

Como eu disse no início, esse foi um livro que me frustrou tanto quanto me agradou. Talvez o público-alvo do livro não seja tão crítico sobre os pontos que desgostei e ache o livro uma aventura divertida e rápida, algo simples e despretensioso e que fale mais diretamente a esses jovens leitores. Para mim ainda pareceu acontecer muita coisa sem que, no entanto, tivesse aquela sensação de magnitude que esperava em alguns acontecimentos, cheguei até achar a aventura bem morosa em alguns momentos. Mas como esse é só o primeiro livro do Ciclo Terramar, e a primeira aventura de Ursula escrevendo para esse público young adult, acho que ainda tem muita coisa que pode ser melhorada nos próximos volumes, aos quais pretendo ler futuramente, e desta vez, talvez, goste mais por já saber o que posso esperar.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s