Meio Rei (Mar Despedaçado Vol.1) – Joe Abercrombie

MeioRei_15mm.inddMeio Rei há muito atiçava minha curiosidade. Um livro que daria início a trilogia Mar Despedaçado, passado em um mundo com uma pegada meio viking e escrita pelo britânico Joe Abercrombie, um escritor conhecido pelos seus livros de dark fantasy, sendo inclusive um dos grandes nomes do gênero na atualidade, algo que não poderia combinar mais. Pois é, mas essa curiosidade na verdade era uma mistura de interesse com alguma desconfiança. Muitos dos que talvez, assim como eu, conheceram o autor pela trilogia “A Primeira Lei” também devem ter sentido o mesmo, isto porque desta vez Abercrombie resolveu sair um pouco de sua zona de conforto e arriscar algo mais na linha young adult, o que me fez ficar com um pé atrás com essa nova trilogia. Realmente não sabia o que esperar desse livro, e Meio Rei me surpreendeu. 

Em meio Rei acompanhamos a história de Yarvi, o segundo filho do rei de Gettland. Tendo nascido com uma deformidade na mão esquerda ele era visto como um “meio homem”, alguém incapaz de segurar um escudo e uma espada ao mesmo tempo. Sabendo que nunca poderia corresponder as expectativas de seu pai, além de estar na sombra dos feitos do irmão mais velho, Yarvi decide estudar para se tornar um Ministro, uma posição de respeito onde sua deformidade não seria impedimento algum e onde poderia se destacar com o seu maior dom, a inteligência.

Toda a sua vida muda, porém, quando chega à notícia que seu pai e seu irmão foram mortos enquanto iam negociar um acordo de paz em Vansterland. Agora como rei o dever impele Yarvi a dar uma resposta à altura e, jurando se vingar dos assassinos de seu pai e do seu irmão, ele parte com um grupo de guerreiros para as terras dos seus inimigos, porém em sua primeira incursão ele é traído e acaba sendo vendido como escravo. Preso as correntes de seu juramento, e as de aço, Yarvi tem de superar numerosas provações no Mar Despedaçado e usar sua astúcia a fim de superar sua condição atual, se vingar do verdadeiro assassino de seus familiares e retomar o trono de Gettland.

Minhas dúvidas em relação ao tom do livro foram logo desfeitas de início, de fato, apesar de ser taxada como young adult (sinceramente não rotularia como YA, ou pelo menos o que eu conheço por YA), a história apresenta alguns elementos mais sombrios que lembram bastante outros livros do autor. É nítido que apesar de ser algo menos visceral que “A Primeira Lei” em relação às batalhas, Abercrombie não perde aquilo que sabe fazer de melhor, dando um tom mais opressivo para este mundo marcado pelas batalhas e pela escravidão, e muito embora não foque exatamente nesse ponto o autor consegue passar bem um clima mais bárbaro e cruel, que é em si um elemento que permeia toda a sociedade dentro do Mar Despedaçado, algo que não esperava de um livro classificado como YA.

“Uma vez, depois que seu pai havia batido nele, furioso, a mãe o encontrara chorando. O tolo bate, dissera ela. O sábio sorri, observa e aprende. Depois bate.”

Joe Abercrombie é um excelente contador de histórias, logo de cara ele consegue te prender e imprime um ritmo bem rápido, com capítulos curtos e sem muita enrolação, o que por um lado acaba por prejudicar um aprofundamento melhor nos personagens, sobretudo os secundários, deixando a história como uma aventura mais simples e focada exclusivamente em Yarvi. Um problema um pouco maior foi uma quebra de ritmo na segunda metade do livro que deixou as coisas mais lentas, porém o ritmo é retomado na parte final, que inclusive tem toda a cara do autor.

Não há muito o que se falar dos personagens, já que Yarvi é basicamente aquele que tem algum desenvolvimento maior, mas o autor consegue passar bem a questão do protagonista ser bem inseguro, algo condizente com que ele é e pelo que passa, mas que aos poucos vai aprendendo a usar o que tem de melhor e não o que os outros esperam dele. Apesar de ser um livro bem curto eu gostei bastante da evolução do Yarvi, algo que de certa forma lembra o que ele fez em “A Primeira Lei” quanto à questão dos personagens serem fiéis as suas essências e não se transformarem da água pro vinho. As mudanças estão lá e são até óbvias, mas antes de tudo é uma jornada onde o crescimento se dá pelo herói descobrindo quem ele é. Guardando todas as respectivas proporções ele me lembrou o Glokta, sem no entanto ter tanta amargura e sarcasmo quanto o inquisidor, porém com algo de um autodesprezo causado pela sua deficiência e por como as pessoas o enxergavam, mas também pela forma de usar a astúcia em um mundo onde basicamente as pessoas se valem mais da força.

“Meio Rei” é um livro bem dinâmico e simples, porém muito bem escrito e  entrega uma história bem divertida que consegue atingir outros públicos que não estão acostumados ou que não curtem livros YA, a única ressalva fica mesmo pela história ser um pouco previsível, algo que não chega a estragar o todo. Vale ressaltar também que apesar da história dar início a trilogia Mar Despedaçado ela é fechada em si mesma quase como se fosse um livro stand alone, ainda que dê um belo gancho para Meio Mundo, o próximo volume.

 

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