Tigana: A Lâmina Na Alma – Guy Gavriel Kay

tiganaPublicado originalmente em 1990 como volume único, Tigana, do autor canadense Guy Gavriel Kay, acabou por ser dividida em duas partes aqui no Brasil, uma escolha a qual não me agradou muito e sobre a qual falarei mais adiante, porém faz-se necessário enfatizar que as minhas impressões acerca da obra se baseiam totalmente nessa primeira parte, Tigana: A Lâmina na Alma.

A história se passa na Península de Palma, composta por nove províncias que, cegas por suas próprias guerras internas, foram incapazes de ser unir para rechaçar as invasões dos exércitos estrangeiros de Brandin de Ygrath e Alberico de Barbadior, dois poderosos magos estrangeiros. Uma a uma, as províncias de Palma foram caindo sob o domínio desses tiranos, que acabaram por estabelecer um delicado equilíbrio de forças, esperando uma fraqueza do outro para avançar e conquistar os territórios do rival.

Stevan, o filho de Brandin, acaba por ser morto pelas forças de resistência da província de Tigana, e o mago, cego de dor pela morte de seu filho, resolve destruir as principais cidades de Tigana e lança uma maldição sobre o seu povo, a fim de qualquer um que não for nascido naquelas terras jamais possa se lembrar ou pronunciar o nome Tigana outra vez, apagando a história e a cultura daquela nação para todo o resto do mundo. Anos se passam e Alessan, filho do príncipe de Tigana, busca resgatar as memórias de sua terra, liderando um pequeno grupo de compatriotas a fim de derrubar os dois magos e restaurar o nome, a lembrança e o orgulho de uma nação esquecida.

O nome de Guy Kay talvez seja conhecido dos leitores de literatura fantástica por ele ter trabalhado com Christopher Tolkien entre 1974 e 1975, ajudando o filho do mais aclamado autor de fantasia na árdua tarefa de editar O Silmarillion, porém deve-se ter em mente que tentar de alguma forma associar esta obra com outras de J. R. R. Tolkien é um erro crasso, e apesar de conter elementos fantásticos, eles ficam em segundo plano e Tigana passa longe de ser uma aventura épica.

Guy também escreve com um tom bem poético, conseguindo transmitir bem o clima melancólico de uma terra subjulgada por tiranos e por aqueles que lutam pelo direito de reestabelecer a alma de sua terra, e até mesmo um pouco de quem são, porém, apesar de todo a beleza da escrita ela é em si bem maçante. O início é bem monótono e os personagens não chegam a cativar o suficiente para você se importar com eles, tendo como base única de empatia a dor pela perda de uma terra, que muitos nem chegaram a conhecer, e cuja história foi apagada da mente das outras pessoas, mas esse é um sentimento que seja tão forte a ponto de arrebatar o leitor que não tenha passado por algo semelhante, e os brasileiros dificilmente entenderiam esse conceito com essa intensidade.

O enredo arrastado também sofre com uma falta de ação maior para dar um dinamismo que seria necessário para alimentar a vontade de continuar acompanhando a história com entusiasmo, porém senti mais vontade de largar o livro e fazer outra coisa do que ansiedade para saber como a trama iria se desenrolar, sim, é uma história que chega a ser dolorosamente cansativa em certas partes. Além do aspecto fatigante, um dos grandes defeitos reside justamente na decisão de terem dividido o livro em duas partes, deixando o final com um termino um tanto quanto abrupto, sem um ápice que satisfaça ou um gancho que instigue.

Infelizmente a impressão que fica dessa primeira parte é a de um livro com uma ideia interessante, mas que não empolga. Não fiquei com muita vontade de prosseguir com o segundo volume, muito embora eu tenha interesse em ler outras obras do autor. Não crie expectativas e deixe para ler esse livro quando estiver no clima certo para tal, e prepare-se para uma leitura cansativa, ainda que tenha em si certa beleza.

 

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4 comentários sobre “Tigana: A Lâmina Na Alma – Guy Gavriel Kay

  1. “Tendo como base única de empatia a dor pela perda de uma terra, que muitos nem chegaram a conhecer, e cuja história foi apagada da mente das outras pessoas, mas esse é um sentimento que seja tão forte a ponto de arrebatar o leitor que não tenha passado por algo semelhante, e os brasileiros dificilmente entenderiam esse conceito com essa intensidade”, que o diga a nossa genealogia indígena. 😦
    Gostei bastante da sinceridade da sua opinião.

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigado Elaine! De certa forma não temos esse contato mais próximo, seja pelo pouco contato com a cultura indígena (de certa forma a grande maioria dos brasileiros tem laços culturais mais fortes com os povos da Europa e da África do que com os nativos) ou pelo próprio processo de miscigenação, que mesmo tendo essa ascendência de fora do território nacional a grande maioria se vê como filho da terra mesmo, como brasileiro e poucas regiões ainda resguardam algum traço que os conecte com a cultura dos imigrantes, como é o caso de alguma colônias. Muito por conta disso não temos um laço tão determinístico como outros povos que tiveram pouca mistura e que eram de certa forma mais fechados, e não sentimos bem esse sentimento que o autor tenta evocar. Pro brasileiro essa perda de identidade não é tão sentida, exceto para com os diversos povos indígenas que habitavam e ainda habitam o território nacional, fora eles a nossa cultura como um todo é mesclada e menos intocada, e por isso, não temos necessariamente uma ligação com algo maior que evoque uma identidade única para nosso povo, temos muitas identidades ao invés disso.

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