Mares de Sangue (Nobres Vigaristas Vol.2) – Scott Lynch

E eis que voltamos aos golpes e embustes de Locke Lamora e de seu comparsa Jean Tannen, e desta vez os Nobres Vigaristas apostam alto, içam velas e navegam por águas estranhas.

mares_de_sangue

Após os acontecimentos do livro anterior, quando Locke e Jean se tornaram “personae non gratae” em Camorr e se viram obrigados a abandonarem a cidade, a dupla de vigaristas decide que essa pequena inconveniência pode ser uma bela oportunidade para respirarem novos ares, conhecerem outros locais fascinantes, algumas pessoas interessantes e então roubá-los, e o alvo da dupla desta vez é a bela cidade de Tal Verrar, onde fica localizada a Agulha do Pecado, a mais famosa casa de tavolagem do mundo, onde ser pego roubando no jogo significava a morte, algo que para os nobres vigaristas soa mais como um irresistível desafio do que um severo aviso ao qual pessoas bem ajustadas e sensatas dariam ouvidos.

“Quando não se pode trapacear no jogo, é melhor encontrar um modo de trapacear o jogador.”

Após dois anos de planejamento meticuloso, quantias substanciais de dinheiro e de tempo gastos e um pouco daquilo que eles mesmos chamavam de “métodos discretamente não ortodoxos”, a dupla vai aos poucos subindo aos níveis mais altos da casa de jogos até que enfim conseguem chamar a atenção de Requin, o senhor da Agulha do Pecado, porém, quando achavam que tudo estava indo conforme o imaginado, seus golpes mais uma vez são interrompidos ao se verem presos a uma poderosa pessoa que sabe da vida criminosa dos dois e quer se aproveitar das habilidades de ambos, desta vez porém se trata de Maxilan Stragos, o Arconte de Tal Verrar, que deseja quem ambos instiguem uma nova onda de pirataria às costas de Tal Verrar, uma vez que divida a autoridade de governo com o Priori, que era basicamente um conjunto de conselhos mercantis, mas com uma ameaça deste porte à cidade ficaria com o poder absoluto em suas mãos.

Poucas vezes precisei de tão pouco pra me tornar fã de algum escritor. A atenção aos detalhes ao criar um mundo vivo e dinâmico, aliada a uma invejável habilidade de escrita fazem de Scott Lynch indubitavelmente um dos grandes nomes da fantasia contemporânea, e nome certo ao procurar algum livro de ficção fantástica que vá te fisgar de primeira. Confesso que já estava ansioso pela continuação de um dos melhores livros de fantasia que li nos últimos anos, e as minhas expectativas foram todas recompensadas com mais um livro absolutamente divertido, surpreendente e que consegue expandir ainda mais esse universo fantástico que serve tão bem de palco para as trapaças e artimanhas dos Nobres Vigaristas.

“Sabe de uma coisa? Eu apostaria que, contando as pessoas que estão nos seguindo e as que estão nos caçando, nós viramos o principal meio de emprego desta cidade. Toda a economia de Tal Verrar está baseada agora em foder com a gente.”

O livro, de início, segue um ritmo bem parecido com As Mentiras de Locke Lamora, com Locke e Jean executando mais um de seus grandiosos golpes que beiram o impensável, tentando roubar o instransponível cofre da Agulha do Pecado, porém os acontecimentos acabam levando a dupla de golpistas a terem de desempenhar o papel de piratas, deixando a história mais presa ao Mar de Bronze, e nesse ponto há uma certa quebra no ritmo da narrativa, mas em nenhum momento se torna algo monótono ou cansativo, na verdade algo a ser dito é que a trama é sempre bem movimentada e não fica presa a um só evento, inclusive os Nobres Vigaristas tem de se virar para enganar três núcleos diferentes ao longo da história. Apesar de isso ser uma receita para o caos, de alguma forma Lynch consegue fazer com que tudo fique bem amarrado sem ter a necessidade de passar por cima ou abandonar algum acontecimento que tenha iniciado.

mds

Uma imagem de um navio em chamas? Mas que spoiler indecente do prólogo do livro!

Em Mares de Sangue também vemos o mesmo recurso utilizado no volume anterior com pequenos interlúdios, desta vez focada nos últimos dois anos dos Nobres Vigaristas, quando eles fugiram de Camorr em direção a Tar Verrar e de toda a preparação do plano para efetuarem o roubo do cofre de Requin. Essas pausas na história também servem para aprofundar mais a relação entre Jean e Locke, já que ambos vivenciaram um período conturbado tentando lidar com as perdas que tiveram e a reação de cada um diante desse abalo que sofreram é algo que gera algum atrito entre os dois, aliás, a relação entre os colegas/comparsas e os diálogos entre ambos sempre rendem bons momentos e certamente são um dos pontos altos desse livro.

Lynch continua mostrando sua excepcional habilidade na construção de mundos, acrescentando detalhes que parecem dar uma vida própria a esse universo, e essa atenção a cada ponto é vital para que se possa construir uma sociedade rica e plausível, com seus artefatos intrigantes, locais fascinantes, supertições originais e até mesmo marcada por pequenos conflitos que acrescentam como plano de fundo, como é o caso da Guilda dos Escribas com a introdução da impressora naquela sociedade. A exemplo de Camorr e Veneza, Tal Verrar, “A Rosa dos Deuses”, lembra muito a Monte Carlo dos dias de hoje pela riqueza ostentada e a fama relacionada a uma casa de jogos, aliás, toda a série é marcada por ter uma cultura que remete ao Mediterrâneo, mais precisamente inspirada nos estados italianos na Idade Média e Renascença, seja pela relação de governo ou mesmo pela semelhança  histórica, já que antigamente havia um Império que se dividiu em cidades-estados, o Trono Terin, exatamente como ocorreu com a queda do Império Romano, ou mesmo pela rivalidade entre essas cidades-estados.

Não há como não ficar fisgado pela forma como Scott Lynch tece suas histórias, mesclando um humor carregado de sarcasmo, personagens ardilosos, cenários fantásticos e reviravoltas surpreendentes. Apesar de ter adorado o clima que Camorr possuía, acho acertada essa decisão de cada livro promover uma mudança de cenário, algo que estimula a inventividade do autor e dá a possibilidade de se explorar outras cidades com suas particularidades e outras facetas dos Nobres Vigaristas, algo que estou ansioso pra ver nos próximos volumes. No geral é um livro que beira a excelência, ainda que pessoalmente eu tenha gostado mais do primeiro, mas Mares de Sangue tem tudo pra agradar a quem tenha gostado ou mesmo para conquistar de vez quem não tenha se encantado tanto por seu antecessor e certamente coloca um pouco de ansiedade pelo próximo volume da série, República de Ladrões. “Que os ladrões prosperem. Que os ricos se lembrem.”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s