A Cor da Magia – Terry Pratchett

a_cor_da_magiaTente imaginar uma grande tartaruga. Na verdade tente imaginar uma tartaruga não apenas grande, mas extraordinariamente estonteantemente monstruosamente inacreditavelmente grande, bem, imagine então uma tartaruga extraordinariamente estonteantemente monstruosamente inacreditavelmente grande que viaja pelo universo carregando em seu colossal casco quatro elefantes gigantescos que, por sua vez, sustentam sob seus ombros um mundo inteiro em formato de disco, pois bem, esse é o mundo de Discworld. Neste mundo vivem criaturas fantásticas, além de deuses, magos e heróis, embora talvez eles não sejam exatamente aquilo que você pensa quando se fala em deuses, magos e heróis…

O personagem principal desse livro é o mago Rincewind. Fugindo totalmente do arquétipo de mago sábio e calmo que consegue resolver todos os problemas, ele na verdade é um tanto quanto medroso (bastante, na verdade), com uma grande capacidade em entrar em confusões e uma habilidade maior ainda de fugir delas, além de não ser bem um mago de verdade. Por uma falta de aptidão em aprender magia ele acabou por ser expulso da Universidade Invisível e só sabe um único feitiço, que fora aprendido de uma forma inusitada, não intencional e totalmente absurda. Por conta de uma aposta que fez com alguns colegas ele acabou abrindo um livro proibido onde estão encerrados os oito maiores feitiços do Discworld, e um deles simplesmente saiu das páginas para se alojar na cabeça do rapaz, impossibilitando-o de aprender qualquer outra magia que seja (as outras magias tinham medo desse feitiço), fora que ninguém sabia exatamente que feitiço era esse e o que ele fazia, ou seja, o único encanto que ele sabe é potencialmente perigoso, já que é um dos Oito Grandes Feitiços, mas ele não tem ideia do que vai acontecer se usá-lo, então ele acaba evitando recitá-lo. Coisa pouca para um mago, né?

O outro protagonista da história é Duasflor, um despreocupado turista do Império Agateano que queria conhecer o mundo, visitar lugares fantásticos, encontrar guerreiros de renome, presenciar brigas e avistar criaturas diversas, ou seja, queria ter algumas aventuras na sua vida, e durante a estadia na cidade de Morpork-Ankh contrata Rincewind como guia para conhecer o Discworld, e o pobre mago vai ter de se virar para garantir a segurança do inocente rapaz cheio de ouro em uma cidade de malandros, o que convenhamos, nunca não é uma boa combinação, enquanto ele mesmo tenta sobreviver as aventuras e desventuras que os aguardam.

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Rincewind e Duasflor em uma cena da adaptação em duas partes feita para a TV

O típico humor britânico que permeia todo o livro lembra de leve o usado pelo também britânico Douglas Adams em seu “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, é fácil relacionar não apenas o tom usado nas partes cômicas como também na própria concepção de mundos fantásticos, em ambos temos universos dinâmicos, vibrantes e repletos de absurdos, servindo também como uma forma de satirizar o nosso mundo e nosso comportamento, colocando em evidência os nossos absurdos diários através do humor que beira o non-sense, refletindo como são também ilógicos e incoerentes certos aspectos da nossa sociedade. Mas não vou mentir, pode parecer um pouco confuso inicialmente, já é um mundo muito vivo onde acontecem muitas coisas, realmente passa aquela sensação de ser um universo enérgico e sempre em movimento, e um mundo absurdo vive de absurdos, de acontecimentos fantásticos e de loucuras, mas essa é que a grande qualidade do livro, ele é um mundo em um movimento constante, e não falo por ele ser carregado através do infinito pela Grande A’Tuin, a tartaruga gigantesca, mas pelo tom da aventura em si e pela forma com que as coisas se desenrolam.

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A Grande A’Tuin, arte de Josh Kirby

O mundo mágico absurdo de Pratchett vive nos detalhes, como a máquina fotográfica com o pequeno ser que era responsável pelas imagens capturadas ou a “Bagagem”, um baú com inúmeras pequenas pernas que seguia o dono para qualquer lugar que fosse e protegia o seu dono tentando devorar qualquer um que o ameaçasse. Também satiriza bastante os clichês dos livros de fantasia, como o bárbaro estupidamente forte (e bem estúpido intelectualmente também), uma espada mágica falante (que gosta de falar bastante, na verdade), além de deuses jogando com as vidas de mortais e encontros com a morte, ou melhor dizendo com O MORTE, que aliás é um dos melhores personagens do livro, apesar das poucas aparições.

Dríades, trolls, bárbaros, ladrões, assassinos, magos, dragões. Um mundo de aventuras onde vemos cidades em chamas, templos com criaturas inomináveis dignas da imaginação de H.P. Lovecraft, moradas de dragões e viagens até as bordas do Discworld, e tudo isso Pratchett conseguiu colocar em um só livro de poucas páginas, porém poucas páginas extremamente divertidas.

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