O Príncipe De Westeros E Outras Histórias – George R. R. Martin & Gardner Dozois

Principe_de_Westeros_lombada25mm_Final.inddO Príncipe de Westeros e outras histórias é uma antologia de contos de diversos autores organizada pelos escritores George R. R. Martin e Gardner Dozois, cuja proposta é a de apresentar histórias que girem em torno de personagens de moral ambígua, aqueles que seguem mais a seus instintos e desejos do que a ideais altruístas. São histórias protagonizadas por canalhas, mentirosos e cafajestes de todos os tipos: ladrões astutos, golpistas que dominam a arte do logro, vigaristas e impostores ardilosos, além de malandros de bom coração (ou nem tanto). Aqueles personagens que podem tanto ser heróis quanto vilões que transitam entre a linha tênue que separa o bem e o mal, carregando o charme de serem mais críveis sem estarem presos a aquela artificialidade do maniqueísmo. Aqueles personagens que mesmo não fazendo o que é certo acabam gerando alguma simpatia por serem astutos e sagazes.

Originalmente a antologia, lá fora publicada como “Rogues”, conta com 21 contos, porém temos apenas 10 dessas histórias na edição brasileira, o que não é de forma alguma pouca coisa. Talvez se tenha dado preferência aos nomes mais conhecidos do público, ainda que o trabalho de muitos dos escolhidos para figurar nesta edição não devam ser familiares aos leitores brasileiros. Bem, de qualquer forma, os contos que fazem parte da edição nacional são: “Como o Marques recuperou seu casaco”, de Neil Gaiman; “Proveniência”, de David W. Ball; “Qual é a sua profissão?”, de Gillian Flynn; “Um jeito melhor de morrer”, de Paul Cornell; “Um ano e um dia na velha Theradane”, de Scott Lynch; “A Caravana para lugar nenhum”, de Phyllis Eisenstein; “Galho envergado”, de Joe R. Lansdale; “A árvore reluzente”, de Patrick Rothfuss; “Em cartaz”, de Connie Willis; “O Príncipe de Westeros ou O irmão do rei”, de George R. R. Martin.

Essa variedade de estilos possibilita que os autores possam explorar todas as facetas que um personagem dentro desse arquétipo possa ter, com as mais diferentes abordagens e temas, e isso acaba invariavelmente com contos que agradam mais a uns do que a outros, dependendo do gosto pessoal de cada um, ainda que isso seja extremamente positivo ao aumentar a probabilidade de agradar a uma maior parte dos leitores e até mesmo servir como uma porta de entrada para determinados estilos ou mesmo a outras obras desses autores, já que como dito anteriormente, excetuando alguns nomes mais conhecidos como Scott Lynch, Patrick Rothfuss, Neil Gaiman, Gillian Flynn, além do próprio George R. R. Martin, acredito que pouca gente deva conhecer os outros autores que contribuíram para essa antologia.

Não vou falar de cada conto em detalhes, já que são muitos, porém creio que devo separar algumas linhas a mais para alguns deles que me chamaram mais a atenção, então vamos lá:

Um ano e um dia na velha Theradane – Scott Lynch

Em uma antologia que fala sobre personagens malandros, astutos e que são mestres na arte do engano e da vigarice, Scott Lynch era um nome que não poderia faltar, já que ele é altamente gabaritado no assunto, tenha visto sua série Nobres Vigaristas. Dessa vez, porém, o próprio Lynch me passou a perna e quando estava esperando alguma aventura de Locke Lamora e Jean Tannen ele me surpreende com uma história que se passa em outro mundo singular e com um novo e cativante grupo de ladrões que não devem em nada aos Nobres Vigaristas.

Nesse conto somos levados a um mundo fantástico, vibrante, mas ao mesmo tempo carrega aquele tom sombrio do submundo do crime, onde vive a ex-ladra Amarelle Parathis. Coagida por uma maga a sair de sua aposentadoria e realizar uma missão tida como, digamos, ligeiramente impraticável, Amarelle acaba reunindo o seu antigo grupo para realizar o feito de roubar uma rua inteira no prazo de um ano e um dia, pedra por pedra, tentando as mais imprevisíveis, engenhosas e variadas formas de concretizarem o roubo. Personagens ardilosos, humor na medida certa e uma história rica em detalhes com uma narrativa sagaz, com, essa história acaba tendo de tudo para agradar a grande maioria dos leitores. Pra quem, assim como eu, espera muito do autor não vai se decepcionar nem um pouco.

A Caravana para lugar nenhum – Phyllis Eisenstein

Alaric é um bardo que tem a capacidade de se teletransportar, durante uma de suas viagens pelo mundo acaba sendo convidado a participar de uma caravana de mercadores que atravessariam um deserto. Ao longo da viagem ele descobre que os viajantes por vezes acabam avistando uma cidade fantasma que nunca conseguem alcançar, bem como toma conhecimento de uma substância alucinógena somente encontrada no tal deserto, chamada de “Pó do Desejo”. O interessante da história é o paralelo que a autora acaba fazendo entre a miragem da cidade fantasma com o próprio uso da droga, além da relação do líder da caravana com seu filho, que era viciado na substância.

Não conhecia a autora e não sabia o que esperar da história, mas esse foi outro conto que me surpreendeu positivamente e um dos que mais me cativaram, principalmente por ter uma pegada mais simples, seguindo um ritmo mais lento, e também por ser quase um contraste com o resto das outras histórias, adotando um clima mais melancólico e com certa desesperança ao final, mas que também foi uma história bem atrativa pelo próprio cenário em que o conto se desenrola.

A árvore reluzente – Patrick Rothfuss

O conto em si gira em torno de um dia típico do Bast quando ele não está desempenhando suas atividades na hospedaria Marco do Percurso. Geralmente vagando por aí à toa ou à procura de belas mulheres, o interessante é ver que em boa parte de seu tempo ocioso Bast na verdade assume uma posição de uma espécie de guia para as crianças do local. Ele fica sentado em frente a tal árvore que dá nome a esse conto e espera até alguma criança vir visitá-lo para pedir soluções para problemas, favores ou para que ele responda alguma pergunta, e em troca a criança deve contar a Bast algum segredo ou lhe dar algum pequeno objeto.

Sem dúvidas esse era um dos contos mais aguardados dessa antologia, principalmente por ser protagonizado por Bast, um dos personagens mais enigmáticos e queridos dos fãs da Crônica do Matador do Rei. A narrativa em si lembra um pouco a de um outro conto dele que acabou ficando um pouco maior e virando o livro A Música do Silêncio, por se tratar de um dia comum na vida de um dos personagens da série, porém acredito que esse conto específico deva agradar tanto a quem gostou desse spin off quanto aqueles que não curtiram a história com a Auri, principalmente por não ter o tom mais “suave” e contemplativo desta. Outro ponto que pode chamar mais a atenção dos fãs da série é que são revelados algumas informações a respeito dos Fae. E uma última coisa a ser dita, a história também tem um pequeno e genial easter egg sobre as Crônicas de Gelo e Fogo, porém vou poupá-los e deixarei que descubram sozinhos ao lerem este conto.

Outros que me chamaram a atenção de forma positiva foram Proveniência, de David W. Ball e Qual é a sua profissão?, de Gillian Flynn, ambos muito bons e que merecem a citação. Porém, como nem tudo são flores, alguns me desagradaram, como Galho envergado, de Joe R. Lansdale, e Em cartaz, de Connie Willis; o primeiro por parecer mais um filme do Steven Seagal, o que quebrou um pouco o ritmo que os outros contos vinham imprimindo, e o segundo por até ter uma boa ideia, mas que logo fica repetitivo e tedioso, contudo o que mais me desagradou foi Um jeito melhor de morrer, de Paul Cornell, que é extremamente confuso e que pouco oferece para aqueles que não conhecem o universo em que o conto é situado. Outra história que provavelmente eu teria gostado mais se conhecesse os personagens e o mundo em que se passa é o conto do Neil Gaiman, Como o Marques recuperou seu casaco, que embora não chegue a sofrer dos males citado anteriormente, e seja até fácil compreender o mundo mágico da história do Gaiman, também não me chamou tanta a atenção, ainda mais diante de tantos outros contos que foram bem superiores.

Quanto ao conto que dá nome a edição brasileira, e o que talvez mais tenha atraído leitores, devo dizer que “O Príncipe de Westeros ou O irmão do rei”, de George R. R. Martin é um pouco diferente do que se espera, pois não segue com a mesma narrativa das Crônicas de Gelo e Fogo, na verdade esse conto tem o aspecto de um relato de um meistre, sendo mais direto e por vezes inserindo alguns relatos, muitas vezes discordantes, de diferentes fontes e discorrendo sobre essas versões.  A história é um prelúdio da Dança dos Dragões, colocando em detalhes os eventos que levaram a guerra civil entre os membros da Casa Targaryen, teoricamente focando no ardiloso príncipe Daemon Targaryen, porém devido a esse caráter da narrativa ser voltada a um evento e não em uma pessoa, a história não gira em torno dele, aliás, o protagonista parece mesmo ser o rei Viserys I ou então a sua filha Rhaenyra.

Quem não está acostumado com os livros do Martin que se passam no mundo de Gelo e Fogo pode achar o conto meio confuso com tantos nomes aparecendo a todo o momento, mas para aqueles que são fãs das Crônicas de Gelo e Fogo é um deleite revisitar a história de Westeros, ainda mais que todo o universo dos livros é riquíssimo e há espaço para se explorar muitas outras histórias tão interessantes quanto à iniciada em A Guerra dos Tronos. É uma boa história, mas peca em alguns pontos, principalmente para quem não leu nada do autor, e esse tom que o Martin escolheu para o conto provavelmente deve decepcionar algumas pessoas, mas o ponto que acho que deve causar maior frustração é pela forma que ele o encerra, mas para quem é fã mesmo acho que vão gostar, eu pelo menos acabei gostando bastante, apesar de não o colocar entre os 3 melhores da antologia.

O príncipe de Westeros e outras histórias é um livro que me surpreendeu positivamente, bem diversificado e a maioria dos contos são muito bons, e não chega a ser um livro de grandes altos e baixos, apenas alguns poucos não me agradaram, sendo que talvez pudesse ter gostado mais se conhecesse os personagens e o universo ao qual estão inseridos.

 

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