A Canção do Sangue (A Sombra do Corvo Vol. 1) – Anthony Ryan

A Canção do SangueA Canção do Sangue (Blood Song, no original) é o livro de estreia do escocês Anthony Ryan, o que impressiona já que dificilmente alguém conseguiria apontar que esse é um trabalho de autor iniciante e não de um veterano do gênero, dado o resultado final com uma trama envolvente, bem escrita e com uma solidez impressionante da narrativa, sem muitas passagens que nada acrescentam ou com aquela costumeira instabilidade que muito se vê em obras de estreia. O primeiro volume da trilogia A Sombra do Corvo não poderia ter tido mais êxito em cativar o leitor de primeira, o efeito magnético do livro já se dá nos primeiros capítulos e dai em diante é um caminho sem volta.

 “Meu povo acredita que o corvo é um arauto de mudanças. Quando a sombra do corvo passa por seu coração, sua vida muda, para melhor ou pior, não há como saber. Nossa palavra para corvo é Beral, e a palavra para sombra é Shak. E você, Vaelin Al Sorna, guerreiro a serviço da Fé, é a Sombra do Corvo.” 

A história tem início com a escolta de um prisioneiro até as Ilhas Meldeneanas, lugar onde seria julgado através de um combate mortal. O combate era visto quase como uma morte certa para o prisioneiro, pois apesar de ser um guerreiro de renome, ele passara os últimos anos enclausurado em uma cela nos domínios do Império Alpiriano. O prisioneiro em questão é Vaelin Al Sorna, uma lenda viva que ao longo dos anos recebera várias alcunhas: Jovem Falcão, Lâmina Negra, Beral Shak Ur e Eruhin Makhtar, o “Matador do Esperança”.

Verniers, o cronista imperial alpirano, é o encarregado de escoltá-lo e registrar o duelo mortal do bárbaro do norte que invadira os domínios do Império Alpiriano e matara o herdeiro do trono imperial. Verniers não gosta dele, e assim como a maioria dos alpiranos deseja vingança pela morte do Esperança, porém quando o bárbaro do norte de fala tão afável resolve contar a sua versão dos fatos é quase impossível para Verniers deixar de lado essa oportunidade de ouvir a história completa diretamente do próprio Matador do Esperança, e também de registrá-la, é claro.

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A primeira capa usada para A Canção do Sangue no Brasil, que segue o padrão da edição americana,  e a mais recente usada para mudar a identidade visual da série no país

E assim Vaelin inicia a narrativa de sua vida, desde seus 10 anos de idade, quando foi deixado por seu pai aos portões da Sexta Ordem, uma espécie de ordem militar monástica que defende a Fé e o Reino, passando pelo seu treinamento espartano dentro da Ordem, os inimigos que fez pelo caminho, os encontros com os Negadores que lhe ajudaram a entender mais sobre a magia antiga existente naquele mundo, as suas batalhas à serviço do Reino e de como se viu envolvido no jogo político do Reino, servindo como um instrumento das maquinações do rei Janus, que muitos classificavam como louco. Desse modo acompanhamos os eventos que levaram o menino que se sentia abandonado por seu pai e encontrara uma nova família entre seus companheiros de Ordem, até a invasão do Império Alpirano e da sua captura.

Inicialmente cheguei a pensar que o livro pudesse cair nos velhos clichês do aluno prodígio que odeia o pai por algum motivo, vai para algum lugar estudar e aprimorar habilidades natas, faz amigos inseparáveis e que acaba encontrando com um mestre que é rígido, mas na verdade se importa com seus discípulos, porém, apesar de aparentar caminhar para a mesma direção que vários outros livros, A Canção do Sangue consegue imprimir uma personalidade tão própria que deixa esses detalhes batidos diante do interessante mundo em que a história se passa, além da própria narrativa e habilidade da escrita do autor e da forma como são desenvolvidos os personagens do livro.

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Falando em personagens, o autor se sobressaiu na forma como são construídos, principalmente o protagonista e seus irmãos da Sexta Ordem, todos eles tem um desenvolvimento fantástico dentro da história e vão lentamente tomando uma forma cada vez mais nítida aos olhos do leitor. Nenhum é genérico, cada um deles tem peculiaridades próprias, além de todos terem inseguranças e mistérios que aos poucos vão sendo revelados durante o decorrer da história em momentos bem apropriados.

A primeira parte, que conta justamente esse período de treinamento e provações dos novatos que almejam entrar para a Ordem, é uma das melhores do livro todo, tanto pela forma como autor consegue construir um vínculo entre os personagens, que de fato deveriam abandonar seus laços familiares e ter como a única família seus irmãos da Ordem, quanto pela própria forma como eles são treinados e severamente testados para afinarem suas habilidades a um nível de excelência, se preparando para um futuro onde essas habilidades seriam postas à prova quando cumprissem suas missões ao protegerem a Fé e o Reino.

Um dos pontos que mais chama a atenção são as religiões e crenças dentro desse mundo. É interessante o fato do autor não deixar as religiões como alegorias daquelas existentes no nosso mundo, não há exatamente uma espécie de cristianismo, islamismo, xamanismo ou qualquer outra fé presente em nosso mundo, elas lembram bastante alguns aspectos dessas religiões, mas não são exatamente iguais. A Fé, a religião dominante no Reino Unificado que poderia até de início lembrar o cristianismo, por exemplo, rejeita a ideia de deuses, e reconhece apenas a existência dos espíritos dos Finados no Além, que podem conceder alguma ajuda ou sabedoria aos vivos.

Outro ponto interessante em relação à forma como Ryan utiliza as religiões é em relação ao aspecto político, já que manter uma só fé é também uma forma de ao mesmo tempo se aproveitar da ajuda da Sexta Ordem como também uma forma de manter o reino de fato unificado, sem algo que possa dividir ainda mais o povo e inflamar conflitos, como é o caso de Cumbrael.

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A magia vista do livro, conhecida como “Trevas” ou “Dons”, é algo bem obscuro, e talvez por isso mesmo também seja bem atraente. Não é algo que é usado a todo o momento, e as informações sobre o que realmente é a magia dentro desse mundo são dadas a conta-gotas, sem entregar nada muito de cara, o que instiga o leitor e o deixa na mesma situação que os personagens que pouco compreendem esses dons e habilidades, e embora ainda que não sejam explicados tão a fundo, são compreensíveis para o leitor e alguns são bem inovadores, como a própria Canção de Sangue que dá o título ao livro.

Sei que há alguma comparação entre A Canção do Sangue e O Nome do Vento, e até acho que as comparações são válidas e quase inevitáveis, já que ambos seguem uma narrativa com o personagem principal servindo como uma figura quase lendária que vai contando sua história a um escriba e aos poucos vemos a desconstrução da lenda, prezando muito pela infância e pela forma como os personagens são moldados nessa fase, além dos dois livros dividirem semelhanças quanto à perícia dos autores em relação ao storytelling, porém não gosto muito de sair comparando desse modo para não levar a quem estiver lendo esta resenha a ter uma ideia equivocada. A Canção do Sangue não é O Nome do Vento. Apesar de ambos dividirem semelhanças são bem diferentes, então não espere um livro do Rothfuss, cujas obras são marcadas mais por uma narrativa mais poética e com uma atenção maior a escolha das palavras, A Canção de Sangue preza mais pela ação e é um pouco mais dinâmico.

Trama bem construída recheada com intrigas políticas, conflitos religiosos, personagens finamente trabalhados e grandes batalhas, de fato A Canção do Sangue vai bem além das expectativas e surpreende positivamente, porém não é um livro impecável e obviamente algumas coisinhas sempre podem ser melhoradas, mas os acertos são tantos que acabam obscurecendo os eventuais pontos passíveis de críticas, e chega-se a um resultado altamente satisfatório.  Não vou dizer que ele é perfeito, mas é um livro excelente que deixa uma sensação de contentamento e ansiedade pelo próximo volume. Sinceramente recomendo fortemente esse livro a qualquer fã do gênero.

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