O Protegido (Ciclo das Trevas Vol.1) – Peter V. Brett

o_protegidoEscrito pelo americano Peter V. Brett, O Protegido é o primeiro livro da série Ciclo das Trevas (the Demon Cycle, no original). Ambientado em um mundo onde as pessoas temem a noite, pois quando o Sol se despede e a escuridão avança sobre a terra surgem também os terraítas, demônios elementais que emergem das Profundas com o único objetivo de destruir tudo aquilo que estiver ao alcance.

Os seres humanos têm como única forma de sobrevivência o uso de proteções, inscrições místicas que tem o poder de repelir ou ferir os terraítas. Em tempos passados a humanidade conhecia proteções mais eficazes para a sua defesa, além de proteções de combate e uma vez unidos pela figura do Salvador conseguiram derrotar os terraítas na Primeira Guerra das Trevas. Contudo as pessoas foram aos poucos se descuidando com a aparente paz e se dividiram, o conhecimento antigo da magia das inscrições foi se perdendo, e a humanidade entrou no que ficou conhecido como “Era da Ciência”. As proteções foram então esquecidas, enterradas sob as areias do tempo.

O que não imaginavam é que o que era tido como uma vitória completa não passava de uma retirada dos demônios, que voltaram milênios depois ainda mais ávidos, e com o ressurgimento deles a Era da Ciência deu lugar à Era da Destruição. Desta vez, porém, as pessoas já não tinham mais as antigas proteções de combate para refrear os terraítas, nem um Salvador para liderá-los, e só o que podiam fazer era confiar nas poucas proteções de defesa que ainda restavam e rezar para que elas não falhassem. E tem sido deste modo por mais de 300 anos.

Vemos esse mundo pelos olhos de Arlen, Leesha e Rojer, três sobreviventes de ataques dos terraítas que são acolhidos por mentores que os ajudam a tomar conhecimento de habilidades pessoais que podem ser úteis nessa luta contra os demônios. Cada um deles possui alguma particularidade, apesar das várias semelhanças dentro da história de vida que compartilham: Arlen tem um dom natural para desenhar proteções, além de um forte desejo pela liberdade, sobretudo por libertar a humanidade do medo que os terraítas impõem; Leesha com seus conhecimentos de medicina e de botânica em geral; e Rojer, o mais novo do trio, tem um dom natural pra música, sobretudo com sua rabeca, apesar de lhe faltar dois dedos na mão direita, e mesmo esse tipo de conhecimento pode ser útil para entender e saber como contra-atacar os terraítas.

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É interessante a forma como o autor consegue passar uma sensação de desesperança e apatia, até mesmo pelo próprio confinamento causado tanto pela dependência das proteções quanto pelo distanciamento entre as cidades, deixando as pessoas mais fatalistas diante dos acontecimentos. Até mesmo a fragilidade das suas proteções, que podem ser manchadas, encobertas, riscadas e, portanto, inutilizadas. Qualquer deslize significa ficar a mercê de um inimigo que não conseguirão combater.  Todo esse clima é perfeito para se abordar uma jornada em busca de uma compreensão maior e do descobrimento de um novo mundo, ou seja, mesmo que explore essa velha fórmula da “jornada do herói”, ela é feita de uma maneira mais singular.

O ponto alto do livro sem dúvidas é próprio mundo em que a história se passa, desde a maneira como são usadas as proteções até mesmo na concepção das Cidades Livres, cada uma com uma particularidade em relação a sua localização que acaba se traduzindo na arquitetura, costumes, economia e na forma como se protegem dos terraítas que são mais comuns a aquela região, dessa forma temos cidades que são marcadas pela proximidade com florestas, lagos, minas, desertos e campos cultiváveis.

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Arlen contra um demônio da rocha, em uma ilustração da edição francesa

Os terraítas lembram bastante os djinns pela associação com os elementos, e cada “tipo” de terraíta também possui suas próprias características, de modo que para cada um há a necessidade de haver também uma proteção correspondente, além de também terem suas peculiaridades em suas formar de agir e interagirem uns com outros.

Como o livro acompanha três personagens diferentes, cada um com seu próprio ponto de vista, acaba-se por ter um maior dinamismo, ainda mais pela diferença de idade e pela distância que os separam, o que faz com a história não fique presa a um determinado local ou evento. Como a história dá alguns saltos temporais a fim de acompanhar o amadurecimento dos personagens, que iniciam o livro ainda na infância e durante a história encontram mentores que possibilitam a eles tomar conhecimento de suas habilidades e aperfeiçoá-las, inevitavelmente há alguns saltos temporais para não se demorar muito em alguma etapa, embora isso também acaba por deixar uma impressão de que certas partes poderiam ter sido exploradas antes de chagarem a fase adulta, mas em toda caso não é algo que prejudique o livro. Confesso que gostei mais da apresentação do mundo e da parte passada na cidade de Krasia, essa sem dúvidas a melhor do livro.

Apesar de seguir com a famosa jornada do herói, Peter V. Brett vai além do comum e permite a sua história caminhar por lados mais sombrios, dando preferência a explorar mais o efeito do medo na vida das pessoas e na própria sensação de opressão diante de um inimigo virtualmente invencível, explorando a magia de uma forma bem interessante, podendo ser utilizada de formas mais criativas e impondo limitações, algo que é fundamental para que se possa criar uma narrativa interessante sem que caia na mesmice.

Uma história interessante dentro de um universo que chama a atenção, as únicas ressalvas ficam pela passagem da terceira parte para a quarta, pulando uma etapa da história de um dos protagonistas que seria interessante de ser explorada, além dos inúmeros erros de revisão, mas nada que chegue a comprometer o produto final.

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