Guerreiros de Roma: Fogo no Leste – Harry Sidebottom

fogonolesteJá vou logo dizendo que sou fã de História e um dos meus gêneros literários favoritos é a Ficção Histórica, esses já foram alguns motivos que me levaram a comprar esse livro. Também sou aficionado por qualquer coisa que envolva as legiões da Roma Antiga, algo que novamente contou a favor desse livro, mas quando vi que a história se passava no século III, onde o declínio do Império Romano já era visível, além de ser uma época pouco explorada em livros, filmes e seriados que falam sobre Roma, eu não pensei duas vezes e comprei Guerreiros de Roma: Fogo no leste, escrito pelo britânico Harry Sidebottom.

Falando na crise do Império Romano, o protagonista não é um oficial da nobreza romana, é um bárbaro de origens germânicas chamado Balista. Balista é um oficial que tem o título de Dux Ripae, o oficial militar que era responsável pelas defesas ao longo do rio Eufrates no século III, e como tal tem a difícil missão de proteger as defesas da cidade de Arete na Síria de uma iminente invasão por parte dos persas sassânidas. Esse ponto me chamou muito a atenção em me ganhou durante o transcorrer da história, são os romanos que tem que sustentar uma cidade durante um cerco, em geral nos livros e filmes vemos os romanos atacando e dominando as cidades, queimando tudo até as cinzas e colocando os líderes inimigos sob os seus pés e gládios, mas nesse livro a situação é inversa.

O livro é dividido em três partes: Navigatio, se passando durante outono de 255 D.C. e retratando a viagem de Balista até Arete; Praeparatio, que abrange o inverno de 255-256 D.C. e retrata as preparações para a cidade aguentar o cerco dos inimigos; e por fim, Obsessio, que ocorre durante primavera-outono de 256 D.C. e trata da resistência contra os sassânidas.

Balista não tem uma vida fácil, ele deve tomar difíceis decisões que não agradarão a todos, mas que são absolutamente necessárias a fim de manter a cidade. Ele tem de treinar o pessoal, construir máquinas de guerra, reparar as defesas e reforçá-las, manter a ordem entre os seus e os cidadãos locais, ser político com os líderes locais e com as demais pessoas poderosas e influentes, racionar os suprimentos e cuidar para que durem e não sejam contaminados, cuidar da inteligência, já que em cercos uma só pessoa que resolva trair a todos podem por tudo a perder… Todo esse clima a tensão necessária para se retratar como se deve um cerco, que é uma guerra de paciência, inteligência e esforço conjunto, geralmente levando todos os que resistem ao limite das suas forças, a um estado de esgotamento físico e mental, descontentamento, aflição e desespero, mas que tem que se tirar a força necessária para encorajar o seu pessoal e a população para manter a ordem e acalmar possíveis rebeliões internas e traições. Realmente não é uma vida fácil e é muito bem trabalhado como esse peso da responsabilidade recai em Balista e como ele deve fazer de tudo para manter a cidade para não ser morto junto com todos, e como deve manter a autoridade para ser visto como a esperança de conseguirem suportar os ataques.

A ambientação é impressionante, é fácil imaginar os cenários por conta de pequenos detalhes que fazem o leitor mergulhar profundamente naquele ambiente, principalmente durante os preparativos para aguentar o cerco. Os personagens também são muito bem construídos, alguns mais estoicos, já outros que carregam uma boa dose de humor, o que equilibra bem com momentos mais pesados. A forma com que o autor descreve as lutas é algo que foi muito bem feito, realmente tem o peso que devem ter e mostra bem o que devem ser um combate tanto nas muralhas quanto no mano a mano, elas são bem críveis.

Como disse no início da resenha tudo que fale sobre a Roma Antiga, ou sendo até mais preciso, o exército romano, eu logo me interesso de cara, então foi um livro que logo que botei os olhos nele me deu uma vontade grande de lê-lo. Após a compra e ansioso para mergulhar na leitura e voltar no tempo eu fiquei inicialmente um pouco decepcionado com o livro pela forma como ele demora a engrenar, mas felizmente mudei minha opinião conforme o livro ia avançando e ao terminá-lo fiquei com aquela sensação de que tinha que ler o próximo, mas infelizmente não publicaram as continuações aqui no Brasil (são 6 livros até o momento), contudo a história é fechada -porém com aquele gancho no fim para outras aventuras-, então se pode ler tranquilamente o livro sem medo daquela sensação de que falta algo.

Já que toquei nesse assunto do livro demorar a engrenar serei um pouco polêmico, já que muita gente acha Bernard Cornwell o ápice de toda a ficção histórica e sempre colocam o nome dele em qualquer comparação com livros do mesmo gênero, porém o próprio Cornwell tem lá as suas falhas ou pontos que poderiam ser melhorados, um deles é justamente o seu estilo que é muito arrastado, apesar de ser magnífico na narração das batalhas. Então quem já leu e desistiu ou desanimou pelo que eu disse, vou avisando, vale a pena aguentar um pouco esse início mais lento, porque depois compensa, e muito.

Um ponto que não gostei e tenho que falar: A capa. Ela dá uma sensação que o livro pode ser infanto-juvenil, mas ele definitivamente foge muito de ser um livro voltado a essa faixa etária, ele tem um tom bem maduro, sério, é muito detalhado e com um foco bem mais histórico, que são coisas que nem sempre estão presentes nesse gênero que geralmente é bem leve. Acho que quem procura o tom de aventura que a capa transmite vai se decepcionar, ou mesmo pode afastar quem acha que é de fato infanto-juvenil e não goste de livros dentro desse escopo.

Os apêndices são formidáveis, uma verdadeira aula de história, logo se vê que a pesquisa foi muito bem fundamentada, além e conter um glossário, extremamente necessário devido ao uso de termos em latim, e também uma lista de personagens que facilita a vida de qualquer um. Outra coisa que ajuda o leitor são os mapas, algo que é comum nesse tipo de livro, mas que sempre ajudam a visualizar melhor as situações descritas no livro.

Essa é uma dica excelente pra quem quer ler um bom livro sobre os exércitos romanos, principalmente em uma época e situação diferentes das que geralmente são retratados os soldados das legiões romanas em diferentes mídias. Também é um bom livro pra quem gosta de batalhas de cerco. Apesar dos erros é um livro que você termina satisfeito e contente por tê-lo lido, especialmente se você cogitou abandoná-lo em alguma parte no início pelo ritmo lento que ele possuí, assim como um cerco real é uma questão de paciência.

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