Prince of Fools (A Guerra da Rainha Vermelha Vol. 1) – Mark Lawrence

prince_of_foolsEu já conhecia o Mark Lawrence pelo seu trabalho anterior com Trilogia dos Espinhos (composta por Prince of Thorns, King of Thorns e Emperor of Thorns), da qual eu apenas li o primeiro volume, e confesso que não senti vontade alguma de prosseguir com os outros. A minha falta de interesse em continuar com essa série foi muito em função de seu protagonista, embora tenha gostando bastante do mundo criado pelo autor, e quando vi que sua nova trilogia se passaria dentro do “Império Destruído”, o cenário medievalesco pós-apocalíptico da primeira série, fiquei um pouco mais motivado a dar uma segunda chance ao autor, principalmente por ter outro protagonista. Ainda que tenha me despertado uma curiosidade maior para ler essa nova trilogia, intitulada “A Guerra da Rainha Vermelha”, eu ainda permaneci com um pé atrás e só por agora consegui enfim juntar toda a vontade necessária para ler Prince of Fools.

Jalan Kendeth, o neto da Rainha Vermelha e décimo na linha de sucessão ao trono da Marcha Vermelha, e por ser tão improvável que assuma o trono algum dia ele não se importa muito com as tramas políticas da corte, ao invés disso prefere passar os seus dias jogando, bebendo e correndo atrás de alguma mulher, ou correndo dos irmãos dessas mulheres. Jalan é um covarde assumido, mas de alguma forma as suas ações acabam por serem equivocadamente interpretadas como atos de heroísmo ou coragem, além de também ser um mentiroso habilidoso, daqueles que conseguem convencerem até a si mesmos, e assim Jalan vai passando seus dias sem maiores preocupações que não arrumar alguma desculpa para postergar suas dívidas ou fugir de irmãos enfurecidos de jovens damas com as quais ele passou a noite anterior, a única coisa que ele parecer ter de especial é aparentemente ser uma das poucas pessoas que conseguem enxergar a Irmã Silenciosa, uma velha bruxa que acreditavam ser conselheira da Rainha Vermelha.

A vida boa de Jalan começa a mudar quando sua avó convoca todos os seus descendentes para uma importante reunião para ouvir relatos sobre eventos misteriosos que estavam acontecendo em países vizinhos, os quais Jalan acredita serem apenas histórias infundadas, porém a Rainha crê que todos os relatos tem alguma ligação e esse é um prenuncio de uma guerra que pode afetar todo o Império, uma guerra onde as fileiras inimigas seriam formadas por mortos-vivos comandadas pelo Rei Morto. Um dos convocados a dar seu testemunho desses estranhos eventos é o nórdico Snorri ver Snagason, que conta que fora capturado no distante norte após uma incursão de um grupo que, sob ordens do Rei Morto, procuravam os cadáveres congelados do exército de antigo líder que marchou para o extremo norte em uma misteriosa missão. A única coisa que Jalan se interessa nessa história toda é em colocar o imenso nórdico para lutar e fazer algum dinheiro com as apostas, e em mais um de suas armações ele consegue levar Snorri para a arena, mas ele acaba escapando. A reunião dos dois, porém, acontece dentro de pouco tempo, quando Jalan vê a Irmã Silenciosa preparando algum feitiço que acaba por encontrar o príncipe e o nórdico, de alguma forma os conectando, impossibilitando que se separassem por longas distâncias ou mesmo que se tocassem. Snorri pretende sair em uma busca pela sua família raptada no norte e se vingar contra aqueles que o atacaram e o escravizaram, e Jalan se vê forçado ser seu companheiro de viagem, pelo menos enquanto não encontra uma forma de desfazer o feitiço, se separar do nórdico e voltar a sua vida hedonista de sempre.

Narrado em primeira pessoa, a exemplo da trilogia anterior, o tom da escrita se dá por frases breves e diretas na maior parte do tempo, bem como capítulos geralmente curtos, o que deixa o livro mais dinâmico, porém, se isso é perfeito para o clima de uma fantasia grimdark com batalhas com um teor mais sombrio carregadas de violência mais crua, o que acontece, também pode ser um pouco frustrante por não entregar muita coisa e corre o risco de ficar algo mais raso e corrido, dá até pra sentir a falta de um aprofundamento em algumas cenas. Esse ritmo mais enérgico também não ajuda em todos os casos, a parte da viagem pelas terras do norte é monótona, por exemplo, pior ainda por ela estar em um ponto onde a história deveria se intensificar até seu ápice, mas ao invés disso vai esfriando e esfriando, a exemplo do clima que enfrentavam.

Império_Destruído

O Império Destruído

Uma das coisas que me levaram a ler esse livro foi o mundo criado pelo Lawrence, tanto dentro do próprio cenário, uma versão do nosso mundo ao passar por uma guerra nuclear, o tal do “Dia dos Mil Sóis”, que modificou a superfície terrestre (Ancrath seria a França, mais precisamente na região próxima à Paris, a Marca Vermelha seria a região do norte da Itália, ali por Piemonte e Lombardia, etc) e levou a sociedade a voltar para um sistema feudal, quanto da própria forma com que a magia é vista nesse mundo, com o misticismo misturado com a incompreensão da tecnologia dos “Construtores”. Acho que o “Império Destruído” é algo digno de elogios, porém há também algumas coisas que me incomodaram um pouco, uma delas foi essa volta às origens nórdicas. Tudo bem que a premissa do livro é de um retorno a um período medieval, mas uma reestruturação feudal é mais orgânica do que o ressurgimento de uma cultura cujas tradições há muito foram abandonadas como as dos vikings, não apenas na questão da religião e crenças, mas também com os nomes usados nos barcos, por exemplo. Algo muito estranho, quase uma transposição de uma cultura inteira para outra época por conveniência e não por uma reconfiguração mais natural, meio como se no Brasil a população voltasse a cultuar Tupã e a morar em ocas.

Já vi muita gente gritar amores pelo Jorg, o protagonista da trilogia anterior, mas sinceramente não consegui ter qualquer tipo de empatia por ele, e o mesmo acontece aqui, porém desta vez Jalan torna-se menos entediante pela história não ficar focada apenas nele. Geralmente gosto dos personagens mais malandros, estes transmitem mais empatia por terem mais nuances de personalidade e ficam abertos a uma maior evolução dentro da história, mas isso não ocorre, ele não cresce, mesmo com todo o tipo de experiência que acabou por viver na estrada que não acabou por refletir no comportamento dele. Sinceramente não consigo gostar de personagens assim, e acho ainda pior pela história estar sendo contada sob sua perspectiva, por outro lado colocar o Snorri como um coadjuvante foi uma escolha acertada. Snorri é muito mais carismático e interessante como personagem do que o protagonista, além de também servir como um contraste do Jalan, tanto fisicamente quanto nas crenças e motivações, algo que é ressaltado ainda mais pela magia que os liga. O viking teve um desenvolvimento na história, desde a desconstrução feita do arquétipo de guerreiro bárbaro do norte distante como Jalan o enxergava, que surpreende o príncipe ao mostrar conhecer mais sobre o mundo do que o nobre que foi educado em uma corte, além da própria forma com que seus sentimentos, temores e desejos são trabalhados, principalmente quando ele vai aos poucos contando sobre seu passo, enquanto Jalan é sempre o mesmo do início ao fim da história. Sempre o mesmo.

jalan

Algo a ser dito para os fãs da Trilogia dos Espinhos é que esse livro se passa paralelamente aos eventos de Prince of Thorns, então quem já o leu vai reconhecer alguns personagens e se lembrará de certas passagens, mas para aqueles que não leram é bom frisar que essas referências não comprometem em nada o entendimento da história. Prince of Fools funciona bem sozinho e não requer um conhecimento prévio dos livros anteriores.

Prince of Fools é um livro cheio de altos e baixos, em alguns momentos presenteia com bons diálogos e tiradas bem engraçadas, em outros a leitura chega a ficar bem maçante. Tem horas que parece que o livro é apenas uma junção de frases de efeito com alguma brutalidade, e fica parecendo um daqueles filmes de gosto duvidoso, que você até gosta quando é mais novo, justamente pela porradaria e pelos bordões, mas depois quando você um pouco mais crítico acha que isso por si só não sustenta uma história e fica com aquela sensação de que falta algo mais. Porém, apesar dos pesares, a magia e todo o misticismo em cima das criaturas do livro é muito bem feito e todo esse clima sombrio de necromantes e natimortos acaba rendendo também alguns confrontos interessantes.

Acho que aqueles que não curtiram muito a trilogia anterior também não cairão de amores por este livro, contudo achei-o mais interessante do que o Prince of Thorns e fiquei com mais vontade de continuar essa série do que a Trilogia dos Espinhos, contudo não é algo que eu vá colocar como uma prioridade. Entre seus erros e acertos creio que o livro pode ser divertido, principalmente para quem gosta do autor ou do gênero, mas ainda assim não vejo como algo que vá muito além do mediano.

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