A Companhia Negra (As Crônicas da Companhia Negra Vol.1) – Glen Cook

Companhia_NegraPublicado originalmente em 1984, A Companhia Negra é o primeiro volume da série homônima de dark fantasy, escrita pelo americano Glen Cook, e é um dos principais nomes dentro dessa vertente de uma fantasia menos maniqueísta e com contornos mais sombrios tanto dentro das descrições e eventos quanto da própria moral dos personagens.

Acompanhamos a Companhia Negra, a última das Companhias Livres de Khatovar, um grupo mercenário cuja história remonta há séculos. Veteranos de inúmeras batalhas que sempre tentam honrar seus compromissos, não importando o lado estejam lutando, porém a Companhia Negra já não é mais o que fora no passado, e no momento trabalhavam como a guarda pessoal do governante da cidade de Berílio, que estava prestes a mergulhar no caos de uma iminente guerra civil em decorrência de disputas entre facções rivais, o que por si só já era um grande problema pra Companhia lidar, porém tudo muda quando um misterioso emissário vindo do norte oferece uma aliança que tanto beneficiaria a cidade, quanto tiraria a Companhia daquela situação e os colocaria serviço de um novo empregador ao norte.

Não demora muito para descobrirem que o tal emissário era um dos Dez que Foram Tomados, um grupo lendário de poderosos feiticeiros que foram subjugados, corrompidos e escravizados pelo Dominador e sua esposa, a Dama, quando estes dominaram o norte e reinaram com grande crueldade, porém todos estes acabaram por serem derrotados pela Rosa Branca e seus exércitos, sendo enterrados vivos, aprisionados por séculos em túmulos selados por magia. O problema é que recentemente um mago acabou por libertar a Dama e seus Tomados, que agora tentam reconquistar o norte e reerguer seu império. Sob o comando do Apanhador de Almas, o emissário que contratou a Companhia Negra, os mercenários terão de lutar pelos vilões em diversas campanhas contra os rebeldes que defendem as suas terras, ao mesmo tempo em que terão de ficar atentos para não acabarem atingidos pelo fogo cruzado dos conflitos pessoais que os Tomados acabam tendo entre si.

Na época em que o livro foi escrito ainda imperava um tom mais maniqueísta dentro dos livros de fantasia, e apesar de tudo apontar que esse livro seguira esse mesmo tom, apenas focando no lado oposto, ele não resolve seguir por esse caminho com dois lados bem definidos. Uma das características mais proeminentes na obra de Glen Cook é essa tênue linha moral que separa tanto o lado dos vilões quanto do lado que teoricamente ficariam os mocinhos, neste livro não há seres perfeitos e heroicos lutando contra outros absolutamente vis e sem emoções, na verdade o que se desenha dentro desse mundo caótico mergulhado em violência é de um lado ruim lutando contra um talvez que seja pouco melhor, e os membros da Companhia enxergam isso. É interessante também a Companhia lutar por um lado que seus membros não se sentem muito inclinados a defender, mas apesar de se questionarem sobre o caráter de seus empregadores e sobre a grande enrascada em que estão envolvidos, eles são compelidos pela honra em cumprir seus contratos, além de terem sua própria moral tanto na forma dos limites do que eles acham aceitáveis, mesmo dentro da guerra, quanto de seus irmãos de armas, que são canalhas, pilantras, brigões, mas que fazem parte de uma família.

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A história é contada a partir do ponto de vista de Chagas, o médico e Analista (o historiador da Companhia), e isto é algo importante a ser dito, já que ela é narrada como se Chagas a estivesse registrando nos Anais da Companhia Negra, para que outros possam saber dos feitos daqueles que lutam e morrem pela Companhia, e como é dito no livro, esta é única forma deles terem alguma imortalidade, além de também formar essa identidade do grupo, e por isso um dos deveres do Analista é de uma vez por mês ler para os outros mercenários algum feito de seus predecessores registrado nos Anais da Companhia, de forma que fazer parte da Companhia se torna algo maior para eles.

Como a história é contada por um mercenário da Companhia a narrativa ganha ares de algo mais próximo de um relato mais conciso, algo que vá direto ao ponto e descreva o mais importante, sem detalhes, algo como um soldado faria ao relatar a algum superior o que ele acabou de presenciar, o que deixa muito pouco espaço para imaginar algo mais nítido. Isso pode parece ser algo mais mecânico, mas encaixa bem dentro desse contexto da história sendo vista pelos olhos de um mercenário, e apesar desse tom direto, a narrativa também é costurada pelas reflexões de Chagas, às vezes dando um tom mais poético e mais filosófico quando ele resolve colocar no papel um pouco de seus pensamentos, e isso acaba por quebrar um pouco essa rigidez do seu relato, e é fundamental para não ficar como algo muito distante e vazio.

Se esse tom mais seco dá uma rapidez maior a narrativa, contudo também pode deixá-la em certos pontos um pouco confusa. Nos primeiros capítulos fica nítida essa confusão, já que você é jogado no meio desse mundo e demora um pouco a entender o que está acontecendo, mas depois do terceiro capítulo a história engrena, deixa de ser tão caótica e percebe-se até uma evolução do autor no modo como ele escreve a história, confesso que acabei gostando bastante do livro desse ponto em diante e acabei cativado até o final, ou seja, leva-se um pouco tempo para se acostumar, mas a espera é recompensada.

Com este estilo de narrativa, porém, acaba-se por sacrificar uma maior profundidade que os personagens possam ter, já que só conhecemos verdadeiramente Chagas através de seus questionamentos e reflexões, mas a escolha dele como narrador é interessante, principalmente pela sua visão de médico/mercenário que já viu de tudo no campo de batalha e conhece bem toda a natureza vil que as guerras e conflitos possam ter, mas ao mesmo tempo Chagas não é tão insensível ao que acontece com os outros. Ele não deixa de ser um soldado, porém tampouco deixa de ser humano. Essa visão pessoal acaba por deixar os outros personagens restritos à forma como Chagas os enxerga, e não necessariamente retratando quem eles são realmente. Este é um artifício que limita, mas também pode dar um maior clima de mistério em torno desses mesmos personagens.

BlackCompanyByRaymondSwanland

Arte de Raymond Swanland para uma das novas edições das Crônicas da Companhia Negra

Só senti a falta de um aprofundamento maior na história e personalidade dos Tomados, pessoalmente gosto muito dessa coisa de grupos compostos por personagens diferentes que guardam algum mistério, realmente senti uma necessidade de se explorar com maior profundidade pelo menos o Apanhador de Almas, é um personagem que merecia isso e tinha esse espaço, tanto dentro de sua história pessoal quanto para explorar esse lado de que nem sempre quem está do lado alegadamente dos vilões tenha a necessidade de ser absolutamente perverso em todas as suas ações e não tenha interesses, dúvidas e medos como outros meros mortais.

Há também uma escolha do autor ao nomear os personagens através de apelidos que tenham relação com alguma característica pessoal dos personagens, desta forma temos personagens nomeados como Caolho, Calado, Duende, Apanhador de Almas, Manco, Dama, etc., apesar de ser simplista, assim como tudo o mais dentro do universo do livro não é algo que pende apenas para um lado definido, e acaba tendo algo de positivo ao ajudar a lembrar desses personagens com facilidade, sem nomes esdrúxulos inventados de qualquer maneira para parecer algo mais fantasioso.

A Companhia Negra é um livro que tem seus erros e acertos, como esse tom mais seco que dá um dinamismo ao mesmo tempo que pode deixar as coisas um pouco confusas à princípio, e a falta um maior aprofundamento que cabia dentro desse mundo, tanto dos seus personagens quanto das criaturas e locais, que ficaram um pouco limitadas pela escolha da narrativa, mas que ao mesmo tempo chamam a atenção e conseguem te prender dentro desse universo, e justamente por isso sente-se essa necessidade de que fossem mais bem exploradas, contudo, apesar dos pesares é um grande livro e me diverti bastante no decorrer das páginas, creio que há um espaço maior para que se diminua essas pequenas falhas nos próximos livros e fiquei com muita vontade de continuar a série. Ao terminar a leitura o saldo final é positivo, se fosse para dar uma nota, de 0 a 10 A Companhia Negra ganharia um 7, mas com aquela sensação de que ainda pode evoluir muito, e é justamente por isso que o desejo de ler os outros livros publicados no Brasil é imenso, pois são altas as chances de serem ainda melhores do que este primeiro.

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Um comentário sobre “A Companhia Negra (As Crônicas da Companhia Negra Vol.1) – Glen Cook

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