A Grande Caçada (A Roda do Tempo Vol.2) – Robert Jordan

A Grande CaçadaA Grande Caçada é o segundo volume da série de fantasia épica A Roda do Tempo, escrita por Robert Jordan, completa em 14 volumes. O livro final, infelizmente, não pode ser escrito pelo autor, falecido em 2007 em decorrência de uma doença cardíaca, o escolhido para finalizar a série tenha sido o excelente Brandon Sanderson, e que fique claro aos que possam se assustar com a informação, ele seguiu todas as notas deixadas por Jordan para o volume final (que acabou por ser dividido em três volumes), então pode-se esperar que, muito embora não seja a mesma coisa, a série teve o final que o autor desejava e foi escrito por um autor à altura.

“O túmulo não é limite para o meu chamado”

Seguindo diretamente os eventos de O Olho do Mundo, quando Rand al’Thor descobre que pode ser a reencarnação do Dragão Renascido, a lendária figura que enfrenta o Tenebroso desde Eras imemoriais e está fadado a voltar a enfrentá-lo, porém apesar de seu retorno indicar que ele pode salvar o mundo das forças da Sombra, ele mesmo pode causar uma nova Ruptura no Mundo ao enfrentar o Tenebroso na Tarmon Gaidon, a Última Batalha. O grupo, após enfrentar dois dos Abandonados, Balthamel e Aginor, encontra alguns artefatos, entre eles o estandarte do Dragão e a lendária Trombeta de Valere, um artefato usado para convocar heróis há muito mortos de volta do túmulo, porém o próprio fato de encontrá-la já é algo a se temer, pois a profecia ligada à Trombeta de Valere dizia que ela só seria encontrada às vésperas da Última Batalha contra a Sombra.

“Pois ele virá, como a aurora que rompe o dia, e despedaçará o mundo outra vez com sua vinda, e o deixará como novo.”

Após esses eventos, o grupo se dirige a Fal Dara, em Shienar, para descansar, se recompor da batalha e pensar no que farão a seguir, já que agora cada um tem algo com que se preocupar e os caminhos dos habitantes de Campo de Emond fatalmente seguiriam rotas diferentes. Rand, agora sabendo que é capaz de canalizar o Poder único, teme tanto a loucura e a inevitável morte provenientes da mácula de saidin, quanto teme ser uma marionete nas mãos das Aes Sedai, que poderiam tanto usá-lo para seus próprios propósitos como também poderiam “amansá-lo” ao descobrirem que ele pode canalizar o Poder Único; Mat precisa ir até Tar Valon para que as Aes Sedai possam desfazer o vínculo que este possui com a adaga encontrada em Shadar Logoth; Perrin acaba ficando cada vez mais distante desde que descobriu ter a habilidade de se comunicar com os lobos, e também tem dúvidas sobre si mesmo. Já Nynaeve e Egwene devem ir à Tar Valon para aprenderem a controlar e a canalizar corretamente o Poder Único, mesmo que para isso seja necessário serem treinadas para serem Aes Sedai.

Amigos das Trevas se infiltram na cidade e Fal Dara sofre um ataque dos Trollocs, que acabam por roubar a Trombeta de Valere que estava sendo mantida no local, e como desgraça pouca é bobagem, acabam por roubar também a adaga de Mat. Sem a adaga o vínculo com a mácula de Shadar Logoth não poderia ser desfeito, e Mat fatalmente iria morrer em poucos meses se esse elo não fosse quebrado, fora que a própria adaga poderia ser usada para espalhar a mácula pelo mundo. Em resumo, os inimigos roubaram dois artefatos extremamente poderosos que poderiam colocar o mundo inteiro em risco, além da própria vida de Mat estar jogo.

“A Trombeta não pode cair em mãos erradas, especialmente nas mãos de Amigos das Trevas. Aqueles que atenderem a seu chamado virão em auxílio daquele que portá-la, não importa quem seja, e obedecem a ela, não à Luz.”

Liderados por Ingtar, os soldados shienaranos de Fal Dara dão início a uma caçada pela Trombeta, prometendo dar as próprias vidas para recuperar o artefato. Rand, Mat, Perrin e Loial juntam-se a eles na busca, porém com o foco maior em obter, sobretudo, a adaga para assim poderem salvar a vida de Mat. Para rastrear os Amigos das Trevas e Trollocs que levaram os artefatos o grupo recebe o auxílio de Hurin, um “Farejador”, alguém que tem a habilidade de sentir o cheiro da violência e do sofrimento, e deste modo conseguiam seguir os rastros das mortes e atrocidades que eram cometidas pelos seus inimigos pelo caminho, algo alienável dentro das maneiras com que estas criaturas passavam seus dias.

A_Grande_Caçada

“A Grande Caçada”, em uma arte de Darrell K. Sweet

Entrementes, um novo problema surge do oeste, uma ameaça dos Seanchan, um povo que descendia do exército e de dois filhos de Artur Asa-de-gavião, um lendário rei de outrora, e que agora voltavam como conquistadores, possuindo a capacidade para até mesmo subjugar as poderosas Aes Sedai.

Jordan consegue misturar referências tanto de outras obras literárias, quanto de culturas de nosso mundo, mas ao mesmo tempo consegue ser bastante original, algo que cheguei a comentar na resenha sobre O Olho do Mundo, livro que tem inspirações até mais claras que este, sobretudo em relação ao mundo criado por J. R. R. Tolkien em O Senhor dos Anéis, autor este que inevitavelmente é comparado a qualquer outro que se sobressaia dentro do gênero, e de fato O Olho do Mundo carrega muito da aventura da Comitiva do Anel, muito embora as suas particularidades já o destacassem como algo fora dessa curva de pastiches tolkinianos que cansamos de ver por aí, A Roda do Tempo é algo que consegue se diferenciar de tudo o mais que já tenha lido, embora ainda compartilhe essas pequenas e inevitáveis similaridades com outras obras, e em A Grande Caçada essa sua personalidade própria acaba ficando cada vez mais nítida é fica óbvio o motivo dessa série se sobressair sobre tantas outras e deixar uma reverberante presença dentre os grandes clássicos do gênero. Se você gosta de O Senhor dos Anéis vai gostar dos livros do Jordan, se não gosta por achar muito arrastado, também vai gostar, já que esta série é mais dinâmica, ao mesmo tempo que consegue cativar tanto quanto as obras de Tolkien.

Mapa_A_Roda_do_Tempo

Ainda falando das referências e inspirações, também é perceptível a escolha de Jordan por nomes que acabam remetendo à mitologia hebraico-cristã, bem como a enxurrada de referências ao Rei Arthur, seus cavaleiros e outros personagens das lendas arrturianas, como Thom Merrilin – Merlin; Galad – Galahad; Gawyn – Gawain; um personagem no prólogo chamado de “Bors”; Egwene al’Vere – Guinevere. E claro que não podemos nos esquecer do próprio Artur Paendrag Tanreall, o Artur Asa-de-gavião, obvia alusão a Arthur Pendragon, o Rei Arthur. Mas ainda temos os Seanchan, claramente inspirados na cultura oriental, sobretudo na cultura chinesa e na japonesa, desde seu vestuário, costumes, apego às regras e normas de conduta e reverência à alta nobreza, claro, tudo isso tomando uma forma diferente do que é ou foi no nosso mundo nas mãos de Jordan, ganhando seus próprios contornos e particularidades, dando essa sensação de ser algo tão próximo e tão distante ao mesmo tempo. O interessante é que os próprios shienaranos lembram bastante guerreiros samurais, e mesmo assim Jordan conseguiu fazer os dois serem bem diferentes entre si.

Os personagens são muito bem trabalhados, principalmente na questão das suas dúvidas, decorrentes das transformações pelas quais passaram e pelas descobertas que fizeram nessa jornada, eles vão aos poucos descobrindo mais sobre si mesmos, ao mesmo tempo em que ficam em dúvida sobre quem eles são ou o que irão fazer, mas isso nunca é feito de uma maneira que aborreça o leitor, e é algo indispensável para o amadurecimento destes personagens. Rand e o seu medo crescente de ficar louco com o Poder Único, com a desconfiança dos propósitos das Aes Sedai e de sua própria identidade, de ser Rand al’Thor, o pastor de Campo de Emond e não a reencarnação de Lews Therin Telamon, o Dragão, bem como Perrin com sua preocupação com o seu poder de se comunicar com os lobos e as experiências decorrentes desses contatos, e também Nynaeve tendo de se tornar uma das Aes Sedai, que ela mesma vê com desconfiança são os melhores exemplos a serem dados, todos eles tentam negar esses poderes, mas devem aceitar e aprender a lidar com eles. Ainda falando de personagens, se no livro anterior Perrin roubou a cena, neste esse papel fica por conta do Ogier Loial.

Jordan se sobressai em toda a construção de seu mundo, desde toda a mitologia que cerca esse universo com suas profecias, Eras cíclicas e reencarnações de um avatar que luta contra mal incontáveis vezes desde o início dos tempos até o próprio tempo findar, como também quando ele começa a explorar diferentes dimensões ao adentrar os “Espelhos da Roda” através de uma Pedra-portal, mundos do “se” e do “talvez”, realidades alternativas onde as coisas aconteceram de forma diferente através das diferentes escolhas que as pessoas acabam tomando, algo que se encaixa perfeitamente com essa coisa toda de Padrões tecidos pela Roda do Tempo, o que só pode ser descrito como sensacional. Dignos de nota também são as próprias culturas desse mundo, desde os pacíficos Ogier até os temidos Aiel, passando pelos honrados shienaranos e pelos cairhienos com suas tramas políticas do Daes Dae’mar, o Grande Jogo. O próprio treinamento das Aes Sedai e a mitologia dos Abandonados e das encarnações do Dragão também chamam logo a atenção.

A Roda do Tempo tece o Padrão de uma Era usando a vida dos homens como fio. E vocês três são ta’veren, pontos centrais da trama.

“Por um tempo, a Roda vai curvar o Padrão ao redor de vocês três, o que quer que façam. E o que quer que façam provavelmente será definido pela Roda, e não por vocês. Os ta’veren impulsionaram a história e moldam o Padrão apenas por existirem, mas a Roda tece os ta’veren com uma linha mais apertada do que qualquer outro homem.

Outro ponto que me obrigo a comentar fica por conta das descrições de batalhas, tanto aquelas com armas brancas quanto aquelas que envolver o uso de magia, e falando em magia, a forma com que são exploradas as habilidades mágicas, e até mesmo a própria construção da magia e dos artefatos mágicos, é algo que não tem como não agradar, é simplesmente fantástico. O autor também consegue fazer com que a história vá evoluindo aos poucos, desenvolvendo-se, se avolumando até chegar ao clímax apoteótico ao final do livro, não há como não ficar com uma boa impressão ao terminar o livro, e também com a curiosidade acirrada pelo próximo volume

“E homens clamaram ao Criador, dizendo: Ó, Luz dos Céus, Luz do Mundo, deixe que o prometido nasça da montanha, conforme as profecias, como aconteceu em Eras passadas e acontecerá nas Eras vindouras. Deixe que o Príncipe da Manhã cante para a terra sobre as coisas verdes que crescerão e os vales que gerarão cordeiros. Deixe que a mão do Lorde da Manhã nos abrigue do Escuro, e que a montante da justiça nos defenda. Deixe que o Dragão cavalgue novamente nos ventos do tempo.”

– de Charal Drianaan te Calamon, O Ciclo do Dragão.

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3 comentários sobre “A Grande Caçada (A Roda do Tempo Vol.2) – Robert Jordan

  1. Bah João, tu veio fazer uma resenha ou escrever um livro? Haha Brinks, sei que tu gosta de te estender.

    Concordo contigo em vários pontos, eu fui uma que tive dificuldade em terminar O Senhor dos Anéis justamente por ser arrastado, mas consigo ver a similaridade entre as obras e ainda assim amar A Roda do Tempo. Estive até pensando em reler Tolkien só por causa d’A Roda.
    Não tive um olhar tão atendo quanto ao teu em relação às referências à lenda arturiana, mas gostei de conhecê-las, vou procurar alguma coisa nos próximos livros.
    E como tu disse, Perrin rouba a cena no primeiro livro e Loial nesse segundo, eu quero é saber quando vai ser a vez do Mat ❤

    Bjos
    http://perfectpick001.blogspot.com.br/2016/06/a-grande-cacada-robert-jordan.html

    Curtido por 1 pessoa

    • Bah guria, bem capaz! Tu sabes que eu gosto de escrever e acabo indo longe. Vou tentar ser mais sucinto da próxima, mas não posso prometer nada. Haha
      O primeiro da Roda do Tempo se parece bem mais com O senhor dos Anéis, o segundo já foge um pouco, mas ainda assim dá pra sentir o mesmo clima ali. O que pega mais em SdA é o início, desde a partida do Condado até passar do Tom Bombadil e as partes do Frodo e Sam no terceiro, já o segundo é fantástico pq é um livro que foca mais nas batalhas e não chega a ser tão descritivo.
      Eu conheço pouco das lendas arturianas, só as referencias mais óbvias que eu consigo pegar, acho que deve haver até mais se bobear. Gosto dessas referências agrega à obra, mesmo pq são referências mesmo, sem ser uma cópia pálida do original, o autor trabalha bem nisso, tem muita coisa ali que vc percebe ser inspirado de outras histórias/mitologias.
      Tomara que no terceiro! Ele tá prometendo alguma virada de personalidade, quero só ver.
      Bjs guria! 

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  2. Pingback: O Dragão Renascido (A Roda do Tempo Vol.3) – Robert Jordan | Foco de Resistência

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