Matadouro 5 – Kurt Vonnegut

matadouro_5Matadouro 5 é a obra mais conhecida do americano Kurt Vonnegut, publicado originalmente em 1969. O livro é uma crítica direta ao sentimento de glorificação que há entorno da guerra, e carrega em si algo de semi-biográfico, já que o próprio autor usa do artifício de ser o narrador da história e de se colocar dentro dela em algumas situações, misturando a ficção com fatos que ele mesmo vivenciou, já que ele mesmo esteve na Segunda Guerra Mundial, sendo capturado por soldados alemães, e posteriormente acabou por presenciar, e obviamente sobreviver, ao bombardeio da cidade de Dresden pelos aliados.

Antes de qualquer coisa uma pequena nota histórica para ajudar aos leitores dessa resenha: A cidade de Dresden, na Alemanha, foi bombardeada pelos britânicos e americanos já no fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e deixou a cidade totalmente destruída, literalmente em escombros. Enquanto o exército americano alega que foi algo necessário para acabar com as fábricas que alimentavam a máquina de guerra alemã, além de ser um centro de comunicação, e, portanto, ser um alvo estratégico, muitos outros alegam que a cidade era um centro cultural que tinha pouquíssima importância estratégica e que o bombardeio serviu mais para fins de ganhos militares e para causar terror nos alemães. Kurt Vonnegut em sua obra alega que foram mais de 100.000 vítimas, mas o número parece mesmo estar entre 20.000 e 25.000, o que não o torna menos grave, ainda mais tendo em vista que a maioria das mortes foram de civis. O bombardeio da cidade de Dresden até hoje gera debates se foi ou não um crime de guerra cometido pelos aliados, e é um evento que teve uma repercussão menor fora da Alemanha do que deveria durante muito tempo, e até hoje não é muito conhecido, mas que deveria ser justamente por esse caráter duvidoso da necessidade desse tipo de ação extrema dos aliados.

Acompanhamos a história de Billy Pilgrim, uma pessoa bem comum e sem graça, até meio desengonçado e apático, que se vê no meio da Segunda Guerra Mundial, e que acaba por ser capturado por soldados alemães e presencia o bombardeio da cidade de Dresden. Após a guerra ele se torna um optometrista bem sucedido, se casa, tem dois filhos e em um determinado momento parece surtar, resolvendo contar ao mundo sua experiência ao ser abduzido por estranhos seres extraterrestres para ser exibido em um zoológico em Tralfamador, o planeta destes alienígenas. Após esta experiência Billy meio que acaba por ter experiências de viagem no tempo, não fisicamente, mas em consciência, e a narrativa do livro é fragmentada nessas idas e vindas de Billy em diversos momentos de sua vida, principalmente nos momentos em que esteve na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

Como é a sua consciência que viaja no tempo, ele tem pleno conhecimento de como será a sua vida no futuro, até mesmo a data e as circunstâncias de sua inevitável morte, portanto esse aspecto fatalista de como Billy enxerga o mundo é resultado desse conhecimento aliado as suas experiências em Tralfamador, já que os tralfamadorianos, seres que enxergam em quatro dimensões, sendo capazes de ver simultaneamente todos os pontos de existência de algo, o que os torna tão descrentes ao conceito dos humanos de livre-arbítrio, para eles as coisas existem da forma como existem e não podem ser mudadas, tudo existe ao mesmo tempo, e a própria morte é uma ilusão, já que em algum lugar do tempo estamos vivos, do mesmo modo que em algum lugar do tempo também estamos mortos.

Posso afirmar que estes conceitos de existência e de livre arbítrio foram o que valeram o livro para mim, de longe foi o que mais gostei e sinceramente essas partes com os diálogos com os tralfamadorianos foram bem mais interessantes do que Billy como prisioneiro de guerra. Como leitor devo confessar que apesar dessa apatia do personagem principal ser necessária dentro dessa visão, e até é interessante em certos pontos, isso inevitavelmente acaba por deixar o personagem menos carismático, mas isso não seria problema por si só se os outros personagens compensassem, mas na minha humilde opinião eles não compensaram, e não tive afeição alguma a qualquer um dos personagens deste livro. Roland Weary, que em si representa o apego a essa concepção de glória militar que é criticada no livro, ainda é levemente interessante pela proposta em si, porém também não é nem um pouco marcante.

Algo que tenho que falar, talvez a favor do livro, talvez contra, é que não consegui muito distanciar comparações entre este livro e Ardil-22, de Joseph Heller, que divide diversas semelhanças com a Matadouro 5, mas que achei muito superior ao livro do Vonnegut. Ambos satirizam a guerra e são claramente antibelicistas; seus os autores escreveram sobre a Segunda Guerra baseados em experiências próprias; os dois livros fizeram sucesso na mesma época por motivos semelhantes, embora Ardil-22 tenha sido publicado no início dos anos 60; ambos seguem uma narrativa não-linear sendo contadas entre inúmeros flashbacks, embora em Ardil-22 não haja viagens temporais de qualquer forma que seja, os flashbacks são apenas usados como uma forma de narrativa, usando do recurso de ir emendando uma história em outra, como um louco contando um relato, o que foi justamente a intenção de Heller no livro. Ambos também usam muito do humor negro e das ironias, mas novamente devo dizer que Heller se saiu melhor do que Vonnegut nesse quesito.

Falando em ser uma obra antibelicista que fez sucesso no final dos anos 60, há um grande motivo para tal, ela foi publicada no meio da Guerra do Vietnã, quando já havia protestos pelo país com fortes críticas ao envolvimento do país nessa Guerra, e um livro com um apelo anti-guerra e que retira das batalhas esse sentimento de algo glorioso, honroso e heroico que era propagado até então era perfeito dentro do zeitgeist da época. Foi o momento perfeito para escrever e publicar esse livro, até para fazer as pessoas reverem seus conceitos, já que o momento era este com os americanos vendo o que realmente era uma guerra, ainda mais com a primeira guerra televisionada com todos os aspectos mais sujos e brutais que uma guerra pode ter, sem esta capa de heroísmo e de luta pela democracia e liberdade, já que todas as atrocidades cometidas pelos dois lados estavam sendo publicados. Pela primeira vez a opinião pública via que nem sempre os americanos jogavam limpo e a guerra era algo glorioso, o que é perfeito para esta questão levantada sobre o massacre ocorrido em Dresden.

Eu devo chegar a conclusão desta resenha falando que Matadouro 5 é um livro até bem legal, e creio que muita gente deva gostar dele, ainda mais por ser bem curtinho e fácil de ler, mas eu não consegui gostar muito dele justamente pelo fator Ardil-22. Eu considero as ideias muito boas, mas a forma com que foi a história foi escrita e a construção dos personagens não conseguiram me cativar, para mim faltou um pouco de vida, um pouco mais de impacto, algo que ressaltasse mais essa experiência com a guerra, que acaba ficando até um pouco diluída por essas viagens no tempo, creio que faltou um pouco de foco ao autor nesse ponto, mas mesmo assim eu recomendaria este livro, acho que ele merece sim ser lido para que cada um possa tirar as suas próprias conclusões.

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