O Aprendiz de Assassino – Robin Hobb

O Aprendiz de Assassino é o primeiro volume da “Saga do Assassino” (Farseer Trilogy, no original), escrito pela autora norte-americana Robin Hobb, pseudônimo de Margaret Astrid Lindholm Ogden, publicado originalmente em 1995.

O Aprendiz de AssassinoA história começa com um garoto de seis anos tirado dos braços da mãe pelo seu avô e em seguida entregue para um soldado, sob a alegação que a criança seria o filho bastardo do Príncipe Cavalaria, o primeiro filho do rei Sagaz e o Príncipe Herdeiro do trono dos Seis Ducados, e que a criação do garoto deveria ser responsabilidade de Cavalaria. Sem saber qual era o nome do garoto, e nem ele próprio conseguia lembrar-se como se chamava, acabaram nomeando o garoto como Fitz, que significa “filho de”, ou “bastardo”.

O Príncipe Cavalaria sempre fora visto como um homem nobre, digno e honrado, e um filho bastardo causou um certo incômodo, ainda mais que a sua esposa, a Dama Paciência, nunca conseguira dar-lhe um filho legítimo, e esse filho bastardo sendo o único filho do Príncipe Herdeiro poderia causar certa discórdia mais adiante na linha de sucessão do trono dos Seis Ducados. Diante dessa situação, ele abdica do trono e vai morar com a esposa em um local mais afastado, deixando o garoto aos cuidados de Bronco, o homem de confiança do Príncipe Cavalaria, e o título de Príncipe Herdeiro para seu irmão o Príncipe Veracidade.

Aqui vale uma pequena explicação quanto aos nomes, era uma tradição entre aqueles que tinham sangue nobre de nomear as crianças a fim de “moldar” uma eventual personalidade ou virtude, desta forma era comum a nobreza possuir nomes como “Cavalaria”, “Paciência”, “Veracidade”, “Majestoso”, “Sagaz”, etc.

Fitz acaba indo morar em Torre do Cervo, local onde o rei reside, e criado por Bronco, que cuidava dos estábulos e dos animais de caça, ele passa seus dias o ajudando a realizar as suas tarefas com os animais, onde rapidamente desenvolve uma ligação com um cachorrinho que mais tarde descobre-se que é fruto de uma antiga habilidade conhecida como Manha, – falaremos dela mais tarde juntamente com outra também importante para a história-, bem como também logo tem de aprender atividades que um filho de um nobre, mesmo sendo ilegítimo, deveria aprender, tais como defesa pessoal, ler e escrever.

Como um bastardo Fitz também tinha que suportar alguns olhares de reprovação e provocações por conta de seu nascimento, de algumas desavenças, principalmente do 3º filho do rei e atual segundo na linha de sucessão ao trono, o Príncipe Majestoso.

Um bastardo pode ser um perigo para a linha de sucessão do trono, causando discórdia entre aqueles que almejam o posto, mas pode ser uma grande arma para aquele que conseguir sua lealdade. Um bastardo possuí sangue real, podendo ser um excelente emissário, pode servir como forma de se fazer uma aliança com outros nobres através de matrimônio, servir até como refém, ou mesmo fazer trabalhos mais sombrios e escusos, isto o Rei Sagaz sabia muito bem e tratou logo de ganhar a lealdade de Fitz. Sagaz então o deixa sob a tutela do misterioso Breu para que este transforme o rapaz em um assassino a serviço do rei, empregando a “diplomacia da navalha” quando era preciso. Apesar desta descrição parecer um tanto quanto sombria, Breu se mostra na verdade a figura de um mentor para Fitz, uma figura paterna a exemplo do carrancudo Bronco, porém com ares de maior sabedoria, e com um entendimento um pouco maior do que Fitz sentia e do destino que lhe aguardava. Uma figura ao mesmo tempo compreensiva e melancólica.

“Não faça o que não pode desfazer, até ter considerado o que não poderá fazer depois de tê-lo feito.”

O tempo passa e surge uma ameaça aos Seis Ducados, são os Salteadores dos Navios Vermelhos, um misterioso grupo fazia estranhos ataques as vilas costeiras, sequestrado os moradores e devolvendo-os em um estado de “zumbificação”, que acabou por ficar conhecido como Forjamento, devido ao nome do primeiro local onde ocorreu essa situação, a cidade de Forja. O forjamento levava as pessoas a perderem a sua humanidade, ficando sem laços sentimentais, vazias, quase sombras humanas do que um dia já foram, se importando apenas em roubar aquilo que lhes chamasse a atenção no momento, por menor que fosse, comer desregradamente e agir com violência contra quem ficasse no seu caminho. As vítimas do forjamento só pareciam se importar apenas com o imediato, ficando em uma espécie de torpor combinado com momentos de ganância cega. A falta de capacidade do rei do Príncipe Herdeiro em lidar com essa situação logo é posta em cheque, e diante dessa ameaça Fitz é treinado como um candidato a controlar uma habilidade que apenas algumas pessoas com sangue real possuíam, o Talento.

Agora sim, vamos as explicações referentes a essas habilidades que Fitz possuía: a Manha, em suma, conectava o usuário a algum animal, fazendo o sentir o que o animal em questão sentia, compartilhando sensações, pensamentos, vendo o que a criatura via, etc., o que desagradava profundamente Bronco, já que via isso como uma abominação, ainda mais sendo usada pelo filho do estimado Príncipe Cavalaria; já o Talento está mais ou menos para a mente das pessoas o que a Manha está para a dos animais, sendo uma mistura de telepatia com um pouco de controle mental e ainda um algo mais. A Manha pode fazer um ser humano se apegar e responder apenas aos instintos animais, perdendo a humanidade aos poucos, se tornando mais próximo de uma fera qualquer, já o Talento pode desgastar uma pessoa até ela definhar. Ambas as habilidades possuem as suas qualidades, mas os excessos e a falta de controle podem ser desastrosos.

Uma reclamação recorrente que vejo em relação ao livro é sobre o ritmo mais lento que ele possuí, e de fato as coisas demoram a acontecer, mas não incomoda e nem chega a ser uma leitura enfadonha, bem, tirando talvez as partes do Fitz com o cãozinho (que são muito, mas muito chatas), mas fora isso não há nada que te incomode ao ponto de querer abandonar o livro. Eu acabei me divertindo bastante acompanhando a história só pelos pequenos detalhes, e não apenas por esperar grandes acontecimentos ou por desejar saber o desfecho de alguma trama, você apenas aproveita a viagem que o livro lhe proporciona, mas acho que para alguns que esperam esse tipo de coisa, eventualmente esperando algo mais épico e mais dinâmico, talvez não gostem tanto do livro. A narrativa tem um tom bem descritivo, mas para mim isso não atrapalha muito, e pessoalmente até gosto disso em livros de fantasia. Creio até que as descrições de cenários e o clima medieval que a autora consegue transmitir são os grandes pontos fortes do livro.

“A maior parte das prisões é criada por nós mesmos. Um homem também faz a própria liberdade.”

Quanto à questão dos personagens confesso que não simpatizei com o Fitz, muito por conta do drama todo que faz sempre quando tem o contato da Manha com algum cachorro, realmente essas partes ficaram meio arrastadas e confesso que desejava que a história partisse para qualquer outra coisa que me tirasse dessa enrolação toda. Bronco, Breu, Veracidade, Paciência e Bobo são mais interessantes que o personagem principal, não sei se essa impressão também fica mais evidente pelo fato de Fitz ainda ser um garoto e estar formando aos poucos a sua personalidade, enquanto a dos outros já é mais “sólida”, porém gostei bem mais deles do que do Fitz. Estes personagens secundários acabam roubando a atenção quanto aparecem, seja pelo caráter duro, mas sincero de Bronco, pelo ar misterioso de Breu, pela altivez de Veracidade, pelo jeito confuso e meio avoado de Paciência ou pelo comportamento enigmático de Bobo, falando em tons proféticos e de uma maneira nebulosa.

Não é um livro que vá agradar a quem quer ação, e nem quem espera algo grandioso, mas certamente é uma leitura divertida e que termina com uma boa impressão para quem lê. Não vai cativar a todos, mas certamente agradará bastante quem procura algo mais leve, sem maiores pretensões de uma trama intrincada e gigantesca, com acontecimentos que mudam o mundo, é uma leitura que vale apenas pela leitura em si, e como já disse anteriormente, vale pela viagem que proporciona.

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