Trindade (Guerra das Rosas Vol.2) – Conn Iggulden

O segundo volume da série “Guerra das Rosas, escrito pelo britânico Conn Iggulden, dá prosseguimento as lutas dinásticas entre os dois ramos da Casa Real Plantagenta, os Lancasters e os Yorks, desta vez se aprofundando mais e chegando aos confrontos armados entre os exércitos das duas Casas.

TrindadeComo bem disse o autor, “Ricardo, duque de York, era rei em tudo, menos no título”, o líder da Casa de York, agora como Protetor e Defensor do reino, administrava a Inglaterra com eficiência e aproveita a oportunidade para afastar seus inimigos políticos, porém quando o rei Henrique VI desperta de seu estado catatônico, restaura os favores de seus aliados e tira de Ricardo o título de protetor do reino e o controle de Calais, a situação torna-se cada vez mais tensa e pegar em armas parece ser a única solução para os dois lados, dando início as disputas entre as duas famílias pelo trono da Inglaterra que posteriormente vieram a ser conhecidas como “A Guerra das Rosas”.

Mais conhecido pelas séries O Imperador e O Conquistador, focadas nos líderes militares Júlio César e Gêngis Khan, respectivamente, desta vez Iggulden se aventura em um período que também é cheio de batalhas, porém os personagens envolvidos nem sempre são guerreiros que estão continuamente à frente da batalha como aconteceu com os personagens principais de suas séries anteriores, que isto fique bem claro. Com isto dito, acho que posso poupar os leitores mais desavisados de formarem uma expectativa fundamentada apenas em um livro onde a porrada come solta incessantemente, mas esperar por isso por si só já seria um erro gritante, a trama política é inerente a qualquer narrativa que se preze sobre esse período, e certamente é um prato cheio para qualquer autor de ficção histórica, deixar a ação tomar conta do livro todo tiraria muito do que a História tem para oferecer. Talvez alguns leitores tenham sentido essa diferença entre as outras séries do Iggulden e essa nova série focada na Guerra das Rosas, iniciada em Pássaro da Tempestade, o livro anterior, e talvez até sintam essa falta de durante a primeira metade desse livro, mas para acalmar essas pessoas posso dizer que as batalhas sangrentas não faltam, e a segunda metade do livro é que as coisas de fato esquentam, com a primeira batalha de St. Albans e com a batalha de Blore Heath, porém estas não são as únicas e o livro ainda tem outros confrontos fantásticos a apresentar.

As disputas entre famílias poderosas não ficam somente entre York e Lancaster, a rixa entre as casas nobres de Neville e Percy não poderia ser esquecida, já que essa contenda foi determinante para desencadear vários eventos na Guerra das Rosas, e alguns membros dessa família por muito tempo tiveram uma influência grande em relação ao rei inglês. Com os Percy ao lado da coroa e os Neville como os grandes apoiadores de York, o papel dessas duas famílias é vital, e pode-se afirmar que a sua rixa é mais forte do que as das duas famílias principais, e para estas Casas nobres se aliar aos mais poderosos é uma ótima desculpa para atingir o objetivo derrotar seus velhos inimigos.

Percy_X_Neville

Brasão de armas das Casas de Percy e de Neville

O autor consegue passar muito do clima da época com pequenas curiosidades sobre a vida de nobres e plebeus que aos poucos vão sendo inseridas no decorrer da história e que acabam servindo para entender o próprio pensamento medieval, apesar de não terem sempre grande influência para o comportamento de algum personagem ou serem vitais para o entendimento de algum evento. Entender a mentalidade da época é algo extremamente necessário para ter alguma empatia e compreender as atitudes que as pessoas tomavam, além de ser bem divertido observar os costumes praticados na época que hoje em dia parecem ser tão estranhos aos nossos olhos. Esse tipo de detalhe é pequeno, mas faz toda a diferença.

Algo positivo em relação ao livro anterior é a forma com que as motivações e personalidades dos personagens foram explorados, acho que a abordagem dessa vez foi um pouco menos maniqueísta do que o visto em Pássaro da Tempestade, aqui a Margarida nem sempre é rainha boazinha e Ricardo não é o usurpador malvado, como talvez possa ter aparentado um pouco mais no livro anterior, geralmente as pessoas são mais complexas e são motivadas por fatores que os outros não entenderiam, e quem é taxado como vilão por um lado se veja como uma boa pessoa, algo comum aos dois lados, cada um acredita que o que faz, faz pelo bem geral. O interessante é ver essa abordagem em relação ao próprio rei e as relações de fidelidade. Por esse motivo já acho esse livro melhor que o primeiro.

A fraqueza de Henrique VI e as perdas de território na França era algo que não ajudava muito o rei, ainda mais com essa visão de que o governo do país estaria nas mãos de uma francesa, e a própria Margarida também ajudava os seus dando terras e títulos para seus aliados, gastando muito e com um governo visto como corrupto, e York foi muito competente ao desempenhar a tarefa de Protetor, já que ele deu um jeito na bagunça que estava o país, mas de fato para a época tentar tomar a coroa de um rei era algo meio absurdo, mesmo que esse rei fosse totalmente incapaz. De fato, o pensamento da época e a lealdade de alguns nobres deveria ficar dividido entre a devoção ao rei e a crença de que ele era uma marionete nas mãos de quem estava se aproveitando dele e enfraquecendo o reino, não dá para limitar essa disputa a dois lados totalmente opostos guiados pela sede de poder em si, pelo menos nesse primeiro momento da Guerra das Rosas.

Margarida_e_Henrique

Margarida de Anjou e Henrique V

A abordagem mais “simpática” à Margarida de Anjou é uma escolha do autor, principalmente por ela ser uma mulher forte e por ser interessante contar a história sob o ponto de vista dela, e até pela própria preferência do autor de explorar um personagem desde a infância e ir mostrando a evolução dele, mas ela não era flor que se cheirasse, que fique bem claro. Margarida de Anjou era uma mulher bem ambiciosa e que defendia com unhas e dentes sua família, e quem de fato governava pelo marido, agindo como uma iminência parda, não é à toa que ela foi a inspiração para a Cersei Lannister das Crônicas de Gelo e Fogo. Aliás, já fiz um post inteiro comparando a Guerra das Rosas com a Guerra dos Tronos, quem quiser conferir eis o link. Apesar dessa perspectiva não ser ruim, e é até um pouco diferente do que se costuma ver associado à Margarida de Anjou (quem sabe não foi essa mesma a intenção do autor), eu ainda acho que uma Margarida mais ambiciosa talvez fosse uma escolha mais interessante para essa história, ainda mais pelos contornos políticos e pela disputa pelo poder em si, mas nesse livro mesmo já vemos um lado mais belicoso e manipulador dela, principalmente ao planejar a derrocada da Casa York através de um Ato de Desonra assinado pelo rei, uma lei que retirava os títulos, direitos de sucessão e terras dos nobres, com isso York seria obrigado ou a pegar em armas contra o rei – o que seria perfeito para ela convocar exércitos leais a ela e a Henrique, os chamados “Galantes da Rainha” e os “Galantes do Rei” e ter sua chance de derrotar seus inimigos em batalha-, ou então a Casa de Ricardo perderia tudo. Acho que nesse livro ela ficou uma personagem bem mais interessante do que ela era no livro anterior.

Ricardo, o duque de York é um personagem bem mais interessante, talvez o mais interessante desses dois primeiros livros. O interesse dele não era na coroa em si, nem em ver o rei em uma situação difícil, ao contrário, ele acreditava que estaria livrando o rei, e o reino, dos maus conselheiros que influenciavam Henrique VI negativamente.  Para quem não conhece a História e apenas lê o romance é interessante ver como as pessoas são geralmente mais complexas do que o simples maniqueísmo da ficção. Ricardo não é e nunca foi um vilão, tampouco não é um herói, ele apenas segue suas crenças e faz o que o acreditava ser o melhor para seu rei e para o reino da Inglaterra, e não uma pessoa puramente sedenta pelo poder.  Complexo, leal, mas ao mesmo tempo querendo o melhor para o reino, não tem como não gostar dele.

Árvores genealógicas com linhas de sucessão, mapas e uma lista de personagens ajudam a não ficar perdido no meio dessa confusão de nomes, que é algo que vem da própria História, e acredite, a falta de criatividade dos nobres ao dar nomes aos filhos pode ser algo complicado para alguns.

Apesar do ritmo lento de inicio, uma vez que começam as batalhas, do meio do livro em diante, fica mais dinâmico e algumas delas são sensacionais, como a tomada de Londres, e o clima político e essa visão menos binária fazem de “Trindade” um livro melhor que seu antecessor, e acredito que o próximo será até mais interessante, pelos eventos que se seguirão. Um bom livro, mas como disse não tente ver com a visão que se dava aos outros do Iggulden, que eram sobre líderes militares que iam para a batalha, aqui a visão se divide em mais de um personagem, há mais motivações e estas são mais complexas e o pano de fundo é tão importante quanto às batalhas em si. Apesar de ser diferente dos seus antecessores, e de ser mais lenta em alguns pontos, a série da Guerra das Rosas é muito boa e ainda tem potencial para se tornar tão memorável quanto às outras do autor.

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