Inspirações Históricas das Crônicas de Gelo e Fogo: 4ª Parte

É inegável a capacidade que o George R. R. Martin tem de criar histórias fascinantes com reviravoltas surpreendentes que tem a capacidade de fazer com que os leitores fiquem totalmente imersos em Westeros e nas terras além do Mar Estreito, aliado a isso ainda temos a imensa credibilidade que o Martin consegue imprimir na construção de seus personagens, o que é uma fórmula certa para fazer com que seja fácil esquecer que nada daquilo realmente aconteceu de tão natural e imprevisível que as coisas acabam tomando forma. Mas se por um lado não temos estações que duram anos, dragões e criaturas fantásticas, temos muito da influência de eventos ocorridos no nosso mundo e personagens históricos que ajudam a dar a obra essa percepção que muito do que acontece nos livros poderia ter acontecido em nosso mundo. Pois bem, algumas coisas ocorreram, se bem que nem sempre da mesma forma. Dando prosseguimento a essa série de posts sobre as influências históricas na obra do Martin vamos ver que essas inspirações não ficam apenas em traições, príncipes desaparecidos, conspirações, trocas constantes de poder e reis desequilibrados.

 

Os spoilers golpeiam mais profundamente que espadas, estejam avisados.

 

A Caminhada da Expiação

A caminhada da expiação que a Cersei Lannister teve de fazer como penitência ante a seus pecados foi inspirada em um evento real, a penitência pública de Jane Shore.

Jane Shore foi uma das muitas amantes do rei Eduardo IV, e ao contrário de muitas das amantes de Eduardo, o relacionamento dos dois durou até morte dele em 1483. Depois da morte do rei ela também foi amante de outros nobres, como Thomas Gray, o 1º Marquês de Dorset, que era enteado do rei Eduardo IV (Thomas era o filho de um casamento anterior de Isabel Woodville, a rainha) e também de William Hastings, 1º Barão de Hastings. Quando Ricardo III subiu ao trono ele acusou Jane Shore junto com a rainha Isabel Woodville e o Barão de Hastings de conspirarem contra ele. Posteriormente Jane e a rainha ainda seriam acusadas de praticar bruxaria e feitiçaria contra Ricardo, porém como isto não pode ser provado, as acusações contra Jane Shore foram reduzidas a devassidão e tal como a Cersei, ela teve de fazer uma penitência pública como uma meretriz.

Jane_Shore

“The Penance of Jane Shore”, por William Blake

Jane saiu pelas ruas de Londres em um domingo descalça e com a aparência desgrenhada, vestindo apenas uma túnica (que era na verdade a saia que se usava sob o vestido) e carregando em suas mãos uma vela enquanto na sua frente uma procissão levava uma cruz e um coro ia cantando salmos. Ao fazer sua penitência ela atraiu muitos olhares da multidão que se formou para assisti-la, principalmente por parte dos homens, mas dizem que ela encarou a punição com compostura e dignidade. Bem, acho que os paralelos são bem claros, da mesma forma que ela Cersei foi acusada de alta traição, adultério e fornicação. A ex-rainha de Westeros também teve de demonstrar o seu arrependimento e falta de orgulho através da própria aparência, porém a humilhação que Jane Shore foi submetida foi até mais leve do que aquela pela qual Cersei teve de passar, a Lannister teve seu cabelo totalmente raspado e foi obrigada a sair nua do Grande Septo de Baelor até a Fortaleza Vermelha, os olhares lascivos também foram comuns e ela encarou com certa dignidade a maior parte do trajeto, mas diferente de Jane, o povo não pegou tão leve e atirava alimentos podres, e até um gato morto, em sua direção.

Cersei

Shame! Shame! Shame!

Vale lembrar que da mesma forma que religiosos iam na penitência de Jane Shore cantando salmos, uma das partes mais lembradas da caminhada da Cersei Lannister foi quando duas septãs seguiam ao seu lado enquanto uma outra ia atrás delas tocando um sino e repetindo as palavras “vergonha, vergonha sobre a pecadora, vergonha, vergonha”, algo que acabou fazendo com que os fãs se referissem a essa punição como “a caminhada da vergonha”.

 

Aço Valiriano x Aço de Damasco

As lâminas feitas com o aço valiriano eram mais afiadas, mais mortais, mais leves do que qualquer outra lâmina forjada em castelo. Eram mais finas, porém fortes e resistentes e não perdiam seu fio jamais, além de também apresentarem outra característica que os distinguia dos demais metais com os quais se produziam as armas, eles apresentavam um padrão de ondulações profundas no aço cinza-escuro, um indício de que o aço havia sido dobrado sobre si mesmo milhares de vezes.

Qualquer lâmina feita com aço valiriano é extremamente cara, devido a sua raridade, já que o segredo de sua manufatura se perdeu junto com a antiga cidade de Valíria, e mesmo reforjar o material não é uma tarefa simples, apenas os mais hábeis armeiros conseguem o feito. Pela raridade e pelas suas características as armas feitas com o aço valiriano viraram um símbolo de status entre as casas nobres de Westeros, sendo passadas para os herdeiros dessas casas como uma das mais estimadas heranças, cada espada com sua própria história e nome, fazendo delas parte da própria história dessas casas. Mas o aço valiriano não é só usado em armas, na Cidadela os meistres que estudam magia forjam um elo de suas correntes com aço valiriano, devido a própria produção do material, já que acredita-se que os valirianos usavam magia na fabricação do seu aço superior.

Garralonga

Jon Snow usando a espada de aço valiriano “Garralonga”

Parece um daqueles materiais fantásticos que só existem na ficção, como o oricalco, o adamantium, mithril e tantos outros, mas o aço valiriano foi inspirado no aço de Damasco, que assim como o seu equivalente da fantasia era dito ser mais leve, mais maleável e mais resistente do que o aço usado pelos europeus da época, e dizia-se que uma espada feita do material poderia cortar através da armadura de um cavaleiro cruzado, lembrando que os europeus tiveram contato com o aço de Damasco na época das Cruzadas, muito embora isso seja algo contestado e provavelmente era usado como desculpa por derrotas militares ou mesmo algo que tenha virado uma lenda. O nome do aço tem origem na cidade de Damasco, na época um importante centro comercial e onde os cruzados primeiramente entraram em contato com esse metal, mas apesar de até se produzir o aço na cidade, o material e a técnica usada na fabricação do aço de Damasco se originaram na Índia.

Assim como o aço valiriano, o aço de Damasco tem uma peculiaridade, os padrões de manchas e faixas que lembram a água corrente, e assim como o equivalente de Westeros os segredos de sua manufatura acabaram por ser perder, embora atualmente tenham até descobertos técnicas de reprodução, unindo duas ou mais tipos diferentes de aço aquecidos até um ponto próximo de fusão, em seguida são marteladas até se tornarem uma barra única de metal, que por sua vez é novamente dobrada sobre si, repetindo o processo diversas vezes, e era isso que dava esse padrão distinto ao aço.

 

Batalha da Água Negra x 2º Cerco Árabe de Constantinopla

A Batalha da Água Negra parece ter sido inspirada no segundo cerco árabe de Constantinopla ocorrido entre os anos de 717 a 718. Assim como Westeros, o Império Bizantino estava vivendo um período de desordem, e justamente por estarem mais vulneráveis que se tornaram um alvo tentador para os muçulmanos, que já tentavam há tempos conquistar a cidade tanto pelo seu valor estratégico quanto pelo próprio fator religioso, mas muito embora as forças árabes fossem extremamente poderosas tanto em terra quanto no mar e estivessem em números expressivos, eles não conseguiram ter sucesso na campanha e saíram derrotados. As forças terrestres árabes não conseguiram atravessar as muralhas de Constantinopla e posteriormente sofreram com o inverno e falta de suprimentos, já a frota naval foi avassalada pelo fogo grego, e é justamente na batalha marítima que temos a inspiração para uma das mais épicas batalhas das Crônicas de Gelo e Fogo.

A Batalha da Água Negra foi o embate entre as forças navais de Stannis Baratheon que buscavam conquistar Porto Real e as forças leais à Joffrey Baratheon que defendiam a cidade. Tyrion, enquanto Mão do Rei, planejou meticulosamente a defesa da cidade, deixando o porto mais defensável e contratando mercenários para aumentar a força de combate em terra. Três grandes trabucos colocados na praça do mercado lançavam pedras contra a superior frota de Stannis, atiravam também barris de piche nos navios inimigos a fim de queimá-los com a ajuda dos arqueiros que disparavam flechas flamejantes, mas o que levou mesmo a vitória para as forças defensoras de Porto Real foram as duas grandes ideias de Tyrion: o fogovivo – uma substância de cor verde lodoso que quando se incendeia arde violentamente até se extinguir e queimar tudo, se infiltrando em praticamente quase todos os materiais e que não se apagava com água-, que foi posta nos navios da frota real como uma armadilha para que se espalhasse e incendiasse a frota de Stannis quando estes abalroassem os navios menores e em menor número de Porto Real, além de uma barragem feita com uma corrente de metal que deixou presos os navios de Stannis dentro da Baía da Água Negra, não podendo assim escapar ao destino de serem completamente queimados pelo fogovivo.

Fogovivo

Durante o Cerco de Constantinopla a poderosa armada árabe tinha como objetivo bloquear a cidade pelo mar, porém não conseguiu ser efetiva e foi repelida diante do uso do fogo grego pela marinha bizantina. O fogo grego, tal qual o fogovivo, continua queimando sobre a água, além de também ser uma substância líquida, motivo pelo qual também era conhecido por “fogo líquido”, porém, ao contrário do uso que Tyrion deu ao fogovivo, os bizantinos disparavam a substância através de tubos de bronze pressurizados, quase como um lança-chamas da época, e usavam esses lançadores tanto em seus navios quanto nas muralhas da cidade. Ambos também compartilham a semelhança no segredo de sua composição, a receita do fogovivo de Westeros é algo muito bem guardado pela Guilda dos Alquimistas, e tamanho o segredo que era mantido sobre os ingredientes e o método de produção do fogo grego que até hoje não se sabe exatamente como ele era feito. Outro ponto em comum é que os piromantes que produziam o fogovivo dão a entender que ele poderia ser apagado com areia, e essa era uma das únicas formas pelas quais se acreditava que o fogo grego poderia ser extinto, já que isso privava a substancia de oxigênio.

fogo_grego

Iluminura do manuscrito conhecido como “Escilitzes de Madrid” mostrando os bizantinos usando o fogo grego

Os bizantinos também tinham uma corrente, porém esta era usada para negar o acesso dos navios inimigos, eles a estenderam entre a Torre de Gálata e Constantinopla, fechando assim a entrada do estuário do Chifre de Ouro. No caso da história criada por George R. R. Martin a corrente foi usada de forma oposta, ou seja, para não deixar os navios inimigos fugirem.

 

A Assembleia de Homens Livres

As Ilhas de Ferro se diferem bastante das outras regiões dos Sete Reinos, da mesma forma que Dorne, embora sujos costumes sejam diferentes por motivos de terem tido uma colonização mais forte dos Roinares, mas mesmo tendo o mesmo sangue ândalo que os outros povos do continente eles são independentes, com seus próprios costumes e religião própria. Em tempos passados, quando as Ilhas de Ferro ainda eram um reino independente e mantinha-se o Costume Antigo, os homens de ferro se reuniam para escolherem dentre eles um rei. Não importava a primogenitura, ou se era herdeiro de um rei, quando o monarca morria os líderes das Casas nobres e os homens livres se reuniram para eleger o seu próximo rei em uma assembleia de homens livres. Ela era realizada em um local sagrado, em Velha Wyk, uma ilha onde ficava o monte Nagga, que se acreditava ser o primeiro e mais poderoso dragão marinho que fora morto pelo Rei Cinzento, mais tarde seus ossos foram transformados em pedra pelo Deus Afogado, de suas mandíbulas fora feito o trono e de seus dentes a coroa do Rei Cinzento, embora agora o local esteja em ruínas. Com a morte de Balon Greyjoy, que tinha se declarado Rei das Ilhas de Ferro e do Norte, os homens de ferro resolveram retomar o antigo costume e convocar uma assembleia de homens livres para eleger quem deveria ser o próximo a se sentar na Cadeira de Pedra do Mar e reger as Ilhas.

Esse costume das Ilhas de ferro é levemente inspirado em uma “Thing” (þing), que era uma assembleia que os povos nórdicos faziam para resolver disputas legais, fazer valer as suas leis e tomar algumas decisões políticas fundamentais, em alguns casos até mesmo escolher um rei, tal como aconteceu nas Ilhas de Ferro. Assim como nos livros os vikings viajavam de longe para essas reuniões, que eram convocadas em momentos específicos ou regulares, e eles faziam isso como uma forma para resolver problemas que de outra forma terminaria em um banho de sangue, e apesar de serem presididas por um rei ou por um chefe e por um orador que conhecia as leis, já que cada comunidade tinha a sua própria assembleia, os homens livres da comunidade tinham alguma voz ativa nessas reuniões. Essas reuniões geralmente eram realizadas em campos ao ar livre onde as pessoas só permaneciam por pouco tempo, e os que se reuniam ali poderiam trazer algumas tendas com eles, já que a assembleia poderia tomar alguns dias. Nessas reuniões democráticas as pessoas aproveitavam para além de ter seus conflitos resolvidos e terem alguma causa julgada, para comerciar e trocar notícias com outras pessoas, e era um ambiente com um clima bem festivo.

Há também o “Witenagemot”, ou “a reunião dos sábios”, da Inglaterra Anglo-saxã, que era formado por nobres e por alguns cléricos e era algo próximo dessas assembleias nórdicas, e até tinha o poder de aconselhar e escolher o rei, porém era algo mais próximo de um tipo de reconhecimento formal do herdeiro do antigo rei.

 

Julgamento por combate

Uma das cenas mais célebres, e mais traumáticas, para os fãs da série é o julgamento por combate exigido por Tyrion Lannister, que era acusado de assassinar seu sobrinho, o então rei Joffrey Baratheon. Temendo não ser julgado com justiça ele apela para um artifício que já usara antes no Ninho da Águia quando fora acusado de mandar assassinar Bran Stark e conspirar para o assassinato de Jon Arryn, o julgamento por combate, tendo desta vez o Príncipe Oberyn Martell como o seu campeão contra Sor Gregor Clegane, que lutava pela acusadora Cersei Lannister.

tyrion

Sou inocente, mas aqui não obterei justiça. Não me deixam alternativa exceto apelar aos deuses. Exijo julgamento por batalha.” A Tormenta de Espadas, página 720.

O julgamento por combate é um método para resolver as acusações entre duas partes que disputavam pessoalmente, ou escolhiam campeões para representá-los, em uma batalha única, geralmente até a morte. A ideia por trás do julgamento por combate era que os deuses favoreceriam o lado que estaria certo, dando forças aos inocentes, motivo pelo qual antes das lutas um septão fazia uma pequena cerimônia pedindo que os deuses mostrassem a verdade. Sandor Clegane também é sentenciado a provar a sua inocência referente a um assassinato por Thoros de Myr e Beric Dondarrion, este último é quem o Cão de Caça enfrenta e sai vencedor. O interessante que nesse caso o “julgamento divino” viria de R’hllor e não dos Sete, e antes do combate os membros da Irmandade sem Estandartes, que julgavam Clegane, oram pedindo ao Senhor da Luz para que a verdade seja conhecida através do resultado do combate.

Apesar de parecer algo que exista apenas em livros de fantasia ou ficção histórica, o julgamento por combate ou duelo judicial era uma prática que existiu de fato que era usada para resolver acusações quando não havia testemunhas que pudessem assegurar culpa ou inocência do acusado e determinar o seu destino legal. O julgamento por combate era um costume dos povos germânicos, mas também foi empregado por diferentes povos da Europa em toda a Idade Média, desaparecendo aos poucos durante o século XVI, na Inglaterra, por exemplo, o último que foi registrado ocorreu ainda em 1446. Alguns talvez possam lembrar-se do costume do duelo pela honra entre nobres que até perdurou por mais tempo, mas isso já foge um pouco do conceito do julgamento por combate, que era um duelo sancionado judicialmente para resolver diversas questões legais, tal qual o holmgang dos vikings, embora este também não tivesse um caráter de juízo divino. Assim como nas Crônicas de Gelo e Fogo a alegação era do apelo a forças superiores que provariam a veracidade dos fatos, sendo um julgamento “divino”. Esse tipo de prova judiciária também era vista no julgamento por ordália, que era um meio de determinar a culpa ou inocência do acusado ao sujeitá-lo a participar de algum teste de caráter perigoso ou até mesmo potencialmente mortal, cujo resultado era visto como uma decisão divina.

Vale ressaltar que não era sempre que se podia pedir por um julgamento por combate em casos de assassinato, se o acusado fosse pego em flagrante, tentasse fugir da prisão ou se as provas contra ele fossem fortes o bastante, ele não poderia requerer esse tipo de julgamento. Poderiam recusar esse tipo de desafio mulheres idosas, menores ou com alguma deficiência física, tendo de se decidir o caso através de um júri. Nem sempre as disputas chegavam às vias de fato, às vezes só requerer esse tipo de julgamento já era necessário para uma das partes desistir ou os dois lados acabarem por chegar a um acordo para evitar a batalha, havia até mesmo a desistência de uma das partes, que ficava vista como desonrado pela sociedade, ou do não comparecimento do acusado, mas obviamente existem registros de lutas até a morte. Como o julgamento se daria, as punições, que tipo de acusações que caberiam a um pedido de julgamento por combate e outros detalhes também variavam de lugar para lugar, mas apesar de não ser o principal método de julgamento ou o que era visto como o mais justo, era algo que de fato já ocorreu, e por um bom tempo.

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