Inspirações Históricas das Crônicas de Gelo e Fogo: 2ª Parte

Nesta segunda parte vamos falar um pouco sobre casamentos, jantares indigestos e leis de hospitalidade. É bom dizer que esses tipos de leis ou deveres realmente existiram na Europa durante a Idade Média, de modo que o anfitrião não poderia ferir o convidado ou vice-versa, e tal como nas Crônicas de Gelo e Fogo acreditava-se que a violação desses deveres sagrados poderia atrair mau agouro para quem cometesse o ato, mas as leis de hospitalidade remontam a tempos mais antigos.

Já havia esse tipo de visão em relação ao trato com os convidados na Grécia antiga. A relação amigável para com convidado era conhecida como Xenia, e acreditava-se que não fornecer a hospitalidade era algo que poderia provocar a ira dos deuses, já que se pensava que os deuses poderiam estar disfarçados na Terra como humildes viajantes, portanto tratar bem um convidado poderia significar tratar bem um Deus, a isto eles davam o nome de theoxenia. Apesar de ter essa importância toda na Grécia, que é o berço da civilização ocidental, provavelmente esse tipo de costume visto na Europa medieval deve ter sido mais influenciado pelos valores cristãos, já que há diversas passagens bíblicas que exaltam essa qualidade, que até acabou por virar praticamente um dever que o cristão deveria seguir, inclusive se na mitologia Grega Zeus visitava as casas dos mortais disfarçado para testar a sua theoxenia, na Bíblia são anjos que por vezes parecem como mortais, e ambos os casos as histórias focam bastante nos deveres de hospitalidade, não há toa a notícia da traição de Jesus por Judas se deu na mesa durante a última ceia, algo que assinalava esse ato como algo ainda mais terrível e abominável sob a perspectiva dos povos que viviam nesta região.

Há que se ver que nessa época era muito difícil para um viajante estar em terras estrangeiras, ainda mais tendo em vista como eram pequenas as comunidades e tudo de fora geralmente não era muito bem visto, e esse tipo de coisa poderia significar vida ou morte para um viajante, e até mesmo para um cristão primitivo era algo vital para poder espalhar a palavra, algo que certamente deve ter ecoado no pensamento medieval que era influenciado fortemente por estes valores religiosos.

 

Acho que nem preciso comentar que a internet é escura e cheia de spoilers, mas estejam avisados mesmo assim.

 

Mesmo conhecendo o autor e sabendo que ele sempre vai dar um jeito de te surpreender, e que certamente nenhum personagem está a salvo e que podem morrer das mais inesperadas e sangrentas maneiras possíveis, é quase impossível não achar que estamos prontos para tudo o mais que possa acontecer, e aí caímos novamente na armadilha do George R.R. Martin. Quem poderia prever a carnificina que seguiria a um casamento? A cena se desenrolando com uma alegre celebração onde todos os convidados festejam desavisados vai os poucos ficando mais sombria com as suspeitas da Catelyn Stark de que algo não estava certo, principalmente por conta dos péssimos músicos, da comida servida e a falta de alguns membros importantes da família Frey. Com isso o clima que apreensão toma lugar e levanta uma pontada de dúvidas nos leitores, e quando começam a tocar “As chuvas de Castamere” – uma música sobre a rebelião da Casa Reyne de Castamere, que se aliou a Casa Tarbeck de Solar Tarbeck, contra seus suseranos de Rochedo Casterly, e por conta dessa  tentativa de tomada de poder foram ambas completamente destruídas por Tywin Lannister-, é que percebemos que algo muito ruim estava para acontecer.

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Pelo menos nenhum convidado mandou um “Toca Raul!”

Muita gente certamente ficou chocada com a brutalidade e a inesperada morte dos Starks (Valar morghulis) durante a celebração do casamento entre Edmure Tully e Roslin Frey nas Gêmeas, a sede da família da noiva, ainda mais depois de tanto ouvirem falar sobre as tais leis de hospitalidade que eram sagradas e não poderiam ser quebradas, mas justamente se aproveitando dessa oportunidade de pegar o exército aliado ao “Rei no Norte e Rei do Tridente” as famílias Frey e Bolton conspiraram junto com os Lannisters e massacraram grande parte dos aliados de Robb Stark, e fizeram de reféns outros tantos, novamente mudando tudo no Jogo dos Tronos. Esse foi o infame “Casamento Vermelho”. Provando que a realidade pode ser mais cruel do que a ficção temos dois eventos históricos ocorridos na Escócia que inspiraram o Martin a escrever essa história que tanto chocou os seus fãs: o Jantar Negro e o Massacre de Glencoe.

 

O Jantar Negro

Em 1437 o então rei da Escócia James I fora assassinado, deixando a sucessão ao trono para o seu filho James II, porém o garoto não poderia assumir prontamente o trono, já que só tinha seis anos na época. Archibald Douglas, o Conde de Douglas, foi apontado como regente e governava pelo garoto até o ano de 1439, quando acabou falecendo. Após a sua morte o poder político ficou dividido entre dois nobres, Sir Alexander Livingston e Sir William Crichton, porém eles temiam que os filhos do Conde Archibald Douglas pudessem acabar com esse poder, já que os Douglas eram uma família muito poderosa e influente, e decidiram eliminá-los.

Em 1440, Livingston e Crichton convidaram os herdeiros de Archibald Douglas para jantar com o Rei James II no castelo de Edimburgo, convite que ambos aceitam. William, o sexto conde de Douglas, que tinha quinze anos na época, veio junto de seu irmão mais novo David, e ambos foram bem tratados de início, mas ao final do banquete dois servos apresentaram diante dos jovens uma bandeja de prata com uma cabeça de touro preto, o que na Escócia medieval simbolizava a morte. Os garotos foram arrastados por soldados e levados para fora do castelo, onde enfrentaram um rápido e simulado julgamento por traição, e apesar das súplicas do jovem rei James II para poupar a vida de ambos, já que ele teria se afeiçoado aos Douglas durante o jantar, ambos foram decapitados na frente do rei, na época com 10 anos de idade.

BlackDinner.jpg

Há ainda outro acontecimento que vale ser mencionado, porém este se passou vários anos após o Jantar Negro. Os Douglas ainda eram muito influentes e tinham bastante poder, algo que representava uma ameaça para James, e quando William, o oitavo conde de Douglas, aliou-se com John Macdonald, o décimo primeiro Conde de Ross e Senhor das Ilhas, e com Alexander Lindsay, o quarto Conde de Crawford, uma aliança poderosa que poderia ameaçar a autoridade real. Em 1452 James convida William Douglas para jantar no castelo de Stirling e pede a ele o rompimento dessa aliança, algo que Douglas se recusou a fazer. James, tomado pela raiva, esfaqueia Douglas na garganta, e um dos funcionários da corte de James acaba com o serviço dando uma machadada na cabeça do conde. Depois do banho de sangue ainda jogaram o corpo dele pela janela do castelo. Agora o Martin já não parece tão sanguinário assim, não é mesmo? Mas calma que ainda tem mais…

 

O Massacre de Glencoe

O outro episódio que serviu de inspiração para o Casamento Vermelho foi o Massacre de Glencoe, ocorrido nas Terras Altas da Escócia em 1692. Em 1961 os clãs escoceses tiveram de renunciar ao rei deposto da Escócia James VII e jurar lealdade a William III da Inglaterra. O novo rei perdoaria os escoceses que apoiaram James se estes lhe jurassem fidelidade, porém o juramento deveria se realizado perante um magistrado e antes do primeiro dia de Ano Novo. Muitos dos chefes das Terras Altas tiveram que pedir permissão ao rei exilado para fazer este juramento ao rei William, já que já tinham feito seus juramentos a James e não poderiam quebrá-los, a menos que ele os liberasse dos votos de lealdade. Inicialmente James hesitou um pouco ao conceder o pedido, acreditando que poderia retornar e retomar o trono, mas logo percebeu que não isto não iria acontecer antes do prazo dado aos chefes dos clãs e enviou ordens autorizando-os a fazerem o juramento perante William.

Por conta do mau tempo causado pelo inverno a mensagem acabou chegando apenas em meados de dezembro, e poucos foram os que conseguiram cumprir cedo a exigência. Alastair Maclain, chefe de Glencoe, foi um daqueles que não conseguiu fazer a tempo e em 31 de dezembro daquele ano enfrentou o rigoroso clima para chegar a Fort William, a região mais próxima com um oficial que poderia registrar seu juramento, mas ao chegar a esta localidade fora informado que deveria ir a outro local, o que lhe custaria mais uns dias viajando sob duras condições. O oficial acabou dando a Mclain uma carta comprovando que ele chegara a tempo para fazer o juramento e que ele e seu clã, os MacDonnalds, estariam a salvo de represálias. Maclain só acabou conseguindo oficializar o juramento uns dias mais tarde em 6 de janeiro, mas estava sentindo-se seguro quanto a ter cumprido as exigências do acordo por conta da carta, porém John Dalrymple, o secretário de Estado da Escócia, que odiava os Highlanders (as pessoas que eram das Highlands, ou seja, das Terras Altas da Escócia, e não aquele filme meia-boca) conspirou contra ele juntamente com membros do clã Campbell, um clã que tinha rixas com os MacDonnalds, e conseguiram com que o rei assinasse uma ordem para acabar com todos os MacDonnalds de Glencoe, aproveitando-se da desculpa que ele não assinara o juramento de fidelidade até a data estipulada.

No início de fevereiro 120 homens sob o comando do capitão Robert Campbell pediram abrigo aos MacDonnalds em Glencoe, que os receberam com a tradicional hospitalidade das Terras Altas. Os homens de Campbell dividiram o mesmo teto com os MacDonnalds por quase duas semanas, comendo, bebendo e se divertindo com eles, até chegarem as ordens para o massacre do clã e então esperaram até todos irem dormir para começar o assassinato de 38 pessoas do clã, entre eles homens, mulheres e crianças. Além destes muitos outros que conseguiram escapar ao ouvirem os disparos efetuados acabaram morrendo de frio e fome, já que os soldados também queimaram todas as casas da vila, deixando os sobreviventes sem abrigo durante o inverno em uma terra quase inóspita e distante de outras pessoas a quem eles poderiam pedir ajuda.

 

“E assim falou, e assim conversou,

o senhor de Castamere

Mas agora a chuva chora no seu salão,

e ninguém está lá para a ver” A Tormenta de Espadas, página 410

 

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