Inspirações Históricas das Crônicas de Gelo e Fogo: 1ª Parte

A nossa própria realidade pode tomar rumos mais inesperados e ter reviravoltas ainda maiores nos jogos de poder do que qualquer livro de fantasia, e pode ser ainda mais sombria, mais violenta, mais chocante do que qualquer coisa que a mente humana possa imaginar. Um bom exemplo disso são os eventos históricos que inspiraram George R. R. Martin a criar As Crônicas de Gelo e Fogo.

As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire, no original), série de livros que ganhou notoriedade por conta do sucesso estrondoso de “Game of Thrones”, a adaptação para a TV feita pela HBO que praticamente virou sinônimo dessa saga literária, tem inspirações claras na Europa medieval, e não falo apenas de castelos imponentes, cavaleiros, lordes e servos. Não existiram dragões, feiticeiros e sacerdotes dotados de poderes mágicos, tampouco White Walkers que cavalgam em cavalos mortos e descarnados, mas assim como Westeros o período medieval foi repleto de disputas de poder entre casas nobres, conspirações e traições, trocas constantes de reis, bastardos e guerras brutais, e um conflito em particular ocorrido na Inglaterra do século XV foi a inspiração maior para Martin dar vida a seu mundo de Gelo e Fogo, a Guerra das Rosas.

Brace yourselves, spoilers are coming!

Acho que não preciso dizer, mas mesmo assim estejam avisados que fatalmente existirão muitos spoilers sobre os livros. Preparem-se também para se sentir como se estivessem lendo os livros do Martin, pois os personagens históricos que foram relevantes para essa guerra são muitos e em geral tem nomes parecidos, fora que o texto a seguir ficou bem grande. Vamos lá então.

 

A Guerra das Rosas

 

A Guerra das Rosas foi um conflito entre duas famílias nobres pelo trono da Inglaterra, a Casa de York e a Casa de Lancaster, sendo que ambas eram ramos de uma mesma casa real, a Plantageneta. Para ser mais exato não foi uma guerra única como se pode imaginar, mas uma sucessão de batalhas travadas entre membros dessas duas casas em vários episódios esporádicos entre os anos de 1455 e 1487. Mas antes vamos a uma pequena introdução.

Lancaster_X_York

Os símbolos associados com as duas famílias, a rosa vermelha da Casa de Lancaster e a rosa branca da Casa de York

As disputas pelo trono começaram com a morte de Eduardo III, que tinha como filho mais velho e herdeiro Eduardo, “O Príncipe Negro, porém este acabou morrendo antes do pai, em 1376. Eduardo III morreu um ano depois e a coroa acabou passando para seu neto Ricardo II, filho do Príncipe Negro, na época com apenas 10 anos de idade. A ascensão de Ricardo II ao trono inglês não deixou os outros filhos de Eduardo III muito contentes, já que a sucessão ao trono pularia uma geração inteira, e isso acabou levando a uma série de reivindicações ao trono nos anos seguintes entre os descendentes de João de Gaunt, o terceiro filho de Henrique III e fundador da Casa de Lancaster e os descendentes de Edmundo de Langley, o quarto filho e fundador da Casa de York.

João de Gaunt era um conselheiro de confiança do rei Ricardo II nos primeiros anos do reinado do garoto, no entanto após algum tempo ele acaba perdendo o apoio do rei e do povo. O herdeiro de João era Henrique de Bolingbroke, que em 1398, por conta de um desentendimento, fora condenado pelo rei a ser exilado durante um período de cinco anos, porém com a morte de João no ano seguinte Ricardo II muda de ideia e deserda Henrique completamente, mudando a sentença para um exílio para a vida toda, declarando-o como traidor e confiscando as propriedades de João de Gaunt, que era um dos homens mais ricos da Inglaterra na época, para a Coroa. Henrique retorna à Inglaterra para recuperar sua herança e depõe Ricardo II em 1399, tornando-se o primeiro dos Lancasters no trono inglês, reinando como Henrique IV até o ano de sua morte em 1413. Só para constar, Ricardo II foi o último rei da linhagem principal dos Plantagentas, e morreu aprisionado no Castelo de Pontefract, provavelmente de fome ou assassinado, no ano de 1400.

Henrique_IV

Henrique IV

Após a morte de Henrique IV o trono passou para Henrique V, seu filho e herdeiro, que ficou famoso por suas vitórias militares, principalmente pela grande vitória sobre os franceses na batalha de Azincourt, mas Henrique V governou pouco tempo, morrendo de disenteria em 1422 e deixando o trono para seu filho de apenas nove meses, Henrique VI. Os problemas sociais e financeiros que a Inglaterra vivia decorrentes da Guerra dos Cem Anos, juntamente com o governo fraco e a debilidade da saúde mental de Henrique VI, foram os principais motivos que levam a chamada Guerra das Rosas, avivando o interesse na reivindicação do trono por parte de Ricardo, o Duque de York.

Henrique VI assumiu de fato o trono inglês com a idade de dezesseis anos, mas era um rei um tanto quanto tímido, inseguro, manipulável e com saúde mental muito frágil. Nesse período a Inglaterra também acabou perdendo muitos territórios que seus antecessores haviam conquistado na França, e a guerra contra os franceses ia de mal a pior. O Cardeal Beaufort e William de la Pole, o Conde de Suffolk, convenceram o rei que a melhor forma de prosseguir era selar a paz com a França através de um casamento com Margarida de Anjou, a sobrinha do rei Carlos VII da França, enquanto o Duque de Gloucester e Ricardo, o Duque de York, defendiam uma posição mais bélica, de continuar os enfrentamentos contra os franceses, o rei acabou por escolher a política mais pacífica e se casou com Margarida de Anjou. Margarida era ambiciosa, não tinha tolerância alguma com quem apresentasse sinais de deslealdade para com seu marido e era quem de fato governava, o que só aumentava a impopularidade do governo de Henrique VI, governo que sofria também com problemas financeiros, com corrupção e distribuição de terras para os favoritos da corte, perda de quase todos os territórios na França, além da clara falta de capacidade de Henrique em reger o país. Margarida afastou o Duque de York, que foi enviado para governar a Irlanda, enquanto promovia a Duques os Condes de Suffolk e Somerset. O Duque de Suffolk foi acusado de traição pela Câmara dos Comuns por conta do papel que desempenhou na negociação do Tratado de Tours e pela perda de territórios franceses, o rei teve de enviá-lo em um exílio de cinco anos, porém o seu navio foi interceptado enquanto se dirigia para Calais e Suffolk foi capturado e decapitado.

Em 1452 o Duque de York foi persuadido a voltar para reivindicar seu lugar no conselho e dar um jeito no governo desastroso. York fez algumas exigências, dentre elas a prisão de Edmundo Beaufort, o Duque de Somerset, algo que inicialmente o rei concordou, mas sua esposa interveio e evitou a prisão de Somerset, que era um de seus aliados mais próximos. No ano seguinte Somerset recuperou a sua influência, deixando o Duque de York novamente isolado. O poder de York ficou reduzido ainda mais após a notícia da gravidez da rainha. No ano seguinte ao ouvir sobre a derrota na Batalha de Castillion (que deu um fim a Guerra dos Cem Anos, com os ingleses acabando por perder todos os territórios na França, exceto Calais), Henrique VI sofreu um colapso mental que o deixou completamente indiferente a tudo o que estava acontecendo ao seu redor. York  é então nomeado como Protetor do Reino, assumindo o controle do governo como regente, conseguindo assim excluir a rainha do poder e prender Edmundo Beaufort na Torre de Londres. Enquanto isso se espalhavam alguns rumores de que o filho de Margarida não seria de Henrique, mas de Beaufort. York ainda ganha um poderoso aliado nesse período, Ricardo Neville, o Conde de Salisbury. Na época haviam violentas disputas entre duas proeminentes famílias nobres do norte da Inglaterra, a Casa de Percy e A Casa de Neville, que contavam ainda com alguns seguidores. O Duque de Somerset tornou-se aliado dos Percy, e portanto a Coroa também, e isso foi o que levou os Neville para o lado de York, já que tinham inimigos em comum.

No dia de Natal de 1454 Henrique VI se recupera e reverte as ações que York havia tomado nesse tempo, retirando dele o cargo de Protetor do Reino e libertando Edmundo Beaufort, e não apenas isso, o rei ainda concede ao duque Somerset  o comando de Calais, que estava a cargo de York. Estas atitudes levam a uma situação crítica e York acaba convocando suas tropas, que foram ampliadas com o apoio de Ricardo Neville, o Conde de Salisbury e do filho mais velho homônimo, Ricardo Neville, o Conde de Warwick, e em Saint Albans essas forçar dos York entram em confronto contra as forças do rei e de Somerset. O Duque de York e seus aliados tinham um exército maior, melhor equipado e mais experiente em batalhas e derrotam facilmente as forças do rei Henrique VI, que é capturado. York conseguiu retomar o cargo de Protetor com a saúde mental de Henrique VI novamente piorando, e Margarida é novamente colocada de lado, desta vez para cuidar do rei. Por um tempo o clima esfriou, mas a questão sobre a sucessão ao trono, se seria o direito seria de Ricardo de York ou de Eduardo, o filho de Margarida e Henrique VI, esquentou as coisas novamente.

Em 1459 há novos confrontos, porém desta vez os Lancasters saem vitoriosos na Batalha de Ludford Bridge. York é forçado a fugir para a Irlanda, enquanto Warwick, Salisbury e Eduardo, o filho e herdeiro de York, fogem para Calais, dando aos Lancasters o controle total do reino. Ricardo de York retorna a Inglaterra em 1460 e com a ajuda de Warwick consegue vencer e novamente capturar Henrique VI durante a Batalha de Northampton. York faz sua reivindicação ao trono, mas o Parlamento opta por manter Henrique VI como rei, embora tenha sido feito um acordo que reconhecia York e seus filhos como os sucessores de Henrique, além de York voltar a ser o Protetor do Reino.

Ricardo_Plantageneta_3º_Duque_de_York

Vitral com a imagem de Ricardo, o Duque de York

Margarida e seu filho fogem para Gales onde conseguem juntar tropas com as forças de vários nobres que os apoiavam. Mais tarde eles acabam indo para a Escócia, onde conseguem o auxílio da rainha Maria de Gueldres em troca da cidade e do castelo de Berwick-upon-Tweed. Outros membros da Casa de Lancaster se juntaram no norte da Inglaterra e formaram uma força poderosa de 15.000 homens que começa a saquear as terras que pertenciam a York e a Salisbury. Diante desse desafio à sua autoridade como protetor do Reino, York vê-se impelido a ir pessoalmente para a frente de batalha, deixando Londres sob o comando do Conde de Warwick e enviando seu filho mais velho para Gales para conter as forças dos Lancasters. York foi para o norte acompanhado de seu segundo filho, Edmundo, o Conde de Rutland e do Conde de Salisbury, mas acabam por subestimar os números do exército inimigo e perdem a Batalha de Wakefield. Ricardo de York é morto em batalha e tanto seu filho Edmundo quanto o Conde de Salisbury são capturados e executados. York foi decapitado, teve sua cabeça ornada com uma coroa de papel e colocada em uma lança para que a exibissem em um dos portões da cidade de York juntamente com a cabeça de seu filho e a de Salisbury.

O exército vitorioso marchou para o sul e conseguiu libertar o rei Henrique VI, depois de derrotar o exército de Ricardo Neville, o Conde de Warwick na segunda batalha de Saint Albans. O exército de Margarida ia saqueando o que podia enquanto marchavam para o sul, pois não tinham recursos disponíveis para manter o exército, e isso foi usado por Warwick em Londres para espalhar o medo entre a população da cidade, que fechou os portões de Londres e se recusou a dar qualquer auxílio para um exército de bárbaros que vinham do norte pilhando cidades inteiras temendo que Londres pudesse ser a próxima. A morte do Duque de York não acabou com a disputa, Eduardo, seu filho mais velho e herdeiro, ainda estava vivo e pelo acordo que seu pai fizera ele tinha o direito de suceder ao trono. Em 1461, depois de derrotar forças dos Lancasters em Mortimer’s Cross, ele se junta com as forças restantes dos exércitos de Warwick e entra em Londres, onde é aclamado pelo povo e proclamado rei na Abadia de Westminster, porém ele jurou que não teria uma coroação formal até derrotar Henrique VI e sua esposa. Eduardo e Warwick marcham então para aquela que é provavelmente a maior e mais sangrenta batalha travada em solo inglês, a Batalha de Towton.

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Ilustração da Batalha de Towton, por Richard Caton Woodville

Os exércitos que apoiavam os Yorks estavam em menor número do que os Lancasters, muito embora uma parte da força yorquista ainda estava para chegar com o Duque de Norfolk. Apesar da desvantagem numérica os Yorks souberam se posicionar melhor em batalha e aproveitaram o vento forte para ficar fora do alcance das flechas inimigas, o que fez com que os Lancasters abandonassem suas posições defensivas. O combate corpo-a-corpo se seguiu por horas até a chegada dos homens de Norfolk, o que deu mais ânimo para os yorquistas e causou desespero nas linhas do exército adversário. Muitos dos homens que lutavam pelos Lancasters morreram pisoteados ou afogados nos rios enquanto fugiam, enquanto muitos outros foram capturados e executados. Essa batalha acabou com quase todo o poder militar dos Lancasters, fazendo que o rei Henrique VI, sua esposa e seu filho fugissem para a Escócia. Depois dessa esmagadora vitória Eduardo volta para Londres e aos dezenove anos de idade é coroado oficialmente como o Rei Eduardo IV.

Os Lancasters ainda tentaram alguns ataques, mas a falta de dinheiro e de soldados fatalmente fez com que essas revoltas fossem facilmente suprimidas pelos Yorks, que conseguiram ainda capturar nobres importantes como o 3º Duque de Somerset, que foi executado, além de tomarem alguns castelos. Em 1465 o rei deposto Henrique VI é novamente capturado e preso na Torre de Londres, enquanto sua esposa e filho tiveram que fugir para a França. O Conde de Warwick decide que o rei deveria fazer uma aliança com a França através do casamento com uma nobre francesa, porém Eduardo já havia se casado em segredo em 1464 com Isabel Woodville, uma viúva de um cavaleiro que tinha lutado pelo lado dos Lancasters, o que desagradou Warwick profundamente. A situação só piorou quando Eduardo IV veio a favorecer os parentes da noiva através da concessão de diversos títulos nobiliárquicos e casamentos arranjados com famílias de sangue mais nobre, além de não permitir a união matrimonial entre Isabel Neville, a filha de Warnick, com seu irmão mais novo Jorge, o Duque de Clarence.

Warwick vê a chance de tirar Eduardo do poder coroando o seu irmão mais novo, o Duque de Clarence, que se tinha se casado em segredo com Isabel Neville, e tenta colocá-lo no trono, porém sem ter um resultado efetivo de fato. Os dois fogem para França onde acabam por se reconciliarem com Margarida de Anjou, e Warwick casa sua filha Anne com Eduardo de Westminster, o filho de Margarida e Henrique VI, como parte do acordo entre os dois. Warwick volta à Inglaterra, desta vez lutando pelos Lancasters, e consegue depor o rei Eduardo IV, que se vê obrigado a fugir para o Ducado da Borgonha. Henrique VI volta a assumir o trono inglês, embora fosse Ricardo Neville quem governasse de fato pelo fraco rei.

Eduardo recebe ajuda do Duque da Borgonha e desembarca na Inglaterra, onde ganha o apoio de seu irmão Jorge, Duque de Clarence, que volta a trocar de lado após não ficar satisfeito com o que recebera dos Lancasters. Em 14 de abril de 1471 os exércitos de Eduardo e de Warwick se enfrentam na Batalha de Barnet, onde, devido a má visibilidade causada por um nevoeiro, o exército Lancaster se confundiu e atacou seus próprios aliados. Ricardo Neville, o Conde de Warwick, conhecido como “The Kingmaker”, ou “o Fazedor de Reis”, devido ao seu papel fundamental para colocar no trono dois reis (que coincidentemente também foi fundamental na deposição de ambos), e um dos homens mais ricos e poderosos da Inglaterra, é morto ao tentar fugir do campo de batalha em seu cavalo.

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Ilustração sobre a Batalha de Barnet

Eduardo IV derrotou as forças restantes do exército lancastriano de Margarida de Anjou e de seu filho na Batalha de Tewkesbury, onde Eduardo de Westminster,  o príncipe de Gales, é capturado e morto, além de vários outros nobres importantes que apoiavam a Casa de Lancaster. Henrique VI morre poucos dias depois na Torre de Londres, quase certamente que assassinado, já que sem um herdeiro que pudesse reivindicar o trono ele era o único obstáculo que poderia contestar e ser de alguma ameaça para a legitimidade de Eduardo IV como rei da Inglaterra. Depois dessa última resistência em Tewkesbury, Eduardo IV governou sem maiores problemas até  a sua morte em 1483.

Antes de morrer, possivelmente em decorrência de uma pneumonia, Eduardo IV nomeia seu irmão Ricardo, o Duque de Gloucester, como protetor durante a menoridade de seu filho mais velho e sucessor ao trono Eduardo V, já que na época ele tinha apenas doze anos de idade. O menino nunca chegou a ser coroado, seu tio Ricardo o enclausurou na Torre de Londres e contestou a legitimidade do casamento de Eduardo IV com Isabel Woodville, alegando que Eduardo teria feito um pré-contrato legal de casamento antes de se casar com Isabel, invalidando assim o casamento e tornando seus herdeiros ilegítimos. Deste modo ele conseguiu suceder ao trono, sendo coroado como Ricardo III em 1483, tendo a decisão ratificada pelo Parlamento no ano seguinte através do ato Titulus Regius. Depois de Ricardo subir ao trono os filhos de Isabel Woodville e Eduardo IV, Eduardo V e Ricardo de Shrewsbury, que tinha apenas nove anos, foram enviados para os aposentos reais na Torre de Londres, sendo vistos cada vez com menor frequência até que desapareceram por completo ainda em 1483. O paradeiro dos “Príncipes na Torre” é um mistério que levantou dúvidas na época e que persistem até os dias de hoje, sendo que a teoria mais aceita é que eles foram mortos a mando de Ricardo III, além de ser um dos motivos para a perda de apoio de Ricardo e também de uma trama que contarei no final do post.

Ainda em 1483 nobres descontentes conspiraram para tirar o trono de Ricardo III, mas não obtiveram sucesso. Em 1485 temos outra revolta, desta vez liderada por Henrique Tudor e pelo seu tio Jasper Tudor. Henrique Tudor tinha uma pretensão fraca ao trono, já que era filho de Edmundo Tudor, o Conde de Richmond, e de Margarida Beaufort, trineta de Eduardo III (pelo ramo dos Lancasters de João de Gaunt, mas por uma linha bastarda que fora legitimada pelo Rei Ricardo II e pela igreja), mas foi apoiado por nobres exilados na Bretanha, onde ele estava desde a subida de Eduardo IV ao poder, e de mercenários franceses. Desembarcando no País de Gales e conseguindo recrutar tropas ele encontra Ricardo III na Batalha de Bosworth Field. Ricardo III é morto em batalha, na verdade ele foi o último rei inglês a morrer em batalha, bem como Henrique Tudor ter sido o último a conquistar o trono da Inglaterra no campo de batalha, sendo coroado como rei Henrique VII. Para assegurar sua posição no trono Henrique VII se casa com Isabel de York, filha de Eduardo IV, que com a revogação pelo Parlamento do Titulus Regius voltou a ser legitimada como herdeira. Henrique VII dá início a dinastia Tudor (que governaria a Inglaterra e o país de Gales até 1603), restaurando a estabilidade na monarquia inglesa e findando essa guerra dos tronos que se deu entre as duas famílias, reinando por quase 24 anos sem ter grandes ameaças ao seu trono.

PS: O nome dado a esse conflito entre as Casas de York e de Lancaster se dá pelos emblemas heráldicos associados as duas casas, contudo a ideia de uma luta entre a rosa branca dos York contra a rosa vermelha dos Lancaster é um conceito que surgiu na era Tudor, não era algo que fosse visto dessa forma na época. A rosa branca era um dos muitos símbolos dos York e foi usada desde o início dos conflitos, porém não foi o único símbolo usado, também foram usados javalis brancos, sóis e falcões, por exemplo, era muito comum nobres usarem mais de um símbolo, desde símbolos pessoais até símbolos de seus pais e casas. A rosa vermelha aparentemente só foi usada por Henrique Tudor com o fim do conflito para formar a Rosa de Tudor.

Rosa_de_Tudor

A rosa de Tudor

 

Personagens comparáveis e paralelos entre a Guerra das Rosas e A Guerra dos Tronos

Antes de qualquer coisa é bom esclarecer que muito do que podemos perceber como uma referência a um local, personagem ou fato histórico talvez nem tenha sido uma inspiração de fato, talvez seja apenas alguma coincidência ou mesmo uma mistura de várias pequenas similaridades, porém ainda assim podemos traçar paralelos com personagens e fatos históricos reais. Há que se dizer que raramente um personagem é inspirado totalmente em alguma personalidade histórica análoga, há pequenas semelhanças e às vezes há uma mesma figura que inspira características de dois ou mais personagens, pode-se também combinar traços de personalidade de mais de uma pessoa ou mesclar fatos que aconteceram a indivíduos diferentes em um mesmo personagem para formar algum participante da Guerra dos Tronos de Westeros.Há também inversões e diversas modificações, afinal o George R. R. Martin não fez uma mera cópia romantizada de um período histórico com dragões e zumbis, e nem sempre o personagem que foi inspirado vai ter o mesmo destino que a figura histórica acabou tendo, mas para quem perseverou e leu esse resumo da Guerra das Rosas já notou que algumas similaridades são bem claras.

Bem, para começar temos um território separado do continente por um Mar Estreito (o canal da Mancha), território este que segue um regime de política feudal, sendo algo bem próximo de um feudalismo bastardo (algo que ocorreu na Inglaterra na Baixa Idade Média). Os primeiros habitantes desta terra cultuavam os espíritos da natureza (os povos celtas), mas foram perdendo seus domínios para uma civilização invasora (os romanos), e foram obrigados a habitar cada vez mais ao norte.

Notoriamente tanto Westeros quanto a Inglaterra compartilham outra similaridade: uma muralha no extremo norte de seus territórios, embora, obviamente, a construção da Muralha de Adriano pelos romanos fosse exclusivamente para manter as tribos bárbaras fora de seus domínios, e não para também se protegerem de criaturas fantásticas, como é o caso da Muralha em Westeros. Ambos os territórios também dividem a semelhança na divisão em sete reinos (se bem que na heptarquia inglesa até existissem mais reinos, porém sete eram os principais), isso até eles serem unificados depois da chegada de um conquistador que veio de outro continente (Guilherme, o Conquistador no caso da Inglaterra e Aegon, o Conquistador, no de Westeros). Mas vamos parando por aí, que estas semelhanças vou destrinchar com maior cuidado em outro post, por ora vamos nos ater a Guerra das Rosas.

A inspiração mais clara talvez seja em relação às duas famílias que brigam pelo trono, a Casa de Lancaster e a Casa de York. Já dá pra notar pela semelhança entre as próprias palavras Lannister e Lancaster, mas não fica só como algo que dê pra associar muito vagamente apenas pela forma com que as palavras soam, na verdade pode-se ir além e notar uma referência mais direta de Martin, já que o castelo e sede dos Lannisters é Casterly Rock (ou Rochedo Casterly, em português), ou seja, eles são os LANnisters de CASTERly Rock, juntando o início das palavras podemos formar LANCASTER. Bem jogado, Martin. Bem jogado. Além do nome essas duas famílias também compartilham a semelhança na riqueza. Já os Starks por sua vez ficam situados mais ou menos onde fica a cidade de York se fossemos comparar o mapa da Inglaterra com o de Westeros, já que ambos são tão similares que é quase impossível não notar essa semelhança.

Houses

Temos como comparar a causa da guerra civil com um rei que era totalmente incapaz de governar, assim como o Robert Baratheon que nunca ligou pras questões administrativas de seu reino, e que era casado com uma mulher forte, manipuladora, ambiciosa e que sabia muito bem jogar o jogo dos tronos. Algo interessante é que o selo dos Baratheons, um veado coroado, negro sob um campo dourado, parece que pode ter isso inspirado em outro rei, o último monarca da linhagem principal dos Plantagentas, o rei Ricardo II, que tinha como emblema pessoal um veado branco coroado, conhecido como “White Hart” (“hart” é uma palavra arcaica em inglês para um veado macho adulto), e também pode ser um trocadilho com “Rich Hart”, ou seja designando o animal como rico ao mesmo tempo que soa como Richard, o nome do monarca (lembrando que optei por tentar colocar os nomes com seus equivalentes em português).

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O emblema pessoal de Ricardo II, o “White Hart”

Temos o equivalente ao Ned Stark, um conselheiro que se torna o Protetor do Reino, mas é afastado do conselho pela rainha, que tenta colocar seus apoiadores fiéis nas posições nas politicamente importantes. Por um tempo ele governa pelo rei, mas acaba por ser morto e ter sua cabeça colocada em uma estaca. Seu filho, um adolescente, toma a posição de líder de sua Casa vai para os campos de batalha para enfrentar a família que foi responsável pela morte seu pai, ele então obtém inúmeras vitórias militares e é aclamado como rei, mas comete o erro de casar-se com uma mulher de nascimento baixo ao invés de acatar um casamento político que lhe seria mais vantajoso, e esse acaba por ser o motivo de sua queda. Isso soa muito como a história do Robb Stark, que se rebela contra os Lannisters por conta da morte de seu pai, é aclamado como o Rei no Norte, mas ao invés de se casar com a filha do Walder Frey, opta por se casar por amor com Jeyne Westerling, e isso gera o rancor e a traição do Senhor das Gêmeas, que se volta para o lado dos Lannisters. Sorte de Eduardo que conseguiu retomar o trono e não ser convidado para um casamento. Eduardo é traído pelo seu próprio irmão, Robb é traído por Theon, com quem era bem próximo, sendo os dois inclusive criados quase como irmãos. Bem parecido, não acham?

 

 

Personagens comparáveis

 

Como disse anteriormente nem todos os personagens são inspirados em apenas uma figura histórica e também, às vezes, nem sempre as inspirações são claras, então para uma melhor visualização dessas semelhanças vamos comparar personagens das Crônicas de Gelo e Fogo com os personagens históricos que lhes inspiraram de alguma forma.

 

Ned Stark

Eddard “Ned” Stark é obviamente inspirado em Ricardo Plantageneta, o Duque de York. Ambos eram poderosos senhores do norte e grandes guerreiros, além de também serem bons administradores, e tanto Ricardo quanto Ned se envolveram na política da corte para tentar resolver os problemas do reino, tais como gastos excessivos e corrupção, mas acabaram por entrar em conflito com rainhas que eram fortes, ambiciosas, manipuladoras, e que governavam de fato no lugar do rei: Margarida de Anjou no caso de Ricardo, e Cersei Lannister, no de Ned. Os dois também lutaram contra o direito de sucessão ao trono dos herdeiros reais, que foram acusados de serem ilegítimos.

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Também dividem a semelhança na forma com que acabaram sendo mortos, ambos foram decapitados e tiveram suas cabeças colocadas em estacas para serem expostas em muralhas.

 

Robb Stark

Robb Stark é evidentemente inspirado em Eduardo de York, que viria a se tornar o rei Eduardo IV. Ambos entraram em guerra civil contra a família que estava no poder depois de seus pais terem sido mortos e decapitados, assumindo assim a liderança de suas casas ainda bem jovens e foram bem sucedidos em todas as batalhas que travaram até serem aclamados como reis, Robb como o Rei no Norte e Eduardo como o rei da Inglaterra. Os dois também cometeram um erro vital ao quebrarem acordos matrimoniais que lhes dariam vantagens ao preferirem se casar por amor com mulheres de nascimento mais baixo, e que ainda por cima faziam parte dos aliados dos seus inimigos; Robb Stark casou-se com Jayne Westerling, a filha de um senhor de uma família empobrecida vassala aos Lannisters, e Eduardo com Isabel Woodville, a viúva de um cavaleiro lancastrino. Essa escolha acabou por causar a perda de importantes aliados, Ricardo Neville no caso de Eduardo e os Frey no de Robb, que os traíram e passaram para o lado rival. A diferença é que Eduardo perdeu apenas coroa e não a cabeça, e conseguiu posteriormente se vingar e retomar o trono.

 

Cersei Lannister

Cersei Lannister visivelmente é inspirada em Margarida de Anjou, a ambiciosa esposa do rei Henrique VI. Como já foi dito, Henrique tinha constantes crises que faziam com que ele ficasse catatônico e Margarida logo teve que assumir o papel de defensora da família governando de fato no lugar do marido, mesmo que o governo quando em sua regência fosse um tanto quanto corrupto, com gostos excessivos de dinheiro e concessão de favores aos mais próximos e fies à Margarida, o que não deixa de bater com o perfil da Cersei. Como uma mulher forte que defendia com unhas e dentes a sua família Margarida foi importante na queda de Ricardo de York e posteriormente do primeiro reinado de Eduardo IV, bem como Cersei, que também agia de forma semelhante. As duas ainda enfrentaram acusações de traição, um fato no caso de Cersei, mas no de Margarida não é algo que se tenha certeza. Ambas também eram descritas como mulheres de beleza impressionante.

Cersei

Cersei Lannister

Margarida nunca cometeu incesto, mas esta característica parece ter sido inspirada em outra rainha inglesa que viveu alguns anos depois de Margarida: Ana Bolena. Ana Bolena foi casada com Henrique VIII, filho de Henrique VII,- portanto estamos falando da dinastia Tudor-, casamento este envolto em inúmeras polêmicas, uma delas é justamente a acusação de ter traído seu o marido com Jorge Bolena, o seu próprio irmão.

 

Robert Baratheon

Robert Baratheon compartilha semelhanças com dois monarcas, Henrique VI e Eduardo IV. Quanto às semelhanças com Henrique VI creio que já devo ter dito o suficiente, mas só pra relembrar: Ambos não eram bons governantes; casaram com mulheres ambiciosas para garantirem suas posições, Robert com Cersei pelo apoio dos Lannisters e Henrique para fazer um acordo de paz com os franceses; e seus herdeiros foram acusados de serem frutos da infidelidade de suas esposas. A diferença era que Robert não tinha nenhum tipo de doença que o debilitasse e era notoriamente belicoso, o oposto do pacifista Henrique VI.

Robert é similar a Eduardo IV por ambos serem guerreiros temíveis no campo de batalha, altos e fortes quando jovens, mas que ganham bastante peso depois de alguns anos no trono. Ambos conquistaram a coroa em batalha, gostavam de beber, eram mulherengos, e podiam ser impiedosos com seus inimigos, mas não eram exatamente cruéis. Robert acabou morrendo depois de ser fatalmente ferido por um javali durante uma de suas caçadas, já Eduardo IV também morreu em decorrência de uma de suas atividades favoritas, a pesca, mas em seu caso foi por pegar um resfriado em uma viagem de pesca no rio Tamisa que possivelmente acabou evoluindo para uma pneumonia. Ambos deixaram um homem de confiança como regente, Eduardo deixou seu irmão Ricardo e Robert deixou Ned Stark, o seu “irmão de criação”, coincidentemente ambos alegaram que os herdeiros eram ilegítimos e não poderiam subir ao trono.

 

Joffrey Baratheon

Joffrey Baratheon é a versão de Westeros de Eduardo de Westminster, o príncipe de Gales. Havia rumores sobre a paternidade de Eduardo, dizia-se que ele era filho de Edmundo Beaufort, o Duque de Somerset, um dos principais aliados de sua mãe, Margarida de Anjou, que como bem vimos era a Cersei Lannister da época. Mas não é só em uma possível ilegitimidade que ambos são parecidos, Eduardo era tido como um garoto cruel, tanto que depois da segunda batalha de saint Albans Eduardo, então com aos sete anos de idade, ordena que dois cavaleiros que haviam sido capturados fossem decapitados. Isso lembra bastante o personagem mais odiado da série antes da chegada do bastardo de Roose Bolton, não é mesmo? Um embaixador do ducado de Milão que estava na França em 1467, onde estavam exilados Eduardo e sua mãe, escreveu que o garoto só pensava em cortar cabeças e guerrear, então esse não foi um fato isolado na vida do garoto. Há que se dizer que tanto Joffrey quando Eduardo morreram jovens, um envenenado, o outro capturado em campo de batalha e depois executado.

 

Theon Greyjoy

Theon Greyjoy (que também atende pelo nome de “Fedor”) cresceu em Winterfell como um protegido/refém de Ned Stark após seu pai se rebelar contra Robert Baratheon e ser derrotado pelo rei e pelo senhor de Winterfell. Como um “convidado” de Ned Stark ele se tornou bem próximo de Robb Stark, que via quase como a um irmão. Theon foi um dos homens de confiança de Robb quando ele se rebelou contra a Coroa, em um evento conhecido como “A Guerra dos Cinco Reis”, devido à instabilidade política que se deu pela suspeita da legitimidade da revindicação de Joffrey ao trono. Inicialmente fiel ao “Rei no Norte”, Theon acaba por trair Robb e mudar de lado. Um personagem histórico equiparável a ele foi Jorge, o Duque de Clarence, que era irmão do rei Eduardo IV. Jorge foi fiel ao seu irmão durante a subida deste ao trono, mas por ser um tanto quanto ciumento e invejoso logo viu uma oportunidade de ser ele mesmo coroado como rei em uma conspiração feita por Ricardo Neville, mas esta acabou não dando em nada e eles tiveram que sair do país. Posteriormente ele acabou virando a casaca e foi para o lado da família rival de seu irmão, mas no final acabou novamente mudando de lado e lutando ao lado dos Yorks.

Em 1478 Jorge acabou sendo novamente culpado de conspirar contra Eduardo e acabou sendo executado de forma privada na Torre de Londres. Segundo dizem ele foi afogado em um barril de vinho, o que é curioso, já que Theon Greyjoy nasceu nas Ilhas de Ferro, onde o afogamento é considerado um ato sagrado já que os “homens de ferro” veneram o Deus Afogado, e os recém-nascidos geralmente passam por uma cerimônia onde são submersos ou ungidos com água salgada, fora os sacerdotes dessa religião que são afogados de fato e depois trazidos de volta através de uma reanimação cardiopulmonar.

 

Tyrion Lannister

Fiquei pensando se haveria alguma figura histórica que pudesse ser equivalente, mesmo que apenas um pouco, ao nosso querido Tyrion Lannister e acho que o que mais poderia se encaixar no perfil é o controverso Ricardo III. Ambos foram apontados como regentes durante o governo de seus sobrinhos, embora Tyrion tivesse exercido a função de Mão do Rei de forma impecável e nunca tentou usurpar o trono de Joffrey, algo que Ricardo III fez com Eduardo V. Tanto Ricardo III quanto Tyrion Lannister foram acusados de serem os responsáveis pelas mortes desses sobrinhos, embora até seja o cenário mais provável no caso de Ricardo, ainda que não seja algo que possamos dar como certo.

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Ricardo III e Tyrion Lannister

Tyrion é um personagem que o povo dos Sete Reinos vê como um duende maligno, Ricardo III durante muito tempo também foi visto como um dos grandes vilões ingleses, embora essa imagem já não seja tão forte hoje em dia por conta das recentes descobertas e estudos históricos. Ricardo III foi retratado durante muitos anos com algumas deformidades físicas, tais como uma terrível corcunda, algo que foi propagado e popularizado no imaginário comum por William Shakespeare em sua obra “Ricardo III”, tentando passar a imagem de uma deformidade física para ressaltar a deformidade moral do monarca, porém ao encontrarem recentemente os restos de Ricardo III foi descoberto que ele até apresentava uma escoliose, mas nada que o fizesse corcunda, ou mesmo não havia sinais que ele sequer mancasse, sendo toda essa imagem que se tinha dele algo inventado para passar essa ideia de alguém mais “monstruoso”, usando desse artifício mais visual para demonstrar a vilania de forma mais clara para o entendimento do público, algo que parece ter inspirado o preconceito que Tyrion vive por ser um anão, e dos mais feios por sinal (leiam a descrição dele nos livros, sobretudo depois da Batalha Da Água Negra), sendo julgado por praticamente todos como um pequeno monstro apenas por conta de sua aparência.

 

Stannis Baratheon

O “Rei no Mar Estreito” também guarda semelhanças com o rei Ricardo III, principalmente em relação à tentativa de revindicação ao trono sob a alegação de que o sobrinho era ilegítimo, fazendo dele desse modo o herdeiro por direito de seu irmão mais velho, embora a alegação de Stannis se baseie no fato de que Joffrey não tem uma verdadeira revindicação ao trono por não ser filho de Robert Baratheon, já Ricardo III conseguiu que o Parlamento considerasse os filhos de Eduardo IV ilegítimos por conta da invalidade de seu casamento com Isabel Woodville, devido a um pré-contrato nupcial que Eduardo teria feito antes de se casar com ela. Os dois também não eram governantes muito amados pela população.

 

Aerys II Targaryen

O último membro da dinastia Targaryen a governar os Sete Reinos talvez lembre inicialmente o rei Henrique VI, devido a sua condição mental instável, embora Henrique não fosse exatamente louco e tampouco tivesse o gosto que Aerys II tinha pela violência, mas o verdadeiro análogo do “Rei Louco” de Westeros é na verdade Ricardo II.  Aerys em sua juventude era descrito como sendo bonito, porém era vaidoso, orgulhoso e temperamental, ele ainda era dado a mudar rapidamente de ideia, e essas características negativas só foram piorando com o tempo, com o monarca se tornando mais e mais amargo e desconfiado com o passar dos anos, partindo pra loucura total após ficar cativo durante seis meses após o “Desafio do Valdocaso”. Ricardo II por sua vez também era descrito como bonito, mas volúvel, vingativo e instável, tendo frequentes explosões temperamentais, tal como Aerys. Ricardo, o segundo de seu nome, também levanta até hoje suspeitas de sofrer de uma possível loucura ou esquizofrenia, o que não é confirmado de forma alguma, deixo claro, mas ele não era mentalmente muito estável e talvez tenha tido algum tipo de transtorno de personalidade. Ele era dado a períodos de euforia e depressão que segundo dizem só pioraram com o tempo. Ambos também morreram pelas mãos dos filhos de seus conselheiros, embora Ricardo II não tenha sido morto diretamente por Henrique IV, mas provavelmente tenha morrido de fome depois de ser preso pelo seu primo.

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Ricardo II e Aerys II

Muito da visão de um rei cruel novamente vem de Shakespeare, principalmente por ter-se baseado em relatos escritos por partidários dos Tudor, que construíram a ideia de que a bagunça toda começou com Ricardo II e só foi arrumada por Henrique VII, o primeiro Tudor no poder. Ele não se diferenciava muito dos outros monarcas em termos de crueldade e impiedosidade, como bem visto nesse resumo da Guerra das Rosas, o que não podemos falar de Aerys, que era de fato cruel e totalmente louco. Há que se dizer que Ricardo não teve culpa nos eventos que levaram à Guerra das Rosas, embora suas atitudes foram vitais para a sua deposição do poder, as causas da guerra civil que assolou o país anos mais tarde foram principalmente por conta da Guerra dos Cem Anos e do governo fraco de Henrique VI.

 

Tywin Lannister

O personagem que talvez possa ter inspirado o Senhor de Rochedo Casterly e Protetor do Oeste, e que certamente compartilha muitas semelhanças com ele, é Ricardo Neville, o Conde de Warwick. Tywin Lannister era conhecido por ser um dos mais poderosos homens de Westeros, um político arguto e implacável, um excelente administrador, servindo como Mão do Rei para três reis diferentes (Aerys II Targaryen, Jofrrey Baratheon e Tommen Baratheon), além de ser um grande guerreiro, já Ricardo Neville era o homem mais rico da Inglaterra e um dos mais influentes, era um administrador capaz, um político hábil, um bom guerreiro, embora nem de longe tanto quanto Tywin Lannister. Ricardo era quem governava de fato durante os três primeiros anos do reinado de Eduardo IV, assim como Tywin era quem governava de fato para o rei Aerys II. Ambos acabaram por trair seus reis e passaram para o lado oposto, e por motivos semelhantes: a egativa de poderem casar suas filhas com membros da família real; Cersei com Rhaegar, no caso do Lannister e Isabel Neville com o duque de Clarence, no de Warwick.

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O rei Aerys II e Tywin Lannister

Mas também temos outro personagem histórico que pode ter tido influência na criação de Tywin Lannister, João de Gaunt, o fundador da Casa de Lancaster. João de Gaunt era o principal conselheiro para o rei Ricardo II, e um dos homens mais ricos da época. Como visto anteriormente Ricardo guarda semelhanças com o rei Aerys II, e a  queda desses dois monarcas se deu pela atitude de deserdar os herdeiros de seus conselheiros, já que Aerys nomeou Jaime Lannister, o filho mais velho de Tywin, para a Guarda Real, impossibilitando assim que Jaime herdasse as terras e títulos que deveriam passar para ele quando o pai morresse, afastando e perdendo o importante apoio de Tywin, que deixou de ser Mão do Rei e acabou por passar para o lado dos rebeldes, já Ricardo II exilou por cinco anos Henrique de Bolingbroke, filho de João de Gaunt, mas logo após Gaunt falecer acabou por considerar Henrique um traidor e declarou que seu banimento era perpétuo, confiscando todas as inúmeras propriedades de Gaunt para a Coroa.

 

Daenerys Targaryen

Daenerys Targaryen, a Nascida da Tormenta, a Não Queimada, Mãe de Dragões, Rainha de Meereen, Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhora dos Sete Reinos, Khaleesi do Grande Mar de Grama e qualquer um desses outros títulos malucos que tenham dado para ela, parece que pode ter sido inspirada não em uma mulher, mas em Henrique Tudor, posteriormente coroado como o rei Henrique VII. Ambos ficaram exilados no outro lado do Mar Estreito/Canal da Mancha, tinham poucos recursos financeiros, juntaram-se a eles dissidentes do rei e apoiadores de suas casas, ambos também tinham direito ao trono, já que Henrique descendia de uma trineta de Eduardo III pela linha dos Lancasters. Henrique ainda volta com uma força de mercenários franceses para tomar o trono aproveitando-se do caos que havia na Inglaterra por conta das sucessivas lutas pelo trono e afirmou sua posição casando com uma York, e a Daenerys já tem algumas espadas mercenárias a seu dispor em Meeren… Seria esse o final das Crônicas de Gelo e Fogo?  Mas acho que tem mais alguém que também pode ter algo a ver com Henrique VII.

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Jovem Griff, o suposto Aegon Targaryen

Em teoria o personagem que deu as caras no quinto livro seria o filho do príncipe Rhaegar Targaryen com Elia Martell, a princesa de Dorne. Inicialmente dado como morto no Saque de Porto Real revela-se mais tarde que teria sido trocado por outro bebê e criado em Essos. Vamos comparar o personagem tomando como base a afirmação que ele é de fato Aegon Targaryen. Tal qual a sua tia, também existem similaridades gritantes entre ele e Henrique VII, basicamente quase todas as que foram ditas para a Daenerys, como viver no exílio, não ter muitos recursos, contar com a ajuda de mercenários (no caso dele é a Companhia Dourada que lhe dá o suporte na empreitada de reaver o Trono de Ferro), e enquanto a Daenerys não dá nem sinal de voltar à Westeros o Jovem Griff já desembarcou e o seu exército já conquistou algumas pequenas vitórias. Assim como Henrique VII ele tem aliados em terra que o apoiam, e com os Lannisters perdendo apoiadores por conta de um governo caótico, tal como Ricardo III, não é de se surpreender se ele ganhar mais apoiadores para sua revindicação ao trono, e talvez se ele se casar com uma certa princesa de Dorne ele possa deixar sua posição mais forte, tal qual Henrique fez ao se casar com Isabel de York.

Ainda não podemos nos esquecer de que Henrique usava a bandeira do dragão vermelho (Dragão Galês) na batalha de Bosworth Field. Um fato curioso a respeito de Henrique VII é que esse emblema estava associado à Cadwaladr, um lendário herói galês frequentemente mencionado nas profecias e que retornaria para restaurar o poder dos bretões sobre os saxões, algo que Henrique como tendo sangue galês usou a seu favor para dizer que ele restauraria a autêntica linhagem ancestral do rei Cadwaladr, bem como alguns o chamaram de Y Mab Darogan, “o Filho Profetizado”, uma lendária figura messiânica galesa que os libertaria da opressão inglesa e retomaria a Grã-Bretanha para os povos celtas, habitantes originais daquelas terras. Acho que quem leu os livros já deve estar familiarizado com a lenda do “Príncipe que foi prometido”, que nasceria da linhagem dos Targaryen, e o próprio Rhaegar Targaryen, que era obsecado pela profecia, acreditava que seu filho Aegon fosse o príncipe da profecia, porém ao que tudo indica, a maior probabilidade de alguém ser esse “príncipe que foi prometido”, seria a Daenerys Targaryen, porém como o Martin não costuma ser tão explicito, pode ser que não seja ela, ou nem o Aegon, mas por enquanto podemos ver mais essa essa semelhança de um dois poder ser essa figura messiânica prometida, tal como aconteceu com Henrique VII.

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Y Ddraig Goch, o “dragão vermelho”

Mas estamos assumindo que o Jovem Griff é quem ele diz ser, mas e se ele não for um Targaryen? E se ele for um Blackfyre, como é a teoria mais aceita internet afora sobre a identidade dele? A teoria diz que o Jovem Griff seria flho de Illyrio Mopatis com a sua falecida esposa Serra, que é descrita como tendo cabelos “de pálido ouro mesclado com prata”, o que acaba sendo alvo de discussão se ela não seria uma remanescente da linhagem feminina dos Blackfyre, já que a linhagem masculina teve fim com a morte de Maelys, o Monstruoso. Além disso ele tem o apoio da Companhia Dourada, que fora criada por Aegor Rivers, o Açoamargo, um dos principais apoiadores da Casa Blackfyre quando esta se rebelou contra a Casa Targaryen, e que notoriamente buscava retornar a Westeros e colocar um Blackfyre no trono, e como o próprio Illyrio disse: “Negro ou vermelho, um dragão ainda é um dragão.”. Nesse caso muito do que foi dito anteriormente dele como o filho de Rhaegar Targaryen pode ser descartado, mas essa nova possibilidade também apresentaria algumas similaridades com o Henrique VII. Edmundo Tudor, o pai de Henrique VII, nasceu de um casamento ilícito entre Owen Tudor e Catarina de Valois, a viúva de Henrique V, porém foi declarado filho legítimo pelo parlamento anos mais tarde, já a mãe de Henrique VII, de quem sua pretensão ao trono deriva, é neta de João Beaufort, um dos quatros filhos que João de Gaunt teve com sua amante Catarina Swynford, esses filhos só foram legitimados quando já eram adultos, na época em que o casamento de João e Catarina foi aprovado pelo rei Ricardo II e pela igreja, porém os Beaufort estavam proibidos de herdar o trono por conta de uma clausula acrescentada no documento. Dá pra entender o motivo da pretensão de Henrique ser fraca, já que ele descende de vários nascimentos ilegítimos que foram posteriormente legitimados, por isso mesmo era considerado “a coisa mais próxima da realeza que os Lancasters possuíam”. Dá pra ver que no caso de ser um Blackfyre ele compartilha essa semelhança de sua pretenção ao trono se derivar de uma linhagem bastarda que fora legitimada.

Mas e se ele não for um Targaryen e nem um Backfyre? E se ele for apenas um “príncipe ideal” criado por Varys para se sentar no Trono de Ferro? A provável origem do personagem poderia estar em Perkin Warbeck.

Perkin Warbeck foi pretendente ao trono da Inglaterra que dizia ser Ricardo, o Duque de York, o mais jovem dos príncipes na torre, que, segundo ele, foi resgatado da Torre de Londres e levado para fora do país antes do assassinato de seu irmão. Ele era um rapaz bonito, bem-educado e carismático, e muitos achavam que de fato ele tinha sangue Plantageneta e dizia-se que o rapaz se assemelhava de fato com Eduardo IV, o pai de Ricardo e Eduardo V. Ele logo ganhou apoio de Margarida de York, a duquesa a Borgonha e irmã de Eduardo IV, que o reconheceu como seu sobrinho e o educou em sua corte, mas como ele poderia ter sido um meio útil dela atingir o rei da Inglaterra Henrique VII, ele pode muito bem ter sido o peão perfeito para essa farsa, ainda mais com a aparência que lembrava o pai de Ricardo. Em toda a Europa começaram a aparecer nobres para ajudá-lo (provavelmente motivados por razões semelhantes às de sua suposta tia), tais como o rei da França Carlos VIII, o Sacro Imperador romano-germânico Maximiliano I e o rei da Escócia Jaime IV, que lhe concedeu recursos e a mão de uma prima distante, Catherine Gordon. Ao ouvir notícias que um exército enviado por Henrique se aproximava ele acabou fugindo e mais tarde foi capturado. Posteriormente ele foi obrigado a fazer uma confissão pública admitindo ser um impostor e acabou sendo enforcado em 1499. Não se sabe se o Jovem Griff é mesmo um impostor sendo usado para fins políticos ou não, mas a boa aparência, o carisma, a educação batem com a descrição de Perkin, que em sua confissão disse ter trabalhado em sua juventude para diversas pessoas, tal como o Jovem Griff que também foi criado aprendendo a trabalhar com suas próprias mãos. De fato o Jovem Griff pode muito bem ser apenas uma peça a ser usada para se depor um rei e colocar um príncipe ideal no trono aproveitando-se da sua aparência.

 

Jeyne Poole

Muitos devem estar se perguntando quem é essa personagem, bem ela é uma amiga de Sansa, filha de um intendente de Ned Stark e criada em Winterfell. Ela foi junto de seu pai na comitiva que Ned levou para Porto Real, onde ele acabou sendo morto pelos homens da rainha após a prisão de Ned Stark por traição. Após isso Petyr Baelish disse que “encontraria um lugar para ela”. Jeyne foi envolvida em um trama para se passar por Arya Stark, aproveitando-se de terem mais ou menos a mesma idade e de serem levemente parecidas. Ela é mandada por Tywin Lannister para se casar com Ramsey Bolton para firmar o pacto com os nortenhos (na série ela foi substituída pela Sansa, que nos livros se encontra em outro lugar). Já que ela fora criada em Winterfell podia responder bem as perguntas que lhe eram feitas, e Theon Greyjoy, agora fiel à Ramsey, era único que fora criado com ela que ainda estava vivo para afirmar se a menina ela era mesmo quem dizia ser, ou seja, ela era perfeita para se passar por Arya e enganar os lordes do norte. Bem, depois de ter contado a história de Perkin Warbeck acho que alguns leitores podem ter feito a ligação entre esses dois, já que ambos foram educados para desempenhar um papel de um “príncipe”/ lady desaparecido e assumir sua revindicação. Muitos podem até achar que o papel dos “Príncipes na Torre” pode ser algo que tenha inspirado Bran e Rickon, já que ambos são dados como mortos pelas mãos do “irmão de criação” de Robb, tal qual os verdadeiros príncipes foram dados como mortos pelas mãos de seu tio, mas talvez Martin tenha feito das suas alterações e mudou para se encaixarem mais com o sumiço da Sansa e da Arya, e nesse caso a trama de Jeyne faria total sentido com a história de Perkin Warbeck.

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8 comentários sobre “Inspirações Históricas das Crônicas de Gelo e Fogo: 1ª Parte

    • Olá Kamylla! Os Lannisters e os Lancasters realmente possuem inúmeras semelhanças, mas o Martin também gosta muito de fazer inversões e modificação para sua história não ficar igual a História, e assim como nos livros ninguém é inteiramente bom ou ruim, cada um tem seus interesses e lutam por eles, mas a Margarida de Anjou se passaria por uma Lannister fácil haha. A BBC vez ou outra faz alguma série nesse período, se bobear é uma das séries deles, a segunda temporada de The Hollow Crown que está pra sair esse ano vai ser focada na Guerra das Rosas, porém essa série se baseia nas obras de Shakespeare e ele não era um cara muito fiel a História, mas vale a pena ver pela produção e pelos bons atores.

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        • Olha Kamylla, dei uma olha aqui na sinopse da série e parece que ela já pega no período do Eduardo IV (ele foi o primeiro York no trono) já que a Rainha Branca do título é a Isabel Woodville, e os Lancasters só voltam ao trono depois com o Henrique Tudor (ele descendia de um ramo da família Lancaster). Essa parte em si faz parte da Guerra das Rosas, mas o poder dos Lancasters nessa época estava muito enfraquecido e o que estava acontecendo no momento era mais uma briga dentro da família York pelo trono do que uma disputa com outra família, mas quando o Ricardo III subiu ao trono alegando que os filhos da Isabel não eram legítimos e deu um sumiço nos garotos, ela ajudou a tramar a ascenção do Henrique Tudor, que casou com a filha dela e deu início a era Tudor. Essa parte já é bem no finalzinho da Guerra das Rosas, embora tenha tido algumas disputadas depois do Henrique subir ao trono. Essa série parece que foi inspirada em um livro, recomendo também a série Guerra das Rosas do Conn Iggulden, estou lendo o segundo livro no momento e tá bem bacana, embora o foco esteja mais na Margarida de Anjou e o Ricardo tenha ficado meio vilanesco, o que é em si uma abordagem que o autor escolheu, mas até agora estou gostando bastante, fica aí como dica. 😉

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