Gattaca – Experiência Genética

GattacaVenho falando muito de livros, e talvez quem acompanhe o blog possa até pensar que este seja apenas um blog literário, mas esse não é necessariamente o foco. Em geral gosto de falar daquilo que consumo e fazer aquilo reverberar um pouco mais na minha cabeça. Ao falar de algo você ainda mantém aquilo vivo, seja livro, filme ou qualquer coisa, ela ainda continua  existindo e rendendo frutos mesmo após ter acabado. Há um filme que vi recentemente e que me fez ter uma vontade grande de escrever sobre ele, este filme é “Gattaca –  Experiência Genética”.

Atenção, alerta de spoilers. Estejam avisados.

 

Gattaca- A experiência genética é um filme de 1997 com Ethan Hawke, Uma Thurman, Jude Law (Jerome Eugene Morrow). A história se passa em algum ponto no futuro onde a manipulação genética não é apenas possível, como é absolutamente comum. Imagine poder escolher a cor dos olhos dos seus filhos, de poder prevenir doenças genéticas, de ter o melhor dos genes que se pode oferecer para criar, em tese, um ser humano “perfeito”. Com a possibilidade de fazer pessoas geneticamente superiores acabou-se criando uma separação entre os nascidos por esses dois meios pela engenharia genética, os válidos ou “filhos da ciência”, e os que nasceram por meios naturais, os inválidos ou os “filhos da fé”, criando uma sociedade dividida em torno dessas classes. Logo nos momentos iniciais do filme aparecem duas frases que dão esse tom de fé x ciência:

“Atenta para a obra de Deus; porque quem poderá endireitar o que ele fez torto?” Eclesiastes 7:13

“Eu não apenas acho que nós agiremos sobre a Mãe Natureza, como também acho que Ela quer que façamos isso.” Willard Gaylin.

Vincent Freeman (Ethan Hawke) foi um desses concebidos pela fé. Ele nasceu com problemas cardíacos, o que fez com que a estimativa de sua expectativa de vida fosse baixa (cerca de 30 anos), e também deixaram como praticamente nulas as possibilidades dele conseguir um bom emprego. Os pais de Vincent tendo em vista os problemas que seu filho passava e passaria no futuro por conta de suas “falhas genéticas” resolveram ter o seu segundo filho pela “forma natural” da época, ou seja, ele foi deixado nas mãos de um geneticista e não “nas mãos de Deus”, como o primeiro filho. Anton (Loren Dean), o irmão de Vincent, cresceu mais forte, mais alto e mais forte que o irmão, que não conseguia superá-lo quando eram  crianças, tanto que uma das brincadeiras entre os dois era ver nadava o mais distante possível no mar para ver quem ficaria com medo primeiro e voltaria para a praia, pois a cada braçada adiante no mar era uma que teriam que guardar para quando voltassem em segurança. Não surpreendentemente o irmão geneticamente superior ganhava, todas as vezes,  até que em uma oportunidade Vincent conseguiu superá-lo, e isso deu mais ânimo pra Vincent enfrentar o mundo. Ele era esforçado, estudava muito além do que os outros estudavam, dedicava a sua vida a provar que poderia ser igual a todos os outros, pois tinha o sonho de viajar no espaço, porém esse sonho era algo distante e soava tolo diante do seu destino genético.

“Não existe um gene para o destino.”

Gattaca era uma empresa que fazia viagens espaciais onde Vincent sonhava em trabalhar, porém, para garantir que seu pessoal fosse composto dos melhores dentre os melhores, ela realizava testes genéticos em quisesse ser admitido na empresa. Teoricamente a discriminação genética era crime, o chamado “geneísmo”, porém as empresas usavam de subterfúgios para obter as características genéticas dos candidatos, sejam por meio das impressões digitais que eventualmente deixavam na maçaneta da porta ou mesmo com um simples aperto de mãos, e se não desse certo e o candidato conseguisse contornar esses “métodos”, eles ainda poderiam pedir um teste de drogas, que era legalizado e assim obter o material genético. O próprio Vincent diz: “Meu verdadeiro currículo eram as minhas células.”, ou seja, nada mais importava se você não estivesse dentro do grupo dos bem-nascidos geneticamente. Vincent, apesar de ser uma pessoa totalmente capaz de desempenhar as atividades que a empresa exigia, não conseguiu o cargo desejado por conta de seus genes, apenas conseguido entrar na empresa para um dos poucos trabalhos que os “inválidos” conseguiam, ele trabalhava com o pessoal da limpeza.

Vincent acaba se valendo de métodos ilegais para conseguir realizar seu sonho entrando em contado com uma pessoa que lhe apresenta a Jerome Eugene Morrow (Jude Law), um ex-nadador medalhista com genes excelentes que fora obrigado a abandonar a carreira após sofrer um acidente e quebrar a coluna, perdendo o movimento das pernas. Para enganar esse sistema de classes ele usa o material genético de Jerome, além de ter de se empenhar em ser outra pessoa, em deixar de ser Vincent e passar a ser Jerome. Os dois passaram a ter uma relação meio simbiótica, com Vincent precisando de Jerome por conta dos genes deste, enquanto pagava ajudava a pagar o aluguel e manter o padrão alto do estilo de vida do ex-nadador com o dinheiro que ganhava trabalhando na Gattaca.

“Eu fiquei com a melhor parte do negócio, só emprestei meu corpo, você me deu o seu sonho.”

Vincent se torna um dos melhores funcionários da Gattaca, estando a apenas uma semana de finalmente conseguir seu objetivo, ele iria para uma viagem até Titã, uma das luas de Saturno, porém um assassinato acontece dentro da empresa colocando investigadores em todos os lugares, ameaçando atrapalhar a janela de lançamento que só acontecia a cada 60 anos. Todos os dias Vincent tirava o máximo possível de camadas da pele, unhas e cabelo para limitar a quantidade das células que ele poderia deixar cair, enquanto também deixava cair propositalmente as amostras que Jerome preparava, porém em um raro descuido ele deixa cair  um cílio, o que levanta as suspeitas do assassinato para Vincent Freeman, um homem que não deveria estar lá, já que era um “inválido”. Vincent consegue enganar a todos por um bom tempo, pois não o reconheciam por conta do novo estilo de se vestir, pelas mudanças na sua aparência decorrentes de cirurgias e também pelas pessoas estarem tão certas de que um “inválido” jamais conseguiria enganá-los por tanto tempo, afinal eles não eram capazes se competir com os melhores. Quando olhavam para Vincent, só viam Jerome.

Por fim um investigador consegue descobrir a sua verdadeira identidade, e esse investigador  não era outro se não Anton, o irmão de Vincent. Mesmo sabendo que Vincent não era o assassino, já que haviam pegado o verdadeiro responsável, ele ainda tenta prender o irmão, afinal ele estava usando de meios ilegais para se passar por outra pessoa. Ao ser pressionado Vincent questiona o irmão dizendo que mesmo sendo considerado um “inválido” ele conseguiu superar a genética, sempre se esforçou para ser melhor que os que já nasciam geneticamente superiores, e desafia o irmão para mais uma das suas disputas de força e vontade nadando até onde conseguiram aguentar mar adentro. Surpreendentemente Vincente vence novamente o  irmão e o conta como conseguiu a proeza : “Quer saber como consegui? Foi assim que consegui, Anton. Eu nunca guardei energia pra nadar de volta.”.

 

Ao final do filme, prestes a enfim realizar o seu sonho e mostrar que ele poderia ser tão bom quanto qualquer um, ele tem a última conversa com Jerome, que deixa o material que Vincent iria precisar quando voltasse, o necessário para dobro do tempo de vida. Já os momentos finais, bem, não vão contar aqui, apenas direi que Vincent conseguiu o seu objetivo.

“Para alguém que nunca foi feliz neste mundo eu devo confessar que de repente eu estou tendo dificuldade em deixa-lo. Dizem que cada átomo de nossos corpos já foi certa vez parte de uma estrela. Talvez eu não esteja partido, talvez eu esteja indo para casa.”

Um detalhe curioso é o significado dos nomes dos protagonistas. Vincent vem do latim e significa “vencedor”, e seu sobrenome “Freeman”, é homem livre em inglês, já Eugene vem do grego e significa “bem-nascido”, dá bastante destaque a quem eles são, um geneticamente superior, preso ao próprio peso de ser melhor que os outros por conta de seus genes, já o outro nasceu livre dos meios artificiais, mas mesmo assim estava preso a uma sociedade na qual a genética era tudo, e para vencer nesse mundo ele teve de se libertar, mostrar que não estaria sujeito a esse destino.

Esse filme distópico me lembrou bastante Admirável Mundo Novo, talvez por isso tenha gostado tanto dele (Admirável Mundo Novo é o meu livro favorito). Esse clima de uma sociedade perfeita, porém que só se mantém assim artificialmente, e a liberdade é colocada de lado, no caso de Gattaca, são as escolhas limitadas por conta da forma que você nasce, embora em AMN, não existe escolha ou possibilidade de mudança de classe, já que as pessoas além de serem manipuladas geneticamente, e ao contrário do filme algumas eram feitas para serem mais limitadas física e intelectualmente para que servissem aos superiores e não se rebelassem contra esse sistema. Em Admirável Mundo Novo o espírito humano é controlado por drogas e por indução, já Gattaca é uma ode a força de vontade, a aquilo que possibilita superar limites, compensar as falhas pelo esforço. São tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes, um caminha para uma sociedade mais sóbria, mas termina com esperança, o outro é uma sociedade que só vive com diversões e distrações, mas é altamente melancólico.

O filme já valia pela ambientação, pelo enredo, pela reflexão, mas também serve até com um bom filme motivador. Em resumo, é um filmaço.

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