Elantris – Brandon Sanderson

“A dor perdia o poder quando outras coisas se tornavam mais importantes”

elantrisQuando se fala em autores de fantasia da atualidade é impossível não citar o nome de Brandon Sanderson, ele figura fácil entre os principais nomes do gênero e é frequentemente apontado com um dos melhores dos últimos tempos, e não é à toa. Elantris é o primeiro livro publicado do autor americano, que é mais conhecido pela série Mistborn, cujos primeiros livros, O Império Final e O Poço da Ascenção, já foram publicados aqui no Brasil (para quem ainda não conferiu as resenhas deles aqui no blog deem uma olhada), mas já em Elantris podemos ver as características marcantes da escrita de Sanderson e elementos que podemos ver posteriormente em Mistborn, tal qual uma protagonista feminina forte, cidades sujas, camponeses oprimidos, maquinações de conspirações em bailes, etc., além das particularidades mais visadas na fantasia contemporânea, com um foco maior na política do que apenas na ação ou na magia, que muitas vezes é até bem sutil, mas falando de Brandon Sanderson é sempre apresentada como algo novo e bem construído.

Já havia algum tempo que queria ler Elantris, seja pelas opiniões positivas quanto em ler algum livro de fantasia stand-alone, sem a necessidade de começar mais uma série interminável ou com enrolações desnecessárias, e um livro único, com a história fechada, foi algo que também me incentivou bastante. Mas vamos à resenha em si.

Elantris, a antiga capital de Arelon, era uma cidade única no mundo, reconhecida pela beleza e pelo uso da magia por seus habitantes que eram vistos como deuses. Vivendo nessa cidade utópica os elantrinos tinham pele prateada, seus cabelos eram brancos e faziam a sua magia através de símbolos, conhecidos como aons, que eles desenhavam no ar com os dedos ou gravavam em objetos, e eles não nasciam como elantrinos, mas se tornavam um deles com a Shaod, a transformação, que era aleatória, podendo acontecer com qualquer um, sem haver qualquer tipo de distinção de idade ou classe social, atingindo tanto velhos como crianças, nobres e camponeses, e estes que passavam pela transformação iam viver na bela cidade de Elantris, porém há dez anos o que era uma benção se tornou uma maldição, e ao invés de transformar as pessoas em seres semidivinos agora a Shaod transforma as pessoas deixando-as com a pele com várias manchas negras que iam cobrindo o corpo, além da pele ficar cheia de rugas e perderem os seus cabelos, mas o que era pior para os elantrinos eram a fome constante que todos os ferimentos que recebiam nunca se curavam, deixando-os loucos pela dor e pela fome. Os elantrinos também já não respiravam, seu sangue já não corria mais em suas veias e seu coração já não mais batia no peito. Como diria um personagem do livro “os mortos cujas mentes continuam a viver.”. Privada da magia que estava ligada a prosperiade e a própria vida da cidade, a bela Elantris ficou tão decrépita quanto os que vagueiam pelas suas ruas.

“Você ainda não entende, sule – disse Galladon, sua voz com sotaque e pesarosa. – Ele não está vivo… Nenhum de nós está. É por isso que estamos aqui. Kolo?”

O livro é narrado sob o ponto de vista de três protagonistas: O Príncipe de Arelon, Raoden, que passara pela Shaod sendo obrigado a viver em Elantris, onde adotou o nome de Espírito, por causa do significado do aon Rao, de seu nome; Sarene, uma princesa de Teod, país culturalmente próximo e um dos principais aliados políticos de Arelon, que ficara viúva de Raoden; e Hrathen, um líder religioso derethi que recebera a missão de converter o povo “ímpio” de Elantris em três meses, antes que o império teocrático de Fjorden aniquilasse a cidade, vendo a si mesmo com a única salvação que os habitantes teriam de sobreviver.

Falar da história de Elantris é falar sobre seus personagens, onde Raoden fica com o núcleo de Elantris, tentando descobrir o que causara a maldição e como a cidade ficara daquele jeito em tão pouco tempo, além de tentar aprender a “viver” o melhor possível na cidade, que era dominada por três gangues e escapar dos ataques dos elantrinos enlouquecidos pela constante fome e pela dor contínua e intensa, tentando achar um jeito de mudar essa realidade, recebendo ajuda do carismático Galladon, um elantrino que já estava há mais tempo na cidade e entendia bem como as coisas funcionavam por lá. A parte da Sarene é mais dedicada às intrigas da corte de Kae, a nova capital de Arelon, onde tenta descobrir mais sobre a misteriosa morte de seu marido, e começa a tentar mudar as coisas por lá. Já Hrathen tem capítulos mais voltados à tentativa de conversão dos arelenos e do perigo vindo do império Fjordênico, além da ameaça mais eminente que Dilaf, um fanático religioso e servo de Hrathen, apresenta, com um ódio cego pelos elantrinos e arelenos, sendo uma pessoa totalmente instável, imprevisível e perigosa, tanto para inimigos quanto para o próprio Hrathen.

Confesso que dos protagonistas gostei apenas de Hrathen, Raoden e Sarene são um pouco chatos por serem tão perfeitos. Eles são carismáticos, inteligentes acima da média e conseguem sempre o que querem. Você sabe o que esperar de quem é perfeito, as surpresas aparecem com os defeitos, por isso eles conquistam mais, eles frequentemente fazem você lançar um outro olhar sobre algum personagem, deixam eles mais dinâmicos, mais vibrantes do que aqueles estáticos em sua inabalável perfeição. Raoden ainda consegue chamar mais atenção pelo seu núcleo em si, mas realmente dos três principais o que rouba a cena por ser o mais interessante é de longe o Hrathen. Uma pena que os capítulos da Sarene sejam angustiantemente maiores dos que os outros, principalmente os capítulos tragicamente curtos de Hrathen. Sarene é uma personagem bem forte, perspicaz, inteligente, sagaz ao estremo, confiante, decidida, mas que para mim ficou algo meio exacerbado, ela desconfia de tudo e descobre qualquer coisa muito depressa, e todos os personagens que orbitam ao redor dela ficam meio apagados, ela faz tudo acontecer tão depressa que faz duvidar da capacidade de todo o resto, bem como Raoden que é a nobreza encarnada que é o típico “escolhido”, mas Hraten é mais complexo, com tons menos definitivos, com crises de fé, dúvidas, com um tom mais realista de tentar salvar as pessoas, ele realmente acredita que pode salvá-las do seu modo, além de ser também inteligente e perspicaz, mas que não fica meio exagerado como é com os outros protagonistas. Outros também merecem destaque, como o tio de Sarene, Kiin, o duque Roial, Galladon, Karata, e também o Dilaf, cujo lado passional contrasta com o lado racional Hrathen.

O ponto forte do livro sem dúvida alguma é a forma que são apresentadas as religiões do livro, são muito bem construídas, desde as mais pacificas como o Shu-Korath, até o rígido Shu-Dereth, ou mesmo mais “místicas/exotéricas” e até mais “primitivas”, como os Mistérios. Elas não são estão presentes como são fundamentais para a história, guardando as devidas proporções, não via religiões serem tão bem exploradas assim desde As Crônicas de Gelo e Fogo. O povo se voltou ainda mais a essas religiões com a queda de Elantris, com seus habitantes vistos como deuses com a magia capaz de transformar lixo em comida, curar qualquer ferimento, viajar por enormes distâncias em segundos, e esses “deuses” caíram com seu poder, abrindo uma lacuna a ser preenchida na crença das pessoas, que passaram a ver essa benção em maldição. Ambos Shu-Korath e Shu-Dereth são derivadas de uma mesma religião, Shu-Keseg, são praticamente as mesmas, embora com algumas divergências vistas como profundas, tanto que Dereth não vê Korath como uma religião verdadeira, uma bela forma de apresentar como umas poucas diferenças podem ser fundamentais para moldar uma crença, ainda mais para alguma finalidade, como com a Dereth e sua necessidade de se impor ao mundo como religião única, conquistado todas as nações, lembrando que o líder único e profeta do deus Jaddeth, conhecido como Wyrn, também era o Sagrado Imperador do Império Fjordênico, ou seja, no fim todo o controle das terras dominadas pelo Shu-Dereth estaria sob seu controle, e todos os nascidos em Fjorden consideravam-se um povo escolhido por Deus, e os outros deveriam servi-los, fazendo parte da base da pirâmide de poder e obediência na qual todos dentro dessa religião fazem parte. Um verdadeiro império teocrático.

Outro ponto alto é a magia do livro, já mostrando a aptidão de Sanderson nesse ponto em específico. A magia que os elantrinos usavam, conhecida como AonDor, era feita através dos aons, caracteres – que tem um significado bem legal do motivo de terem a forma que possuem-, desenhando esses símbolos no ar ou em objetos, canalizando uma energia conhecida como “dôr”, e a história gira em torno de como essa magia se perdeu, com o Raoden tentando entendê-la para trazê-la de volta ao mundo.

Para um livro de estreia é sensacional, porém Elantris não é perfeito, têm lá os seus defeitos e algumas coisas incomodam um pouco, porém é um livro extremamente divertido e serve bem como uma porta de entrada para se conhecer o autor ou mesmo essa nova tendência da fantasia de dar mais ênfase aos conflitos políticos do que a magia e a ação desenfreada, principalmente por se tratar de um livro com uma história fechada. Se fosse para dar uma nota seria um honroso 3,5 em uma escala de 1 a 5.

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4 comentários sobre “Elantris – Brandon Sanderson

  1. Concordo com seu ponto de vista, mas entrei em conflito quando li “têm lá os seus defeitos e algumas coisas incomodam um pouco..”. A história se desenvolveu de uma maneira extremamente ampla, e não creio que o autor tenha cometido algum erro na hora de criá-la, ou até mesmo ele cometa erros.
    Tenho que admitir que sou uma GRANDE fã dele, mas isso não interfere em eu observar a sua forma de escrita e conferir os erros e clichês.
    Enfim, discordo e me calei.
    Não fala mal dele, seu zinfilix. 😤

    Curtido por 1 pessoa

    • “não creio que o autor tenha cometido algum erro na hora de criá-la, ou até mesmo ele cometa erros.” Que isso, Emilly! Todos somos passíveis de erros, e por isso mesmo podemos melhorar. O Sanderson evoluiu bastante, algo que fica claro com Mistborn, e dá até pra ver alguns que elementos de Elantris foram lapidados e polidos de melhor forma na história da Vin e do Kelsier. A minha birra com Elantris foi mais por conta dos protagonistas, o casal Disney, acho que se fossem menos perfeitos seriam mais empáticos, o que senti mais com o Hrathen, que roubou a cena, apesar de não ter capítulos longos. Também achei o final um pouco corrido, e o rei é meio bunda-mole, apesar de subir ao poder em um momento conturbado e ter aguentado, o que se espera de alguém mais capaz. Acho que há mais acertos do que erros, e é um bom livro, mas não é perfeito, nem de longe.

      Não se cale, vc pode falar o que acha, até porque não importa o que digo, se vc gosta esse é o livro para vc, assim como, mesmo que outros não gostassem, apenas vc, não faria diferença alguma. É mais uma percepção minha mesmo. E por medo da resposta, não perguntarei o que é um “zinfilix” hahahaha Obrigado pela visita!

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  2. Conheci o seu blog hoje, no bate papo do #EspalheFantasia, e quando vi que tinha uma resenha de “Elantris” (que li faz um tempo), fiquei curiosa para conferir sua opinião. Gostei do seu estilo de resenha, e embora a minha personagem favorita do livro seja a Sarene, concordo com você em relação a Raoden, senti falta nele principalmente de falhas morais e desesperança (ele é otimista demais!). E Hrathen é muito interessante mesmo.

    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    • Olá Laís! Fico feliz que tenha gostado da resenha. Olha, confesso que pra mim a Serene e o Raoden são farinha do mesmo saco, só faltou cantarem juntos em algum momento do livro pra parecer algum casal da Disney haha Não me incomodaria com isso se o livro tivesse outro tipo de pegada, mas parece que os protagonistas muito perfeitos não se encaixaram bem, por isso vi no Hrathen uma figura mais complexa e interessante, os outros dois são muito óbvios. Mas minhas críticas ficam só nesse tipo de abordagem em relação aos dois, de resto eu gostei do livro.

      Abraços!

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