Filhos do Éden: Paraíso Perdido – Eduardo Spohr

Paraíso Perdido é o terceiro volume que fecha a trilogia Filhos do Éden, iniciada com Herdeiros de Atlântida e dando prosseguimentos aos eventos ocorridos em Anjos da Morte, servindo ainda como uma ponte que liga essa trilogia com o livro que foi a gênese desse universo, A Batalha do Apocalipse.

Filhos do éden paraíso perdidoO livro é dividido em três partes, “O Crepúsculo dos Deuses” sendo a primeira delas, a segunda parte “Antes do Dilúvio”, a terceira parte “Viagem ao centro da Terra”. Na primeira parte vemos Metatron, o Primeiro Anjo, o Rei dos Homens sobre a Terra, o grande antagonista da série, realizando o trabalho para qual foi criado, o de guiar e proteger os seres humanos, mantendo Adão e Eva presos dentro do seu paraíso, o Jardim do Éden, livres da corrupção e violência que começava a se abater sobre alguns grupos de pessoas fora dos seus limites. Aqui vemos o que talvez seja a grande qualidade que o Eduardo Spohr imprimiu nos seus livros, a mistura dos mitos e crenças que ganham novos ares ao serem reinventados dentro do contexto do seu Universo, fazendo uma reconstrução interessantíssima que os renova sem deixar de perder a sua essência. Metatron, assim como os outros sentinelas, o grupo de anjos designados por Deus para ensinar, cuidar e guiar os seres humanos, vai aos poucos se entregando a um lado mais tirânico, mais insano, com uma deturpação do amor que sente pelos mortais, que o leva se erguer como um novo deus único, impiedoso com aqueles que ficarem no caminho, mesmo que para tal precise empregar meios que justifiquem os fins. Um vilão que aos poucos vai mostrando a sua complexidade e que só conseguimos entendê-lo ao final dessa jornada, certamente um dos melhores personagens criados nesse universo angélico do Spohr.

Entrementes, temos a continuação da jornada de Kaira e Urakin, que após viajarem pelas águas do rio Oceanus chegam até a dimensão de Asgard, onde enfiam acabam encontrando Denyel, porém o encontro não foi da forma como eles imaginariam que seria, o anjo está um pouco mudado e completamente adaptado a sua nova vida entre os asgardianos servindo entre as fileiras desse povo e sendo um exilado que não se encaixava nem nas tropas leais ao arcanjo Miguel ou com os rebeldes com o Arcanjo Gabriel, este é o lugar onde ele acaba sentindo-se de fato em um lugar ao qual pertence, e a volta a Haled, o nosso plano terreno de existência, já não é algo que seja tão atrativo para o anjo canastrão.

Essa primeira parte que se passa em Asgard só me fez desejar ainda mais por um livro focando nas guerras etéreas, mas confesso que não curti muito quando a história ficou muito focada nessa parte de mitologia nórdica, acho que um livro separado seria melhor e a narrativa poderia continuar com uma pegada mais original, a exemplo dos outros livros ou mesmo das duas outras partes do livro, as quais achei mais interessantes que a primeira. Mas para quem gosta de mitologia nórdica é um prato cheio, isso há que se dizer, houve uma pesquisa muito bem feita junto com toda a questão de amarrá-la a esse universo angélico, o que atraí o leitor para conhecer mais profundamente essas lendas e também deixa satisfeitos aqueles que já as conhecem. Porém tenho que dizer que não senti que essa parte faria tanta diferença para o andamento da história, embora em certo ponto até os acontecimentos ocorridos em Asgard geram consequências que tem um peso dentro dessa jornada, mas ao mesmo tempo se essa parte não estivesse no livro eu pessoalmente não sentiria falta. Digamos que não é algo fundamental, mas sim um acréscimo para essa história. Creio que faria mais sentido e seria algo até melhor aproveitado se esta parte fosse uma aventura desenvolvida no decorrer de mais páginas em um livro solo, separado do enredo principal de Filhos do Éden. E apenas comentando, acho que muita gente ficou querendo ver mais desse universo nórdico, porém eu particularmente gostaria de algo focando outras mitologias, acho que um Ragnarök saturaria um pouco a fórmula, e acredito que o Spohr possa crescer ainda mais como escritor ao se aventurar em outras sendas menos conhecidas e explorar novos ares, o universo que ele criou dá espaço para isso e seria uma pena focar em acontecimentos que já vislumbramos ou já vimos ao invés de mergulhar no novo.

Na segunda parte, “Antes do Dilúvio”, voltamos para a época de 35.000 mil anos a.C., onde grandes nações se erguiam poderosas cheias de maravilhas e a magia ainda era presente e forte no mundo, fazendo parte da vida das pessoas. Nessa parte temos a volta de Ablon, o protagonista de A Batalha do Apocalipse e temos aquela sensação nostálgica de voltar a ler esse livro com essas passagens mais épicas e místicas de uma era esquecida. Ablon fora enviado à Haled para capturar Metraton, juntamente com Ishtar, uma querubim pertencente à legião comandada por ele, porém precisará localiza-lo, e para tal é aconselhado atraí-lo derrotando os “Três Pilares”, anteriormente sentinelas escolhidos pelo próprio Primeiro Anjo, que agora enlouquecidos pelo poder se portavam como deuses vivos. Há que se dizer que o Ablon de Paraíso Perdido é diferente do Ablon de A Batalha do Apocalipse, neste livro começamos a ver essa passagem do soldado para o herói, mostrando o começo da jornada que transformaria o anjo no que ele se tornou em ABdA.

Na terceira parte, “Viagem ao centro da Terra”, acompanhamos os heróis no tempo presente em uma viagem ao Sheol para achar uma via até o Hades, onde se encontra Metatron, e entrecortando os capítulos passados no tempo presente da história temos também o prosseguimento da missão de Ablon atrás de Metatron, o que dá um ritmo bem dinâmico que leva ao clímax da aventura.

“Na Haled, nada é perfeitamente claro ou perfeitamente escuro, como se sucede em outros planos de existência. Aqui, a dualidade está presente em tudo, e são dois aspectos que se complementam – não há dia sem noite, vida sem morte ou bem sem mal. Com frequência, portanto, aqueles que caminham sobre o planeta são forçados a tomar decisões, às vezes críticas, e a agir com astúcia para distinguir o certo do errado.”

Esse é mais mitológico, tem uma pegada mais próxima a do A Batalha do apocalipse e mergulha em fontes dos mitos hebraico-cristãos, nórdicos, gregos, hindus e até com toques da cultura popular e de inspirações em outras obras com seus próprios universos, como a mitologia do terror cósmico das obras do escritor H.P. Lovecraft. Aproveitando desse universo em que anjos convivem com deuses de mitologias diversas, com criaturas demoníacas e com espíritos, Spohr incorporou algo mais do que simplesmente a noção dessas divindades e seres fantásticos como parte de religiões e crenças, mas também da própria forma que os mitos servem para nos guiar, dando forma aos nossos medos, sonhos, anseios, mostrando nossas características mais sutis as mais evidentes, servindo como um espelho para nós mesmos.

“No âmago de cada homem ou mulher há um gigante, ela pensou, dentro de cada ser humano há um anão ganancioso, um lobo faminto, um príncipe honrado, uma rainha nostálgica e uma guerreira impetuosa. Então, uma voz soou algures em seu espírito, declamando uma frase que ela certamente escutara, só não sabia onde, nem quem, ou o quê, a tinha pronunciado: “Todos os mundos, céus e infernos vivem eternamente dentro de nós.”

Acho que já tinha dito em uma outra resenha sobre essa trilogia que há muitos clichês nos livros, o que para alguns pode ser ruim, tem gente que só de ouvir essa palavra ou ver algum já se coça todo e tem uma atitude um pouco negativa, mas como já disse a respeito esses clichês só refletem as referências usadas, e para aqueles que consumiram essas mesmas referências elas só acrescentam se bem usadas, o que foi o caso, fora que são absolutamente comuns nesse tipo de estilo literário. Se uma pessoa gosta ou não deles, isso já é algo mais pessoal, vai de encontro com essa nostalgia trazida por essas referências que o autor pode compartilhar com o leitor ou mesmo do próprio gosto do leitor.

 “[…] certas coisas precisam ser feitas, independentemente do nosso coração.”

 Algumas coisas precisam ser feitas apesar do nosso coração, e ainda que eu goste do livro ele não é imune a críticas. Paraíso Perdido foi um livro que, para mim pelo menos, teve seus altos e baixos. Algumas coisas me surpreenderam, já outras nem tanto. Certas lutas foram épicas, outras não me chamaram tanto a atenção assim. Alguns personagens eu gostei bastante dentro da série, especificamente nesse livro foram o Gabriel e o Rafael, apesar de breves passagens foram muito marcantes, assim como o Primeiro Anjo, Rei dos Homens sobre a Terra, Metatron, mas confesso que não senti muita simpatia por Urakin, talvez por ele até ser um personagem bem “comum”, não marcou tanto e também pela galera de Asgard, que como disse anteriormente, para mim destoou um pouco do andamento que os livros da série estavam tomando.

 

herdeiros_de_atlantida

A trilogia Filhos do Éden

Um bom livro dentro de uma série muito boa, ainda que não tenha achado que superou o anterior, para mim o melhor da trilogia e talvez até o melhor do autor, mas mesmo assim ele trás de volta aquela nostalgia de quem já tinha lido A Batalha do Apocalipse junto com a vontade de ver como terminaria essa história, e vejo este livro não apenas como ele próprio, mas como uma parte que compõe o todo, e falar dele é falar em si da trilogia, e até mesmo a própria impressão que se tem dele passa pela percepção de toda a história de Filhos do Éden, que é uma grande jornada dentre desse vasto mundo criado pelo Spohr, e como diria o Denyel: “[…] quando você está em uma jornada e o objetivo vai ficando mais próximo, você percebe que o verdadeiro objetivo é a jornada.”. Não sei se consigo julgar o livro por ele mesmo, para mim não importa muito o final, só de ter lido Filhos do Éden já valeu a pena.

 

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