Drácula – Bram Stoker

Livros sobre vampiros já existiam antes, Drácula de Bram Stoker não foi o pioneiro, antes de mais nada há que se dizer isso, eles não apenas existiam nas lendas antigas que o autor se inspirou fortemente, sobretudo nas lendas do folclore do Leste europeu, para dar vida ao seu, com o perdão do trocadilho, imortal personagem. O livro publicado em 1897 se tornou a base para tudo o que viria a seguir sobre a criatura noturna, tornando o Conde Drácula um dos personagens mais famosos da literatura, e também em outras mídias, entrando para a cultura pop como o arquétipo do vampiro. O livro em si traz bem todo aquele clima da Inglaterra Vitoriana, com aquele tom sombrio e com um misticismo forte, em contraste com a ciência que tenta desafiar esses fenômenos, algo que dominava o pensamento da época, que ao mesmo tempo em que a ciência avançava a passos largos, ainda se tinha muita crença nesses fenômenos paranormais que procuravam estudar e entendê-los, mesmo aqueles que hoje em dia são absolutamente desacreditados, alguns até taxados como charlatanismo, mas que na época geravam discussões e alimentavam o imaginário popular. Poucos livros transmitem tão bem esse clima de nebuloso carregado de mistério quanto Drácula.

“Não sabe que há coisas que não compreende, mas que existem; não percebe que algumas pessoas enxergam aquilo que outras não veem? Existem coisas novas e velhas que não podem ser contempladas pelos olhos dos homens, porque estes sabem de outras coisas que outros homens lhes disseram. Ah, o defeito de nossa ciência é o de querer explicar tudo; quando não encontra explicação, diz que nada há a explicar. Contudo, vemos diariamente ao nosso redor o florescimento de novas crenças que se julgam novas, mas que são apenas antigas, pretendendo ser novas… assim como as finas damas da ópera.”

Esqueçam o vampiro emotivo que se apaixona pela jovem e sofre de amor, mesmo sendo uma criatura que atravessa eras e esteja acostumada com a perda. Esqueçam também o Van Helsing porradeiro que tem ares de super-herói ou vampiros que bebem todo o sangue do corpo de uma pessoa em uma golada só. Drácula é antes de mais nada um monstro a procura de presas, e essa proximidade do instinto mais primitivo dele que o coloca como o vilão da história, bem diferente do ser atormentado que é mais explorado pela mídia hoje em dia. Ele é poderoso, tem força sobre-humana, pode se transformar em animais e em névoa, porém também possuí fraquezas, como pelas já conhecidas luz solar, alho e por objetos sacros, entre outras, afinal é uma maldição, pressupõe-se que perdem muito por terem se tornado vampiros, no caso a aversão ao sol e aos símbolos sagrados colocam em evidência que esta é uma criatura das trevas.

“Permita-me dizer-lhe, amigo, que hoje a ciência elétrica realiza coisas que teriam sido consideradas absurdas pelos próprios descobridores da eletricidade, e que estes mesmos teriam sido queimados como feiticeiros, não muito tempo atrás. Há sempre mistérios na vida.” 

A história nos leva até as sombrias terras da Transilvânia, onde se fica o castelo do Conte Drácula, que deseja comprar uma propriedade em Londres, e para cuidar de tal assunto o Conde Drácula contrata uma firma de advogados que envia o jovem advogado Jonathan Harker para o castelo de Conde para tratar de todas as minúcias do negócio, agindo como um agente imobiliário. Logo fica claro o interesse do Conde Drácula em Harker, por ele representar algo que ele almeja, ele quer se misturar na sociedade inglesa, se passando por um homem urbano, moderno, vivendo despercebido na cidade que na época representava o centro do mundo, e Harker é quem possibilita ele conhecer mais sobre a Inglaterra e sobre o estilo de vida dos seus habitantes. Logo Harker começa a notar as coisas estranhas que rondam o castelo e a própria figura misteriosa do Conde, e também percebe que ele já não era mais um convidado, na verdade era um prisioneiro.

Entrementes, Mina Murray, a noiva de Jonathan, aguada ansiosa a volta do seu noivo da Transilvânia, enquanto sua amiga Lucy Westenra adoece, ficando cada vez mais pálida e piorando a cada dia, e o leitor dessa resenha já deve ter adivinhado o motivo do súbito mal que se abateu sobre Lucy. Alguns amigos (leia-se pretendentes) dela, ao não saberem do que se tratava a tal doença, resolvem pedir ajuda ao famoso Dr. Abraham Van Helsing, que logo começa a suspeitar que a tal “doença” na verdade era consequência dos ataques de um vampiro. Lucy acaba morrendo e se transformando em uma das tais criaturas e Van Helsing não vê alternativa a não ser acabar com essa existência maldita e dar o descanso merecido à alma de Lucy, e para realizar tal tarefa recebe a ajuda dos amigos da moça, que agora passam a ter certeza da existência dessas criaturas sobrenaturais. Não demora muito para Drácula procurar outra vítima, e o alvo desta vez é Mina, o que leva os protagonistas a tentarem encurralar o vampiro e evitar que ela tenha o mesmo destino de Lucy.

“Quando se transformam nisso, cai sobre eles a maldição da imortalidade: não podem morrer, mas são obrigados a prosseguir século após século, adicionando novas vítimas e multiplicando os males do mundo. Todos aqueles que morrem como presas de um Não Morto se tornam também Não Mortos e por sua vez procuram novas vítimas. Assim, o círculo se estende cada vez mais, como as ondas de uma pedra que se atira na água.”  

Escrito em formato epistolar, com a história contada através dos relatos de diversos personagens na forma de trechos de diários, cartas, bilhetes, memorandos, etc., acaba-se colocando diversos pontos de vista, apesar de não se diferenciarem muito, até pelo tom mais formal que as conversas e escritos da época possuíam, diferente dos modos diversos que as pessoas acabam escrevendo hoje em dia. Desse modo segue-se a linha da narrativa, porém acompanhando diversos acontecimentos, sem se prender a um personagem-guia que fixa a história em um só ponto ou evento. A forma com que o livro é escrito também passa uma dramaticidade maior para obra, dando contornos mais “realísticos”, como se você estivesse lendo recortes de alguns relatos, quase como se fosse juntando as peças de um quebra-cabeça para compreender a história em sua totalidade, isso ainda aliado à descrição dos cenários que passam todo o clima sombrio e místico da história, para mim especialmente na parte do castelo do Conde Drácula, no navio e principalmente nos trechos do Dr. Seward com o seu paciente Renfield.

“Meu homicida maníaco é muito estranho. Terei de inventar nova classificação para ele e chamá-lo de zoófago (comedor de vidas) maníaco; o que ele deseja é absorver tantas vidas quanto possível e propôs-se realizá-lo de modo cumulativo. Deu muitas moscas a uma aranha e muitas aranhas a um pássaro; depois queria ver um gato comer os muitos pássaros. O que teria feito em seguida?”

A história ganhou várias adaptações para o cinema, desde a década de 30 (Não estou contando Nosferatu, pois este apesar de ser uma adaptação da obra, alterou algumas coisas por conta de direitos autorais) até os dias atuais, inclusive com grandes atores no papel do vampiro mais famoso de todos os tempos, como Christopher Lee (E o Leslie Nielsen!), mas talvez o filme mais conhecido dentre todas essas adaptações seja o filme de 1992 dirigido por Francis Ford Coppola, Drácula de Bram Stoker, com Gary Oldman encarnando o vampiro, além de um elenco de peso com nomes como Anthony Hopkins, Keanu Reeves e Winona Ryder. Esse filme é até o mais fiel à obra original, e é bem legal, porém ainda sim se distância um pouco do livro, principalmente o final, que convenhamos, foi o que mais pecou nessa versão cinematográfica.

gary-oldman-dracula

Gary Oldman como Drácula, no filme de 1992

O personagem se tornou mais forte que o escritor, mais forte até do que a própria história, servindo de base para muitos filmes, seriados, livros, jogos HQs, entre outras tantas mídias diversas, além de ser base para o próprio mito do vampiro moderno. Drácula em si é a releitura de uma mitologia virando uma nova mitologia, que constantemente se reinventa e até vai se afastando do original, mudando de face, porém o personagem de Bram Stoker continua e continuará por muito tempo povoando a imaginação das pessoas, e certamente ainda será o arquétipo do vampiro, aquela imagem que automaticamente se forma na cabeça de todos ao se falar dessa criatura da noite.  De fato ele é um morto-vivo, não tendo uma vida real, porém ainda sim existindo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s