Mistborn: O Poço da Ascensão – Brandon Sanderson

O Poço da Ascensão é o segundo volume da trilogia Mistborn: Nascidos da Bruma, escrito pelo autor Brandon Sanderson, sendo o sucessor do fantástico O Império Final, um dos livros de fantasia que mais me chamaram a atenção nos últimos tempos.

o poço da ascensão

Um ano se passou desde a morte do Senhor Soberano, o deus e governante do Império Final, e agora Elend Venture é o rei do Domínio Central, porém as coisas não estão tão fáceis para ele, além do desafio de conseguir administrar os recursos e a política interna de Luthadel, que começa a tentar erguer uma política diferente da praticada há mil anos e que deixou marcas profundas na mentalidade do povo, ele também tem de se preocupar com outros nobres que desejam se aproveitar dessa lacuna de poder e tomar proveito da nova situação em que o mundo se encontra após a queda daquele que era o deus e o governador absoluto de tudo, tanto dentro da cidade quanto nos demais territórios do antigo Império Final, para um melhor entendimento é só pensar no que aconteceu quando o Império romano caiu e acabaram surgindo vários pequenos “reinos” com seus próprios governadores. Enquanto isso Vin se desdobra para proteger Elend dos assassinos que são mandados para dar cabo da vida do novo rei.

Dentro dos muros da cidade, Elend acaba percebendo que mesmo as boas intenções podem resultar em complicações, e apesar de seu idealismo para criar uma cidade com um governo mais igualitário que dá voz ao povo, criando leis e uma Assembleia formada por nobres, mercadores e skaas, ele acaba enfrentando disputas e jogos políticos que podem dar fim ao seu reinado. Bem, nem sempre fazer o que se acha melhor é o melhor que se tem a fazer. Mas como desgraça pouca é bobagem, ele tem de lidar com a ameaça de exércitos que cercam a cidade e querem tomar o reino à força, subjugando o povo e impondo as suas próprias regras, quase como se estes nobres mais ambiciosos tentassem se erguer como uma versão menos poderosa e divina de novos Senhores Soberanos.

Um desses exércitos é formado por ninguém menos que Straff Venture, o pai de Elend, que conta ainda com a ajuda de um misterioso Nascido das Brumas, conhecido como Zane. Outro exército que cerca a cidade é de Ashweather Cett, um nobre que também deseja Luthadel pela riqueza que supostamente ela teria, o atium do Senhor Soberano. Por último, mas não menos importante, temos a ameaça vinda de um antigo amigo de Elend, Jastes Lekal, que marcha para a cidade com um exército de koloss, criaturas imensamente fortes, grotescas e violentas que de alguma forma parecem seguir as ordens de Lekal.

Pessoalmente gosto do clima de cerco em volta de cidades com todo aquele nervosismo pré-batalha, a preparação dos recursos, a tensão dos habitantes, etc., e tudo isso é bem descrito no livro, mas vale a pena descrever o motivo da cidade estar sitiada, que não é apenas porque esta era a maior cidade do Império Final, mas sim por conta de todo o atium do Senhor Soberano que se acreditava estar guardado na cidade. Vale lembrar que o atium é o metal que permite aos Nascidos das Brumas terem um vislumbre do futuro, antecipando-se facilmente aos ataques inimigos e proporcionando oportunidades de ataques fatais, em suma o atium é a única arma que um Nascido das Brumas pode usar para combater outro Nascido das Brumas que está queimando atium, caso um deles esteja queimando esse metal e o outro não, é praticamente certo que aquele que está usando atium vá vencer seu oponente. Esse metal era a esperança do grupo de Kelsier graças a seu alto valor de mercado que poderia manter a cidade, mas nunca fora encontrado, e o pouco que Vin possuía para se proteger também se esgota. Outro metal ganha importância no livro, dessa vez é uma nova liga, o duralmínio, que proporciona um aumento rápido de poder quando queimado com outro metal alomântico.

Entrementes, há algo de diferente nas brumas, elas começam a surgir também durante o dia, onde antes elas simplesmente sumiam com os primeiros raios de sol, além de relatos de que elas atacaram e mataram alguns skaas. Talvez realmente o Senhor Soberano falasse a verdade sobre ele estar protegendo o mundo de algo mais sombrio e poderoso. Essa mudança também é percebida por Vin, que aos poucos nota certos padrões nas brumas, quase como se fossem figuras humanas e começa a sentir pulsações que a chamavam, viriam elas do tal o Poço da Ascensão?

Ainda são mantidos os pequenos textos no início dos capítulos, porém desta vez o registro é feito por Kwaan, o homem que descobriu Alendi, aquele que se acreditava ser o Herói das Eras, e aquele que foi traído, morto e teve o seu lugar tomado pelo Senhor Soberano. Ficamos sabendo mais sobre o período pré-Ascenção com esses escritos, a exemplo do diário de Alendi e assim como no livro anterior esses textos são bem importantes, é um detalhe que merece ser visto com cuidado.

Esse livro é mais sangrento que o anterior, com batalhas ainda maiores e melhores, então quem gostou das lutas no Império Final vai certamente gostas das deste livro, elas são até mais frequentes e mais épicas.  Confesso que não gostei tanto do aumento de poder da Vin, apesar de que ela sempre foi vista como especial, porém em alguns momentos esse poder todo fica muito excessivo, mas para quem gosta de algo mais grandioso, mais imponente essa pode até ser uma qualidade.

Gostei de outro ponto, a questão da mudança de mentalidade que demora a acontecer, principalmente entre os skaas rurais, apesar de Sazed se esforçar para mudar isso, toda uma vida sob regras e crenças extremamente arraigadas no cerne dessas pessoas não seriam abandonadas facilmente, é algo pequeno, mas que faz a diferença dentro da construção desse mundo. Há também uma mudança de mentalidade que é até natural pelo desenrolar que a história tomou no fim, falo do culto em torno de Kelsier, que neste livro é algo que tem lá a sua importância e mostra ainda a presença constante dele e de tudo o que fez. Ele ainda é muito presente nesse mundo, é uma sombra que sempre paira sobre todos, e isso acaba refletindo na religiosidade do povo e na maneira como eles veem aqueles que os libertaram, sendo uma fonte de esperança para o povo, exatamente como ele mesmo planejara. Não é só Kelsier que ganha ares de um novo deus, substituindo um pouco o que o Senhor Soberano era, Vin agora é conhecida pelos skaas mais religiosos como a Lady Herdeira e até Sazed ganha um título, o de Primeira Testemunha Sagrada. Isso é um detalhe interessante, pois até nisso Kelsier acaba por sobrepujar o poder do Senhor Soberano, tendo a sua rebelião um efeito mais forte na libertação dos skaas até mesmo na parte das suas crenças.

Há também mudanças em alguns personagens, algumas foram muito boas, outras eu já não gostei tanto assim, e talvez a que seja mais evidente é a que Elend acaba tendo no decorrer da história para aprender a se portar como um rei, para isso Tindwyl, uma terrisana amiga de Sazed, ensina a Elend a se portar como um comandante, mudando sua postura, seu visual, e consequentemente como as pessoas acabam o enxergando, e reflete positivamente até mesmo na confiança que ele tem em si mesmo. Mesmo com a mudança de postura ainda não consigo gostar do Elend, e o relacionamento dele com a Vin nesse livro, que chega a ser meloso, não ajudou muito. Fantasma é um que mudou muito de um livro pro outro, porém não achei que foi pra melhor. Agora o Brisa foi um que ganhou muito destaque e teve a personalidade aprofundada, se tornando um dos melhores personagens desse livro, e a relação dele com o Trevo também ganha pontos positivos. “OreSeur” cresceu como personagem, e a relação entre Vin e o kandra é uma das melhores coisas do livro. Ainda falando de personagens que merecem ser mencionados, não poderia deixar de falar do Zane, principalmente durante as suas interações com o Straff Venture, além do já conhecido Sazed, que também é um dos que me agradaram bastante nesse livro.

Começa meio morno e vai esquentando ao se aproximar do final, a exemplo do livro anterior, porém há que se dizer que o início e o meio não são cansativos ou ruins, na verdade Sanderson constrói bem o clima para o final e não perde a atenção do leitor em momento algum. Repleto de batalhas épicas, intrigas políticas dentro dos muros da cidade que a põe em perigo tanto quanto os exércitos fora deles, com uma reestruturação da política local, novas ameaças mais urgentes mundanas e algumas mais místicas e intangíveis, não dá espaço para enrolação (bem, talvez na melação que é a relação entre o Elend e a Vin) e se mantém em um bom ritmo até o clímax final. Ainda gosto mais do primeiro livro, tenho que dizer isso, e o acho até melhor que O Poço da Ascensão, porém isso não significa de forma alguma que este é um livro inferior, essa palavra não se encaixaria em qualquer tipo de definição que tente se colocar neste livro, ele mantém a qualidade do primeiro e continua excelente, mas convenhamos, Kelsier foi tão marcante em O Império Final que é difícil não sentir a falta dele.

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3 comentários sobre “Mistborn: O Poço da Ascensão – Brandon Sanderson

  1. Já li “O Império Final” e o considero nº2 no meu Top 5 de leituras desse ano, antecedido por: “It: A Coisa” e sucedido por: “O Último Reino”, “O Nome do Vento” e “O Filho do Dragão”.
    Achei incrível o modo como o Brandon criou os sistemas de magia do livro.

    “O Poço da Ascensão” está na minha lista de leituras de 2016. Espero desbravá-lo e gostar dele o tanto quanto você gostou.

    Abraços!
    http://www.bravuraliterariablog.blogspot.com.br

    Curtido por 1 pessoa

    • Olá Phelipe! Eu tb gostei bastante do primeiro livro, tanto dos sistemas de magia, quanto da metralhadora de revelações no final, foi algo bem construído e que não deixou na cara o que iria acontecer, e, para mim, manter o leitor surpreso a cada página é uma das melhores qualidades que um autor pode imprimir em sua escrita. Pode ler sem medo, mantém a qualidade do primeiro, embora eu ache o primeiro superior por conta da personalidade do Kelsier, mas a falta dele nesse tb abre espaço para o desenvolvimento dos demais personagens. Leia e aproveite, pq é um livraço tb.
      Abraços!

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  2. Pingback: Elantris – Brandon Sanderson | Foco de Resistência

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