Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Laranja_MecanicaEscrito por Anthony Burgess, a história de Laranja Mecânica se passa em um futuro distópico de uma Inglaterra onde o governo é autoritário e a economia do país não vai lá muito bem, assim como a segurança pública, aliás, o tom da extrema violência, principalmente juvenil, é algo totalmente banal, e as pessoas acatam tudo isso de uma forma apática e fatalista. Neste mundo vive Alex, o orgulhoso, egocêntrico, violento e petulante protagonista e narrador dessa história, que passa os seus dias com seus “druguis” Georgie, Pete e Tosko cometendo roubos, estupros espancamentos, e todo tipo de “ultraviolência”, ou bebendo leite com drogas. Até que em uma dessas suas “diversões” ele acaba matando uma senhora, e, traído pelos seus companheiros, acaba preso.

Para sair logo da prisão Alex aceita ser cobaia de um novo método, conhecido como Ludovico, que fora desenvolvido para ser um procedimento de “reeducação comportamental”, visando eliminar o comportamento violento dos indivíduos. Esse método consistia em uma espécie de condicionamento pavloviano que acaba por causar desconforto sempre que se presencia qualquer ato violento, o que impede que se cometa qualquer tipo de ação mais grave nesse sentido, porém também retira-se como efeito colateral, as ações mais violentas que usamos como forma de nos defendermos de qualquer tipo de ameaça. Deste modo Alex é “robotizado” para andar na linha, não por escolha própria, mas por esse tipo de persuasão a qual foi submetido.  Liberto, para demonstrar o sucesso que era esse procedimento, Alex acha que vai retomar a sua antiga vida, porém as coisas não são bem como ele pensava que seriam e toda a violência que um dia ele já cometeu acabam se voltando contra ele mesmo.

O livro divide-se em três partes, na primeira acompanhamos a vida de violência do protagonista e conhecemos esse mundo ao qual ele pertence, na segunda parte vemos Alex na sua vida na prisão e o tratamento a qual ele é submetido e na terceira acompanhamos ele fora da prisão dando de cara a todo o momento com seu passado, quase uma espécie de karma, com a violência que ele cometeu voltando para si mesmo. Uma curiosidade é que cada parte é composta de sete capítulos, totalizando 21 no total, que em alguns países é a idade considerada como a que uma pessoa atinge a maioridade, e está ligada diretamente com o último capítulo, mas desse spoiler eu pouparei os leitores dessa resenha. Vale lembrar que esse capítulo acabou não sendo publicado nas primeiras edições americanas, versão que serviu como base para a adaptação cinematográfica dirigida pelo Stanley Kubrick, por isso o final do filme é diferente do final do livro.

A história nos é narrada por Alex, mostrando a sua visão dos fatos, o que ajuda a algumas pessoas a terem empatia por ele, mesmo ele sendo uma canalha de primeira. É praticamente um diário do Alex, e ele trata o leitor como amigo, como talvez aquela única pessoa que o pudesse entender. Agora talvez um pequeno choque para alguns que amaram tanto o protagonista, eu não consegui em momento algum me afeiçoar a ele, e sinceramente não o vejo como um anti-herói, ele apenas faz o que quer e não luta contra aquele sistema, na verdade ele faz parte daquela vida tanto quanto qualquer outro político corrupto, governantes autoritários que se impõe pelo poder ou um adulto apático, ele não luta por causa alguma, ele apenas vive para si mesmo, para saciar suas vontades, e se por um lado ele é responsável pela derrocada método Ludovico, não é por idealismo ou mesmo por uma vontade de fazer algo de bom para alguém que não ele mesmo, ele é apenas usado para isso. Ele não é um modelo, é alguém usado para alguma finalidade, e interessante que ele é usado tanto para exaltar quanto para condenar o tal método. Ele não é um herói ou anti-herói, não é um revolucionário, talvez seja um produto da sua época, porém não consigo vê-lo totalmente como alguém incapaz de tomar decisões e ser apenas um jovem que se deixa levar pelo espírito de seu tempo, ele gosta do que faz, e faz o que gosta por escolha própria. Ele é o instinto puro e sem freios morais, ele faz o que quer, pega o que quer, e se sobrepõe pela força. Ele está completamente fora daqueles padrões impostos pela sociedade para que possamos justamente poder viver em harmonia sem tocar fogo em tudo. Ele é o impulso, é o Id completo que domina o Superego.

Uma das principais características da obra é o uso de um vocabulário criado pelo autor conhecido como “Nadsat”, uma linguagem usada pelos jovens do livro, que é ao mesmo tempo algo que engrandece a obra e dá a esse universo da história toda uma profundidade maior, como também é algo que deixa a leitura mais arrastada, com idas e vindas ao glossário para entender o que está acontecendo, mas aos poucos você acaba entendendo e reconhecendo essas gírias e torna-se algo que não te incomoda mais, diferente do desconforto essa linguagem causa no início. Essa linguagem também serve como uma forma de mostrar que os adultos do livro já não conseguiam mais entender o universo dos filhos, se distanciando cada vez mais deles, quase como se vivessem em dois mundos diferentes.

“Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?”

Mas enfim chego a aquele ponto que marca a obra, a questão das escolhas e do controle do estado sobre o indivíduo. O tratamento controverso ao qual o Alex fora submetido tirava todo o seu poder de escolha, sua inclinação para não fazer o mal, se dava não por suas próprias escolhas, mas pela aversão à violência que lhe fora imposta. Este método guiava Alex para apenas um caminho, era quase uma programação, uma verdadeira lavagem cerebral promovida pelo Estado, e se por um lado era para evitar o uso da violência, pode-se entender também que o Estado poderia programar os cidadãos para outros tipos de comportamento, deixando aquele mundo ainda mais sombrio. É a coisa de tentar fazer algum bem a todo custo, mesmo que cause algum mal no processo. Essa tentativa de mudar a personalidade, de reprimir emoções, de controlar reações, que torna as pessoas em “Laranjas Mecânicas”, seres orgânicos programados tal como uma máquina, tira justamente uma das características que nos faz mais humanos, a empatia. O engraçado é que os jovens já não sentiam empatia alguma por qualquer outra pessoa no livro, e o tratamento não serviu para solucionar esse problema, eles não deixavam de serem violentos e egoístas, apenas não externalizavam esse comportamento por conta da reação incômoda que sentiam. Não estavam recuperando, apenas controlando. Não curavam essa falta de empatia, os jovens não entendiam a dor dos outros, não se colocavam em seus lugares e continuavam com o seu egocentrismo e o hedonismo infantil de sempre, não mudavam, apenas eram encoleirados para seguir um padrão comportamental que o Estado ditasse. Interessante que até nisso podemos ver também algo de mecânico, de robótico, com as pessoas perdendo um pouco de sua humanidade diante a banalização da violência.

O livro é rápido, denso, confuso, ácido e causa algum desconforto, e a intenção é ser incômodo mesmo, aquele espinho na carne do leitor, ele te coloca nessa posição de observar a violência nua e crua, que era um fato normal para os jovens da história, mas não é para nós assim como te desloca do mundo daquelas pessoas com as gírias que eles falam. O leitor é colocado na mesma posição que os adultos do livro, a de não conseguir compreender o mundo daqueles os jovens delinquentes, porém nós diferente daqueles adultos apáticos podemos muito bem refletir sobre essa condição e não nos tornarmos também laranjas mecânicas, tanto por controle de um agente centralizador do poder ou mesmo por nos transformar em seres passivos a toda essa violência crescente que tira toda nossa empatia e nos deixe cada vez mais centrados em nós mesmos.

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5 comentários sobre “Laranja Mecânica – Anthony Burgess

  1. Nunca tinha tido contato com o livro, apenas o filme. Parece ser uma história bem chocante e diferente do que geralmente se é escrito. Sua resenha me despertou um interesse maior ainda em ver o filme e ler o livro.
    Gostei muito do post.
    ;*

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    • Obrigado Raphaella, o livro tem suas diferenças do filme, embora isso não diminua o outro. O final do livro é diferente, e pessoalmente acho estranho aquela pegada pop art anos 60 que o filme tem, o livro tb passa mais a ideia de que a violência não tem esse tom quase poético que há no filme, ou pelo menos tanta passar, pq infelizmente a galera meio que fica cega pelo Alex e ficam só na primeira camada de controle pelo Estado e perdem muito do que o Burgess quis passar com essa história. Pode começar a ler sem medo, mas prepare os marcadores pro glossário, pq até pegar as gírias que o autor usa, olha, vai levar tempo.

      Curtido por 1 pessoa

    • Valeu pela lembrança Beatthriz, mas vou te confessar que não sou muito de tags, uso o blog mais como hobby usando o espaço para publicações de resenhas e opiniões, até acho legal, mas não é muito a minha praia. Mas de qq forma eu fui lá dar uma olhada e agradeço pela indicação 🙂

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  2. Pingback: Distopias Literárias – Primeira Parte | Foco de Resistência

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