Os Filhos de Húrin – J. R. R. Tolkien

Filhos de HurinEu já tinha achado esta uma das melhores narrativas quando a li em O Silmarillion e também quando a li em Contos Inacabados, embora nos referidos livros essa história esteja em uma versão mais resumida e em Os Filhos de Húrin, obviamente, a história é maior. Uma coisa a se dizer é que não cansa ler e reler essas versões da mesma história, de tão bem feita e interessante que ela é, gostaria que houvesse também uma versão maior da história de Beren e Lúthien que é tão boa quanto ou talvez até melhor que a história dos filhos de Húrin. Vale ressaltar também que o J. R. R. Tolkien vivia reescrevendo as suas histórias, às vezes por conta de pequenos detalhes, então existem diversas versões das mesmas histórias com essas pequenas diferenças entre elas, e isso só mostra que o Tolkien era de fato um escritor muito perfeccionista que, até pelo seu amor pelo seu trabalho, queria que este ficasse o melhor possível. Devemos agradecer também, mais uma vez, a Christopher Tolkien, filho do escritor, que manteve ainda mais vivo do que nunca todo o legado de seu pai, tendo todo esse trabalhão de organizar todas as versões dessa história, procurando dar a maior coerência possível entre todas essas informações que foram escritas e reescritas através dos anos e publicar para que o público pudesse ter essa grande oportunidade de conhecê-la.

Temeroso que sou com a questão de spoilers e com a possibilidade de começar a contar aqui a história completa, tentarei ser o mais breve possível, pois não quero estragar a experiência de ninguém ao ler o livro ou mesmo alguma das versões que podem ser encontradas em outras obras do Tolkien.

A queda de um grande reino, traições, uma espada mágica forjada de um meteoro, um dos mais temidos dragões da Terra-Média, batalhas épicas, personagens incríveis e escolhas que levam a um terrível destino dão o tom dessa que é uma das mais marcantes narrativas da Primeira Era.  Em “Os Filhos de Húrin” é narrada a história de Túrin Turambar, filho de Húrin e herdeiro das terras de Dor-Lómim. Túrin é o herói trágico grego que Tolkien criou, com o arquétipo típico desse tipo de herói: corajoso, nobre, orgulhoso, astuto e também referente ao fato de tentar enfrentar um destino trágico por conta de uma profecia, mas que ao tentar escapar desse presságio, se aproxima cada vez mais daquele destino profetizado. Isso fica claro, tanto na repetição do tema “destino”, quanto das próprias profecias que são ditas nessa história, sobretudo com o que Gwindor diz a Túrin, e pelo feitiço colocado pelo do dragão Glaurung, quando este fala ao herói sobre a sua família.

Húrin vai lutar contra as forças de Morgoth em uma batalha que ficou conhecida como “Nirnaeth Arnoediad”, que significa “A Batalha das Lágrimas Sem Conta”, onde as forças conjuntas de elfos e homens são derrotados pelas hostes de Angband. Húrin acaba sendo capturado com vida e levado à presença de Morgoth em Angband, pois o Senhor do escuro procurava saber a localização de Gondolin, onde Húrin já estivera antes. Morgoth tortura Húrin para obter a informação, porém não consegue persuadi-lo a dizer, pois Húrin se mantém inabalável. Morgoth então amaldiçoa a sua família e o prende em um lugar alto nas Thangorodrim, forçando-o a olhar sempre para as suas terras em Hithlum, assistindo impotente o mal abater sobre a sua família.  Deste modo, com a maldição de Morgoth sobre a linhagem de Húrin, os destinos de seus filhos Túrin e Nienor acabam sendo entrelaçados, e seus caminhos acabam levando os dois a uma trágica sina.

A mãe de Túrin o envia escondido para Doriath, para o rei Thingol que o acolhe como um filho adotivo em Menegroth, o seu palácio. Lá ele viveu e aprendeu com os elfos durante boa parte de sua infância e adolescência, porém já quando adulto acaba entrando em conflito com Saeros, um elfo que era conselheiro do rei e não gostava de Túrin. Saeros o ataca sorrateiramente, mas acaba não sendo um adversário a altura para Túrin e perde o combate, e ao ser humilhado por Túrin tenta fugir acaba morrendo. Túrin então foge de Menegroth para não ser julgado, temendo que não entendessem o motivo dele ter lutado contra Saeros, e foge como um fora-da-lei, embora posteriormente fosse perdoado pelo rei, quando Thingol fica sabendo que Saeros não apenas provocara Túrin, como tentou matá-lo.

A partir da sua fuga inicia-se então todos os seus maiores infortúnios e as rodas do destino começam a girar. Túrin torna-se líder de um bando de proscritos, é feito de prisioneiro por orcs, e logo quando é salvo por um grande amigo uma grande tragédia se abate sobre ele nesse encontro. Ele ainda é levado a Nargothrond, onde ganha grande estima entre os moradores do local, porém a fortaleza fundada por Finrod logo acaba por ser destruída pelo dragão Glaurung, o inimigo que irá guiar Túrin em direção ao seu destino final.

Uma coisa que pode confundir um pouco o leitor é a constante troca de nomes de Túrin, seja por conta dos nomes que ele passa a ser reconhecido por inimigos e amigos, seja por tentar mudar a sua sina, ou mesmo pelos nomes que ele se apresenta para não ser reconhecido como Túrin, filho de Húrin. São eles: Neithan (O Injustiçado), Gorthol (Elmo do Terror), Mormegil (Espada-Negra), Agarwaen (Sujo de Sangue), Thurin (O Secreto), Adanedhel (homem-elfo), Homem Selvagem dos Bosques e Turambar (Senhor do Destino).

É fluída a escrita, ela não é tão cansativa como em O Senhor dos Anéis, que é arrastada em certos pontos e leve em outros. O livro é excelente, a história é envolvente apesar de trágica, certamente é uma das melhores histórias sobre a Terra-Média.  Essa é uma das histórias mais sombrias dentro desse universo tolkiniano, e é quase impossível não fazer uma associação com as famosas tragédias gregas, sobretudo a famosa história de Édipo, mas isso se dá também pelo amor de Tolkien pelos vários mitos, e não apenas nórdicos e cristãos, já que há até algo de Rapunzel na história de Beren e Lúthien. São essas referências que criam algo novo e tão impactante e com um ar mitológico tão forte como esses contos antigos que dão esse encantamento todo sobre toda a História dento da Terra-Média.

Vale muito a pena ler esse livro, sobretudo para quem é fã de Tolkien ou de fantasia em geral. Para aqueles que não conhecem muito de Tolkien, ela é muito boa por ser uma história que dá para ler e entender bem sem precisar conhecer muita coisa da Terra-Média, também para ver uma história onde o protagonista é um humano ou mesmo para ver esse contorno mais sombrio que geralmente não é associado com as histórias do Tolkien. E claro, vale também porque é uma história sensacional.

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