Mistborn: O Império Final – Brandon Sanderson

Mistborn_O_Império_FinalSempre que via algo relacionado ao livro Mistborn: Nascidos da Bruma – O Império Final, o primeiro de uma trilogia escrita pelo autor Brandon Sanderson, eram elogios. Muitos elogios. Geralmente fico meio cético quando há esse hype todo em cima de algum livro, não sei se ele é de fato bom ou se essa opinião positiva não é fruto de uma indução por outras opiniões simpáticas que levam as pessoas a terem uma mesma percepção para não fugir da opinião geral, é quase um senso comum que se forma misturado com algum tipo de fanatismo, e isso não raramente taxa livros medianos como bons ou até geniais, já que as pessoas seguem mais essa percepção geral do que a sua própria. Felizmente não é esse o caso, Mistborn: O Império Final é de fato um livro excelente.

“Como podiam sequer pensar em resistir ao Senhor Soberano? Ele era…, bem era o Senhor. Governava todo mundo. Era o criador, o protetor e o punidor da humanidade. Salvara-os das Profundezas e trouxera as cinzas e as brumas como castigo pela falta de fé das pessoas.”

A história se passa na cinzenta cidade de Luthadel, a capital do Império Final, onde reina o Senhor Soberano, um ser imortal de poder esmagador que governa há mais de mil anos, e é tratado como um deus, um ser que derrotara as “Profundezas” e salvara a humanidade, mesmo criando um sistema de governo tirânico que mantinha com punhos de ferro. Esse sistema de governo dividia a população basicamente entre duas castas, os nobres, que viviam uma vida luxuosa e que descenderiam daqueles que apoiaram o Senhor Soberano e por isso ganharam uma posição privilegiada – embora este ainda os controle por meio de seus Obrigadores e Inquisidores-, bem como também como obtiveram certos poderes que falaremos mais adiante. A outra casta é a dos skaa, os escravos pertencentes ao Senhor Soberano que a nobreza usava para realizar suas atividades e que não enxergavam como pessoas de fato, apenas como ferramentas para seu uso. Os skaas viviam uma vida miserável, trabalhando muito, se alimentando pouco, sendo muito castigados, podendo ser mortos por qualquer capricho de seus senhores e com constante medo. Desde que o Senhor Soberano subira ao poder caia incessantemente cinzas dos céus, bem como uma densa bruma cobria que surgia à noite e que aterrorizava os skaas, acreditando que espectros surgiam com elas.

Nesse terrível mundo conhecemos Kelsier, “O Sobrevivente de Hathsin”, um ladrão que pretende pôr fim a tirania do Senhor Soberano e derrubar o Império Final. Ele se junta a um pequeno grupo para tentar fazer o impossível que é derrubar esse sistema milenar, para tal ele pretende aplicando um grande golpe, roubando um mineral raro que era usado pelo Senhor Soberano como uma forma de controlar a nobreza, além de fomentar disputas internas entre as casas nobres para enfraquecê-las e talvez o mais difícil dentre essas atividades absurdas, conseguir com que os skaas se revoltem, algo praticamente difícil por conta do comportamento fatalista dos skaa, que após séculos de exploração e que viram todas as suas revoltam falharem miseravelmente, já não tem mais qualquer esperança.

“Mesmo entre a nobreza, Vin, a alomancia é razoavelmente rara – Kelsier explicou – É verdade que é uma habilidade hereditária, e a maior parte de sua linhagem de poder está entre a alta nobreza. No entanto, a casta, por si só, não garante força alomântica. Muitos altos nobres só têm acesso a uma única habilidade alomântica. Pessoas assim, que só podem empregar a alomancia em um de seus oito aspectos básicos, são chamados de Brumosos. Essas habilidades às vezes podem ser encontradas em um skaa; mas só se esse skaa tiver sangue nobre de seus antepassados próximos. Em geral, é possível encontrar um brumoso entre… ah, cerca de dez mil skaa mestiços. Quanto melhores, mais próximos e mais nobres sejam os antepassados, mais provável que o skaa seja um brumoso.”

Dentre o grupo de Kelsier, ele conta com indivíduos bem capacitados para a tarefa, mas aquela que talvez possa ser a chave para a criação desse novo mundo é a desconfiada Vin, uma garota que era fazia parte de um grupo de ladrões e assim como Kelsier é uma “Nascida das Brumas”. Creio que esse é o ponto para começar a falar daquela que talvez seja a maior das qualidades do livro, a Alomancia. Alomancia é o nome desse sistema de magia que o Sanderson criou para este livro, e ele é bem diferente de tudo o que já tinha visto no gênero, e consiste basicamente na habilidade de “queimar” metais e tirar deles poderes especiais, para tal é preciso consumir pequenas quantidades de um metal específico que lhe dará tal habilidade. É meio difícil de explicar, mas com um exemplo fica mais fácil, tomemos como base um alomântico que pode extrair poderes do peltre, metal que concede a habilidade de amplificar atributos físicos, de modo que o usuário possa ficar mais forte, mais ágil, mais resistente. Todos os que podem usar alomancia são chamados de “Brumosos”, e podem queimar apenas um metal específico, porém alguns poucos nascem com a habilidade de poder queimar todos os metais, estes são chamados de “Nascidos das Brumas”, caso de Vin e Kelsier. Os alomânticos podem ficar mais fortes, mais rápidos, aguçar seus sentidos a nível absurdos, atrair e repelir metais, abrandar ou tumultuar emoções, ou seja, eles têm uma grande quantidade de poder em suas mãos. A alomancia é algo hereditário e peculiar à nobreza, embora não necessariamente seja algo com que todos os que tenham sangue nobre nasçam, e pelo tipo de poder que ela confere, não à toa é algo que quem está no topo dessa pirâmide social não deseja que os que estão lá embaixo possam possuir, então se um nobre tem alguma relação com uma skaa, esta deve ser morta o mais breve possível para que não nasça um mestiço que possa ser capaz de usar alomancia, embora alguns mestiços consigam nascer e escapar desse destino, caso dos brumosos do bando de Kelsier.

Há outra habilidade hereditária que outros poucos indivíduos possuem, a Feruquemia, que é uma habilidade que permitia estocar alguns atributos físicos dentro de pedaços de metal, como por exemplo, estocar vigor físico ou até mesmo lembranças e pensamentos em braceletes, brincos, anéis, etc., mas era algo usado pelos habitantes de Terris, e ela também tem a sua importância dentro da história, mas só do meio para o fim do livro.

Outro grande ponto positivo diz respeito a construção dos personagens, A grande maioria deles são bem carismáticos, destacando, além dos protagonistas, Brisa, Dockson, Hammond e Sazed, embora faça uma ressalva ao Elend, o único personagem que não consegui gostar de forma alguma.

Mistborn tem vários clichês como é com Vin, a típica garota desconfiada, fruto de um passado meio traumático, que vai aprendendo a confiar nos amigos gente boa, ainda acrescentando que ela não sabe de seus poderes, mas logo se revela ser extremamente talentosa e aprende tudo bem rápido, porém o autor trabalha bem com eles, e até brinca bastante com esses clichês, não deixando o livro ficar naquele mais do mesmo que todos já estão acostumados, aliás, o livro tem um tom bem diferenciado que o afasta bastante da maioria desses livros “lugar-comum” que tanto aparecem nas estantes de fantasia. Kelsier é outro que poderia entrar nessa lista de clichês com ele sendo o “bom malandro”, com um aparente egoísmo, porém aos poucos ele também vai se tornando um personagem bem único, e certamente ele vai surpreender os leitores em várias partes, principalmente na parte final do livro.

 “- Não parece errado para você, Vin?

– Errado? – Ela perguntou.

Kelsier assentiu.

-As plantas secas, o sol abrasador, o céu negro de fumaça.

Vin deu de ombros

– Como essas coisas podem estar certas ou erradas? São como são.

– Suponho que sim – Kelsier concordou. – Mas acho que sua mentalidade é parte do que está errado. O mundo não deveria ser assim.”

O mundo criado também é outro atrativo, nem tanto pela questão das cinzas e brumas, mas sobre tudo que o cerca, desde a política até mesmo as criaturas fantásticas e bizarras que nos são apresentadas, como os espectros das brumas. Há que se falar nos temidos Inquisidores de Aço, que serviam para controlar a aristocracia, a descrição visual deles com pregos perfurando seus olhos e saindo por detrás de suas cabeças, e com intricados desenhos ao redor dos olhos é algo que serve bastante para dar um toque mais fantástico para esses vilões, que, aliás, dão um trabalho danado para os protagonistas, que mesmo sendo bem poderosos também são conscientes que não podem vencer todas as batalhas, e mesmo aquelas que podem vencer não são ganham com uso do poder em sua forma mais bruta, ele é usado de forma inteligente, com táticas e artimanhas, mais ponto positivo pro Sanderson.

Algo importante a ser dito é em relação aos pequenos textos escritos como se fossem trechos de um diário que aparecem antes de iniciar os capítulos, eles vão contando uma história paralela que aos poucos vai fazendo sentido e é importante para a história, então não pulem essas partes.

Das ruas sujas aos salões dos nobres, dos skaas oprimidos à nobreza hedonista, das gangues de ladrões aos combates épicos, Mistborn abarca tudo isso e um pouco mais, tendo um estilo de escrita bem leve e dinâmico, apesar das lutas serem um pouco confusas no início, principalmente por conta do fascinante sistema de magia que leva um tempinho para se acostumar e gravar o que cada metal pode fazer, porém uma vez acostumado não tem como não gostar dele. O começo pode ser arrastado por conta desse período de habituação a esse universo, mas o final é praticamente uma sucessão de reviravoltas que não tem como não aplaudir o autor pelo que ele acaba fazendo, e não tem como adivinhar o que te espera, afinal meus amigos, “Sempre há outro segredo”.

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2 comentários sobre “Mistborn: O Império Final – Brandon Sanderson

  1. Pingback: Mistborn: O Poço da Ascensão – Brandon Sanderson | Foco de Resistência

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