Distopias Literárias – Segunda Parte

livro-1984-george (517x800)Dando prosseguimento a primeira parte sobre distopias literárias, vamos então falar de mais algumas que certamente não poderiam deixar de aparecer em qualquer lista que se preze sobre o tema, então, sem perder mais tempo com introduções, vamos logo falar daquela que talvez seja a mais famosa de todas elas e que é uma das principais referências para o gênero, falo é claro de 1984, de George Orwell. No opressivo e sombrio mundo do livro o governo era extremamente autoritário e ditatorial, sendo representado pela figura do Grande Irmão, o medo e a tensão eram constantes e colocavam as pessoas em estados extremos, tanto físico quanto mentalmente, que os tornavam extremamente sugestionáveis, e faziam isso com o uso da imposição de um medo permanente contra os inimigos do Estado, sejam estes os outros países -já que se vivia em guerra constante tanto para gerar produção, como também para justamente colocar a população nesse incessante estado de alerta-, ou o “Inimigo do povo”, representado pela figura de Emmanuel Goldstein, que segundo era dito “induzia” o povo a se rebelar contra o Grande Irmão. Todos eram espiões a serviço do Estado, prontos para denunciar vizinhos, irmãos, pais e filhos pela menor suspeita que possam ter em relação a eles, inclusive as crianças eram estimuladas a fazerem isso. O governo ainda controlava e manipulava a população por outros meios, como na introdução da novilíngua, no ódio contra tudo que era estrangeiro, na constante manipulação de informações e também “reescrevendo” a História, afinal: “Quem controla o passado controla o futuro e quem controla o presente controla o passado”. Também usavam alguns outros métodos criados pelo governo para essa finalidade de subjugar o pensamento individual, como o duplipensar e a crimeideia, que faziam o povo pensar e agir como o Estado quisesse, e até mais que isso, a amar o Grande Irmão, mesmo vivendo curvados, submissos e sob a sombra constante da miséria e do medo.

Fahrenheit-451 (533x800)Se em 1984 vemos a tecnologia ser usada como forma de monitorar constantemente a população, colocando-a em permanente estado de tensão sabendo que o Grande Irmão tudo vê com as teletelas ligadas observando cada passo do cidadão, em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, vemos a tecnologia servir como alienadora de uma outra forma, dessa vez com as pessoas preenchendo o vazio de suas vidas com todo o entretenimento que podiam consumir, com salas cobertas com grandes telas de TV, não algo que o Estado as obrigasse para mantê-las sob vigia constante, mas sim algo que as próprias pessoas desejavam, era algo ligado ao status, e também desse modo poderiam ter mais contato com pessoas desconhecidas, a que eles curiosamente tratavam como “família”, mesmo não dando atenção alguma sua a família real, de fato, esta é uma crítica a tecnologia que aproxima as pessoas poder ser a mesma que as afasta, algo extremamente atual. Em 1984 a alienação era imposta e as informações reescritas, já em Fahrenheit 451 não havia essa necessidade por parte do governo, as pessoas já não as procuravam mais, a alienação era autoimposta. Os livros eram queimados, simbolizando a destruição do conteúdo, enquanto as banalidades chegavam as pessoas que as assimilavam de maneira extremamente passiva. Correr em carros a jato, se desligar do mundo através do som e de imagens virtuais, a falta de empatia causada pelo afastamento humano que era consequência de estarem se voltando cada vez mais para si mesmos, a alienação, que, aliás, causou a morte de muitos, tudo isso ia tornando as pessoas mais vazias, mais apagadas, menos humanas. Falando na empatia, que talvez o que seja o que nos torna humanos, vamos passar para o próximo livro da lista.

androides_sonham_com_ovelhas_eletricasPhilip K. Dick foi um dos grandes mestres da ficção científica e criou uma distopia bem famosa que é necessária incluir nessa lista, é o Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, embora essa história talvez seja mais conhecida pelo grande público por  “Blade Runner”, nome que ganhou a sua versão cinematográfica. No universo distópico do livro vemos alguns elementos interessantes, como a destruição da natureza, ocasionada por uma guerra nuclear mundial que devastou boa parte da vida no planeta e que gerou uma poeira radiativa que cobre tudo e que afeta a saúde física e mental das pessoas, inclusive gerando um preconceito dos não afetados, os “normais”, para com os “especiais”, que foram afetados por ela, estes inclusive não podiam deixar o planeta Terra, decisão muitos tomaram para fugir do planeta doente que a Terra se tornara, indo morar em colônias em outros planetas. Outro ponto interessante é o do consumo, já que as pessoas gastavam fortunas para ter um animal vivo, símbolo de status nessa sociedade, já que a maioria dos seres vivos perecera com a radioatividade e se tornaram extremamente raros. Também há todo um questionamento sobre o que nos faz humanos e nos diferenciaria dos androides que eram caçados e mortos, inclusive construídos para realizar tarefas para os humanos, no caso era a empatia que separava estes dos humanos, porém os próprios humanos nesse mundo decadente aos poucos foram ficando cada vez menos empáticos, procurando essa ligação através de uma nova religião, o “mercerismo”, que prega que todos os indivíduos devam se manter unidos, compartilhando sentimentos através de uma caixa de empatia. Através dessa tecnologia pode-se compartilhar e experimentar qualquer sentimento que quiser, mas após desligar a máquina volta-se a apatia natural diante daquele mundo decadente, logo a própria empatia humana era quase artificial, algo que se olhando por esta perspectiva, não diferenciava tanto assim humanos de androides.

homem_do_castelo_altoPhilip K. Dick também escreveu O Homem do Castelo Alto, uma distopia não tão conhecida como a anterior, mas também excelente e com um argumento bem interessante, a história se fundamenta não em uma visão de futuro pessimista, mas em uma realidade paralela baseada na premissa “O que aconteceria se o Eixo tivesse vencido a 2ª Grande Guerra Mundial?”. Pois bem, isso por si só já abriria a mente do leitor para um terrível mundo distópico extremamente racista, repressor e violento. Neste mundo sombrio em que os aliados perderam a guerra para os países do Eixo, o mundo fora dividido entre a Alemanha nazista e o Império do Japão, com uma fatia menor para a Itália, que não tinha uma influência ou poder militar tão forte quando essas superpotências, inclusive a história se passa nos EUA, onde a costa oeste pertencia ao Japão Imperial, a costa leste a Alemanha, e com um pequeno espaço neutro no centro do país, então ao contrário da conhecida guerra fria entre URSS x EUA aqui a disputa de poder e influência global fica entre o Império do Japão e a Alemanha nazista, com o mundo totalmente transformado pela ocupação dessas duas novas superpotências, inclusive com um intenso domínio cultural oriental e com tecnologias diferentes da nossa realidade, já que os cientistas, necessidades e outros fatores diferenciaram essa evolução tecnológica.

A_Revolta_de_AtlasOutra distopia que não poderia deixar de citar é uma que se baseia na decadência moral e econômica que aos poucos vai degradando a sociedade e fazendo todas as mentes criativas desaparecerem, falo do famoso livro A Revolta de Atlas (Publicado inicialmente no Brasil como “Quem é John Galt?”), escrito pela filosofa Ayn Rand e publicado originalmente em 1957. Na história vemos uma sociedade decadente, totalmente dominada pela intervenção estatal que aos poucos vai minando toda a iniciativa privada e a liberdade econômica. Nessa história o mundo foi tomado por governos socialistas, tirando apenas os EUA, embora ainda sim possuindo um governo extremamente intervencionista. Aos poucos as mentes criativas que carregam o mundo em suas costas, tal como o Atlas mitológico, se rebelam e vão desaparecendo, fazendo as engrenagens que movimentavam a economia parar e a situação ficar ainda pior, com o Estado incapaz e improdutivo destruindo tudo o que fora criado. Todos aqueles que criam, que pensam, que lideram, que são fundamentais para o avanço, se cansam de sustentar uma massa que os despreza e trata o lucro e o sucesso pessoal como coisas essencialmente ruins, algo meio contraditório, já que as pessoas amavam as realizações e a boa vida que o dinheiro proporcionava, porém ao mesmo tempo odiavam o dinheiro e o lucro. Os mais capacitados deveriam carregar todos os indolentes e inábeis, inclusive tendo a obrigação moral de sustentar esse sistema, mesmo quando suas características mais necessárias são aquelas que mais são desprezadas por essas pessoas, basicamente as grandes mentes devem se sujeitar as “menores”, se sujeitar a condições adversas às que criariam oportunidades de desenvolvimento, dar tudo de si e não esperar absolutamente nada em troca, de deixar o poder, suas criações e o todo o fruto de suas realizações pessoais nas mãos dos menos capazes, com todas as responsabilidades recaindo nas suas.  O livro exalta valores como a honestidade, o individualismo, o orgulho em fazer o seu trabalho, a produtividade, a criatividade e a liberdade econômica, e trata do conceito do Objetivismo, um sistema filosófico criado pela autora.

Confesso que não li essas distopias mais novas voltadas para o público adolescente que estão fazendo bastante sucesso no momento, e outras mais antigas ainda não tive a oportunidade de ler e por isso não entraram na lista, futuramente, para quem gosta do tema, pretendo abordar também as distopias do cinema e TV. Por ora, se sentiram falta de algumas distopias que não constaram na lista, deixem aí nos comentários, especialmente se elas não forem muito conhecidas.

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7 comentários sobre “Distopias Literárias – Segunda Parte

    • Olá Denise!
      A fama de 1984 não foi obtida à toa, realmente é excelente e dá pra entender facilmente o pq de quase ter virado sinônimo do gênero, seria a minha distopia favorita se não houvesse Admirável Mundo Novo.
      Quanto a F451, tb é muito bom, curto, rápido, incisivo e marcante, tb é outro que figura fácil no top 5 quando se fala de distopias literárias, vale muito a pena ler este tb. Ambos são leituras recomendadas para qualquer fã do gênero ou mesmo pra qualquer um que não o conheça, pois são belas portas de entrada para se conhecer mundos distópicos. Recomendo fortemente os dois 🙂

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    • Olá Raquel!
      Tb gosto muito de livros e filmes que seguem esse tema, ele é excelente para explorar os muitos lados do ser humano, tanto para colocá-los em evidência, quanto o de retirá-los para que possamos notar a sua falta, realmente é um gênero que consegue mexer com qq um. 1984 é referência, e a fama dele o precede, o filme tb é muito bom, adaptaram muito bem o clima opressivo que o livro passa, já O Homem do Castelo Alto é um pouco mais complicado, é meio arrastado, talvez intencionalmente para colocar o leitor mais próximo desse tom sombrio, pessimista e melancólico do livro, mas é um livro muito bom, e até onde sei está para sair uma série sobre o livro, se não me engano já liberaram o piloto no começo do ano, mas a série deveria estrear por esse mês, porém não estou acompanhando pra saber se já saiu, mas ela é produzida pelo Ridley Scott, então qualidade ela deve ter. Ambos são livros excelentes, recomendo fortemente! 🙂

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      • Vou procurar saber. Vi muito pouco sobre “O Castelo Alto” na Internet.mas fiquei não curiosa. sou apaixonada com histórias que se passem nessa época, e achei interessante a premissa do livro. E 1984 eu comprei pela Internet agora é só esperar chegar!!

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        • O livro se passa bem depois da 2ª GGM, já nos anos 60, porém em uma realidade alternativa. A premissa é fantástica mesmo, acho que a reconfiguração global ficaria próxima da imaginada pelo Philip K. Dick se isso ocorresse mesmo, com exceção da América do Sul apenas, mas bem próximo, apesar de não achar que esses regimes se mantivessem da mesma maneira, porém a Guerra Fria entre alemães e japoneses fatalmente ocorreria. 1984 é excelente, pode ler sem medo e com todas as expectativas altas, pq ele não vai decepcioná-la. 😉

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