Distopias Literárias – Primeira Parte

Dando prosseguimento ao post anterior que serviu como introdução às distopias, desta vez serei menos genérico e falarei mais do tema focando em algumas distopias que temos na literatura. Não entrarei em maiores detalhes sobre as obras por conta do tamanho absurdo que ficaria esse post, que já o tive que separar em duas partes, e também pelo motivo de, ou eu já ter feito uma resenha/crítica de alguns deles no blog, ou ainda irei fazê-las, e desse modo posso falar com maior cuidado sobre essas obras, até porque elas merecem esse aprofundamento.

Como falarei de apenas algumas obras, procurei dar ênfase as que eu já tinha lido, não quis falar apenas por falar, sem conhecer ou tendo apenas o senso comum como guia para dizer apenas algo como “É uma distopia e muita gente gosta dela”, o que não é a intenção da postagem, então se sentirem falta de algum livro do gênero nesta e na segunda parte, saibam que esse é o motivo da sua ausência.

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Muitas das distopias são consequências de outorgar poderes a pequenos grupos que prometeram utopias, mas que se desviaram do foco inicial ou mesmo só usaram algum discurso a fim de obter poderes e posições privilegiadas. Toda a esperança de um futuro melhor por parte de uma massa de pessoas acaba por ser depositada em um pequeno grupo, e essa esperança, cega pela eloquência e pela confiança que o grupo aparenta ter, talvez até pelo desespero em que essa massa se encontra, leva a maioria a conceder poderes para este grupo, que acaba se deixando levar pela autoridade e influência e fazem de tudo para manterem-se no topo, algumas vezes usando da violência e do medo, outras vezes manipulando, ou, como é até mais comum, usando desses artifícios em conjunto.  Algo que ilustra bem esse tipo de coisa é a famosa fábula distópica A Revolução dos Bichos de George Orwell. No livro, os animais da “Granja do Solar” rebelaram-se contra a exploração que sofriam dos humanos e expulsam seus antigos donos, renomeando o local como “Granja dos Bichos”. No início os animais baseavam-se em ideais nobres de igualdade para construir um lugar melhor para todos eles, porém aos poucos os porcos, os animais mais inteligentes da granja, foram concedendo a si mesmos várias regalias, argumentando que tudo era absolutamente necessário para a manutenção dessa nova utopia que estavam criando, o famoso “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”, ainda valendo-se do recurso do medo, dizendo que se eles não estivessem nessa posição privilegiada corria-se o risco dos humanos voltarem ao poder e tudo voltar a ficar exatamente como era antes.  Não demorou muito para a exploração voltar, e de uma forma muito pior daquela que eram sujeitados pelos humanos, mas agora a manipulação e o extremo controle exercidos pelos porcos faziam com que outra revolta fosse praticamente impossível, e os mesmos porcos que começaram a arquitetar essa nova sociedade, com ideias nobres de igualdade e justiça  já não eram mais vistos como diferentes dos humanos, no fim “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”.

o_planeta_dos_macacosOutro livro que muda as nossas perspectivas colocando animais dominando seres humanos, mas de uma maneira bem diferente da fábula de Orwell, é o livro O Planeta dos Macacos, escrito pelo francês Pierre Boulle e publicado em 1963. O livro conta a história de um astronauta que acaba por parar em um distante planeta similar à Terra ao realizar uma viagem espacial. Nesse planeta ele encontra criaturas similares aos seres humanos, porém agindo primitivamente, quase como animais irracionais. Ele não demora muito para descobrir que a raça dominante nesse planeta são símios como gorilas, chimpanzés e orangotangos, que são racionais e usam armas e roupas, ou seja, há uma total inversão entre a relação do que há no planeta Terra entre os macacos e seres humanos. Nesse planeta os símios caçam e vendem os humanos para que façam trabalhos manuais para eles, e alguns ainda são usados em experiências, inclusive esse é o destino que encontra o protagonista. Mais tarde descobre-se que os humanos eram a raça dominante do planeta, mas ao domesticar os macacos, esses aos poucos foram insurgindo contra esse sistema e tomaram o lugar dos humanos, que aos poucos foram sendo escravizados, como estes antes faziam com os macacos. Os humanos aos poucos foram regredindo a estados mais primitivos enquanto os símios avançavam e estabeleciam essa nova sociedade. Há no livro uma grande crítica sobre como tratamos os animais e as experiências de condicionamento usadas pelos símios lembram as feitas por Pavlov em cães.

A_maquina_do_tempoUma obra mais antiga e talvez até mais famosa que as duas citadas anteriormente, que também descreve uma sociedade distópica, apesar de muita gente não se atentar a isso, mesmo sendo uma história bastante explorada em outras mídias é a do livro A Máquina do Tempo, escrita por H. G. Wells e publicada em 1885. No livro, um cientista consegue criar a tal máquina e viaja muitos séculos adiante no futuro, e encontra uma sociedade aparentemente utópica, onde vivem os pacíficos “Elóis”, que possuem aparência delicada, vivem brincando e se divertindo e não tem interesse por nada em especial, tendo mais um tipo de curiosidade passageira, vivendo todos felizes e sem preocupações, não produzindo nada, apenas levando uma vida bem hedonista, porém descobre-se posteriormente que esse estilo de vida era mantido pelos “Molocks”, seres simiescos que viviam nos subterrâneos que eram mais inteligentes e habilidosos que os Elóis. O cientista deduz que os Elóis eram o resultado da evolução da aristocracia, que vivia a vida sem dificuldades, enquanto os Molocks eram os trabalhadores braçais que foram forçados a viver subterrâneo por conta das atividades que desempenhavam, tal como a mineração, eram eles que fazia tudo funcionar por conta do seu trabalho que sustentava todo aquele sistema, e isso em si era uma crítica a própria época, sobretudo da aristocracia que era vista como preguiçosa, sem curiosidade alguma e que vivia sem necessidade de trabalho próprio, explorando as classes inferiores que realizavam todo trabalho para eles. Porém, apesar do clima utópico desse mundo paradisíaco em que os Elói viviam, descobre-se que eles não exploravam os Molocks, pelo contrário, as criaturas simiescas provinham as necessidades dos Elóis para depois se alimentarem deles, eles os criavam como gado para o abate, mantendo sempre os Elóis naquela vida simples e ignorante sem necessidades ou maiores preocupações que iriam além de colherem flores, ou seja, os Molocks é que se aproveitavam dos Elóis, que se mantinham confortavelmente nessa vida de prazeres e distrações até que eram caçados e mortos.

AMNOutro famoso livro onde se mostra uma distopia sob o disfarce de uma utopia é Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, na qual temos uma sociedade onde a liberdade sexual era estimulada, o uso de drogas para o prazer não só era comum, mas recomendado, e até mesmo a própria forma como criavam as pessoas – e criavam tanto no sentido de produção biológica como também por serem educadas pelo Estado, desde cedo condicionadas a pensar e a agir de determinada forma-, ou seja, tudo era feito para manter a população sempre feliz e satisfeita ao máximo. Os estímulos, o condicionamento e as diversões permitidas criavam essa ilusão de felicidade, afinal todos se sentiam felizes e realizados, porém de uma forma artificial, elas eram criadas de forma a sustentar esse sistema e amavam o destino social que nunca poderiam escapar. Era uma prisão pelo prazer onde retiravam a personalidade e a criatividade, tiravam todas as emoções consideradas negativas, tiravam muito da empatia, colocavam todos com um pensamento único, ou seja, não havia liberdade de verdade, não havia livre-arbítrio e se suprimia o espírito humano em troca da estabilidade social. Essa estabilidade só foi possível através da superorganização e dos novos métodos científicos, que possibilitaram uma forma das pessoas serem “produzidas” na quantidade certa e com cada uma predestinada a executar as tarefas que eram exigidas no momento. O Estado mantinha a população estável por conta do Processo Bokanovisky  que criava essa linha de produção biológica e um novo sistema de castas baseado nas aptidões genéticas, tudo reforçado pela coerção do condicionamento.

Laranja_MecanicaEssa lavagem cerebral vista em Admirável mundo Novo também é vista também em outra distopia bem famosa, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, onde acompanhamos a vida de Alex, um jovem delinquente que passava seus dias praticando a “ultraviolência”, até que em uma de suas “aventuras” com sua gangue termina por matar uma velha senhora e, traído por seus companheiros, acaba sendo preso. Na prisão ele passa por um programa experimental do governo que lhe causaria desconforto sempre que se deparasse com alguma violência, deste modo ele não seria capaz de cometer atos violentos, porém como efeito colateral ficaria incapaz de se defender. Este tratamento controverso tirava o poder de escolha da pessoa, resumido na marcante frase “Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?”, ou seja, era um tipo de
lavagem cerebral, um método de controle dos atos, persuadindo a pessoa a agir de uma determinada maneira sendo obrigado a seguir um padrão comportamental que o Estado ditasse para seguir, sem ter uma real recuperação, apenas uma coleira mental que o guiava para uma determinada escolha.

Lembrando que esta é só a primeira parte, muito em breve publicarei a segunda com mais algumas obras que pavimentaram esse gênero que atualmente fervilha nas livrarias.

Participem também, e deixem aí nos comentários outras distopias que vocês acham que faltaram.

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2 comentários sobre “Distopias Literárias – Primeira Parte

    • Valeu Lucas! Quando puder leia-os, pq valem muito a pena, não à toa que entraram no panteão dos grandes livros. Fahrenheit 451 e 1984 são dois livros que eu não poderia deixar de falar, mas acabei por achar melhor deixá-los para a segunda parte, e de fato F451 é um livraço, já até falei bastante dele em uma postagem específica sobre a obra, e certamente figura entre meus favoritos, essa é de fato uma excelente dica mesmo.

      Valeu mesmo cara!

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