O Pessimismo dos Mundos Distópicos

A distopia apresenta um conceito filosófico oposto à utopia, termo cunhado por Thomas Morus em seu livro Utopia, cujo significado é “não-lugar” ou “lugar inexistente”. Na obra publicada por Morus em 1516 Utopia era um ilha onde as pessoas viviam em paz, a fome era inexistente, os recursos eram praticamente ilimitados, as pessoas possuíam apenas as melhores características humanas e ouro e prata não tinham valor algum, ou seja, era um lugar completamente diferente e absurdo em comparação com a Europa da época com valores totalmente diferentes, era algo totalmente idealizado, realmente um lugar inexistente. A distopia, portanto, apresentaria uma antítese desse mundo idealizado e perfeito onde todos vivem bem, são livres, não sofrem com a escassez de recursos e só apresentam os melhores aspectos do caráter humano, ou seja, sendo uma oposição a essa visão, a distopia apresenta um mundo decadente, cuja própria decadência se apresenta no comportamento das pessoas, geralmente subjugadas por um agente centralizador do poder que controla a sociedade por meios tais como políticos, sociais, econômicos, religiosos, psicológicos, por força bruta, por meios tecnológicos, etc.

Nesse mundo onde impera o autoritarismo, a corrupção, o totalitarismo, essa realidade opressora pode estar explícita para a polução que não consegue lutar contra esse sistema, ou mesmo podem estar cegos a isso devido a uma “capa” que disfarça esse controle e coloca as atitudes tomadas por esse agente controlador como benéficas para a população, com todas as ações sendo tomadas a fim de protegê-la e levar essa sociedade ao desenvolvimento e ao bem estar social da maioria, ou pelo menos de uma forma onde as regras e imposições sejam vistas como algo natural e/ou manipula-se o povo para não perceber o que está de fato acontecendo. Também  a população pode não querer ver a real situação em que se encontra, tornando-se alienada por escolha própria, podendo também esse agente centralizador se utilizar dessa atitude apática para continuar no poder e incentivar ainda mais esse tipo de posicionamento.

A distopia é geralmente colocada como um subgênero da ficção científica, situada em uma realidade paralela ou um futuro visto como próximo, e anda próxima com a tecnologia que ao invés de ser usada como uma forma de solucionar os problemas e facilitar a vida das pessoas, é utilizada como forma de se criar ainda mais problemas, monitorando, dominando, reprimindo, fomentando um consumo apenas pelo ato de pelo ato de consumir, cego e fútil.

A tecnologia não raramente acaba ou reduz drasticamente os relacionamentos interpessoais, fazendo as pessoas ficarem mais centradas em si mesmas, seja por distração, por condicionamento, pelo medo da constante vigilância e de possíveis infrações das leis ou normas de conduta ou pela própria tecnologia que vai afastando do contato real e mais próximo. Com esse afastamento do contato humano, às vezes da própria família, com o sistema procurando educar e se estabelecer como uma instituição mais apropriada para cuidar das crianças e jovens, a sociedade acaba ficando menos empática, ainda mais com repressões e manipulação dos sentimentos e até mesmo por meios químicos, como é o caso do Soma em Admirável Mundo Novo, e tudo isso gera uma característica que é praticamente inalienável ao gênero, a desumanização. A desumanização é usada como crítica a mecanização através da tecnologia, em uma distopia há realmente uma perda de identidade, de significância, de potencialidade, onde o ser humano não é mais um ser humano, é apenas um número, uma célula, uma engrenagem de uma máquina maior e que pode ser substituído a qualquer momento, pois é uma peça, não uma pessoa. Essa homogeneização da população é mais eficaz para a manipulação e controle das massas, tornando uma insurreição quase impossível, e todos aqueles que são diferentes, são vistos como influências negativas por essa população alienada, e com toda essa falta de empatia, de sentimentos que são contidos, gera uma apatia natural na população que não quer lutar contra esse sistema, ou mesmo o ama, e vai lutar por sua manutenção, seja pelo amor ou pelo medo.

Essas sociedades podem ser dominadas por algum tipo de governo, por corporações, por sociedades secretas, por grupos religiosos, e até por máquinas e seres fantásticos e/ou alienígenas. Uma situação pós-apocaliptica pode também levar a uma sociedade distópica, mudando os valores e onde grupos sobrevivem pela força bruta e exploração.

Nota-se como características de sociedades distópicas: a alta burocracia; o pessimismo e a apatia; a falta dos valores morais que as sociedades atuais consideram como positivas; hierarquias estabelecidas e sem possibilidade de qualquer mobilidade social; violência; consumo exagerado dos recursos naturais; a família sendo substituída pelo Estado ou por alguma outra instituição, bem como as pessoas tendo problemas para manter relações interpessoais ou qualquer contado mais direto com outras; a economia mantida pela exploração ou mesmo em total declínio; monitoramento constante; a natureza destruída, principalmente por conta do crescente avanço tecnológico destrutivo; manipulação, lavagem cerebral e controle sobre as massas e pela maquinação/desumanização que acaba com a identidade.

O pessimismo expresso dentro das obras distópicas reflete uma crítica social forte, seja por algum discurso ou pensamento político vigente, denunciando o que ele pode se tornar, ou mesmo para dar um peso maior as ações tomadas por nós mesmos colocando-as em um nível mais absurdo e exagerado. As distopias são prenúncios de um futuro que não dá certo. Nesse ponto vemos que a visão oposta a aquela visão utópica de que a tecnologia irá resolver os problemas das pessoas, ela também pode ser usada para oprimi-las, bem como aquele grupo ou governo que prega um bem maior que podem usar do poder para se estabelecer e ser algo ainda pior do que aquilo que se combateu previamente. São lembretes de como as coisas podem ser perigosas se nos entregarmos cegamente a elas sem nos atermos as ameaças que possam trazer consigo. Não à toa muitas das distopias eram apresentadas como utopias, com ideais nobres e apresentando soluções para um mundo imperfeito, porém logo se desfiguram e mostram a sedução pelo poder que corrompe o homem. Justamente por isso temos a melancolia dos finais com aquela sensação terrível de uma total falta de esperanças pela onipresença, onisciência e onipotência desse poder opressor do sistema, esse é o fator final para chocar e mostrar que as coisas não se resolvem facilmente, não é algo para nos dar esperanças de libertação e terminar com finais felizes, não é autoajuda. Elas nos mostram as piores faces do ser humano para lembrarmos-nos dessas possibilidades, e por serem tão terríveis elas nos abrem os olhos para as nossas ações e nos tiram da inércia, mostram que a realidade pode ser muito pior e sem volta, daí a necessidade de atentarmos com maior cuidado para nossos passos e não sermos tão precipitados na busca de uma solução milagrosa que nos é oferecida.

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Um comentário sobre “O Pessimismo dos Mundos Distópicos

  1. Pingback: Distopias Literárias – Primeira Parte | Foco de Resistência

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