As Trevas de Sethanon (Saga do Mago Vol.4) – Raymond E. Feist

“Nunca mais seremos os rapazes que éramos, Tomas. Mas nos tornamos muito mais do que aquilo que alguma vez sonhamos. Ainda assim, poucas coisas de valor são eternamente simples ou fáceis.”

Enfim chegamos à resenha do livro “As Trevas de Sethanon”, que encerra a Saga do Mago, escrita pelo Raymond E. Feist. Então sem mais apresentações, vamos ao que interessa.

Mago_As_Trevas_De_SethanonPor quase um ano a paz reinou no reino desde os acontecimentos do livro anterior, e agora Arutha e Anita apresentam ao povo seus dois filhos gêmeos, Borric e Erland, porém, apesar do aparente clima de tranquilidade, o Príncipe de Krondor sabe que seus inimigos apenas esperam o momento certo para voltarem a atacá-lo. Jimmy está ainda mais atento a essa possibilidade e quando avista um Falcão Noturno idêntico a Arutha logo percebe que os servos de Murmandamus finalmente saíram das sombras para agir contra o “Senhor do Ocidente”, aquele a qual a profecia anunciava como a Ruína das Trevas, e mais uma vez acaba frustrando o plano dos Falcões Noturnos de matar Arutha.

“Esses sujeitos têm o péssimo hábito de morrer quando não devem e de não permanecer mortos quando devem.”

Ao ver que a o período de paz chegara ao fim, o Príncipe de Krondor tenta caçar e acabar com todos os Falcões Noturnos que estavam na cidade, chegando até o ponto de decretar lei marcial, o que acaba gerando um grande descontentamento na população, já que por conta disso passou-se a deter qualquer suspeito, bem como bloquear a entrada e a saída de pessoas da cidade, e com isso também a entrada de mercadorias, causando desabastecimento e aumento de preços, além de um toque de recolher. Eu achei que essa foi uma situação que mereceria ser melhor explorada dentro do livro, sinceramente via muito potencial nessa parte, porém o autor preferiu escolher outros caminhos para o desenrolar da história, mas enfim, voltando ao assunto, essa condição colocava não apenas a população no seu limite, mas também Arutha, pensando sobretudo na segurança da sua família, o que o leva a tomar medidas urgentes para descobrir os Falcões Noturnos e pôr logo um fim em tudo isso. Usando o corpo do seu sósia, Arutha forja a própria morte para enganar Murmandamus e assim poder ir ao seu encalço no norte sem ser incomodado, porém ele não vai sozinho, Martin, Laurie, Baru, Roald, Jimmy e Locklear também participam da missão.

Ao chegarem mais ao norte, o grupo de Arutha acaba sendo capturado e levado a uma misteriosa cidade chamada Armengar, e dentro de suas quase inexpugnáveis muralhas são surpreendidos por dois encontros improváveis, um deles com um velho amigo, o outrora pirata Amos Trask, e outro com aquele que foi banido do reino e era tido como inimigo pela família de Arutha, Guy du Bas-Tyra, que agora possuía o título de “Protetor” na cidade de Armengar, dado a ele pelos próprios cidadãos, já que era uma homem mais do que capaz na arte da guerra.  Com um velho amigo e um inimigo que retorna como aliado, Arutha deve resistir ao cerco dos exércitos de Murmandamus à cidade contando com apenas uns poucos para resistir aos seguidos ataques dos inúmeros goblins, trolls e moredhels que compõem as fileiras inimigas.

Em paralelo a essa história acompanhamos Pug, que após voltar de seu treinamento com os eldar em Elvardein, -o que me incomodou um pouco, já que não tivemos quase nada desse treinamento- vai atrás de seu amigo de infância Tomas, já que precisa da ajuda dele que herdara os poderes de um valheru, a antiga raça conhecida como os Senhores dos Dragões, para combater o Inimigo. Os dois acabam viajando para outros mundos nas costas do dragão Ryath, indo procurar um oráculo que ficava em outro planeta, o Oráculo de Aal.

“Convocando poderes que não eram utilizados havia milênios, Tomas abriu uma passagem para aquele lugar além do tempo e do espaço que seus irmãos e irmãs outrora cruzavam à vontade para levar destruição a diversos lugares. Pela primeira vez em muitos anos, um Senhor dos Dragões atravessava as fronteiras dos mundos.”

O oráculo os orienta a procurar por Macros, o negro, o que os leva a atravessar o Mar Interminável rumo aos Salões dos Mortos, localizado no misterioso continente de Novindus. A parte correspondente aos Salões dos Mortos na Necrópole é uma das mais legais do livro, diga-se de passagem, e também expande muito a mitologia dentro do livro, com um pouco mais de informações sobre os deuses desse mundo. Lá eles encontram a deusa da morte e finalmente descobrem o paradeiro do misterioso mago, mas para encontrá-lo deveriam ir até ao local mais misterioso do universo, a Cidade da Eternidade.

“Em um universo infinito, todas as coisas não só são possíveis como também, por mais improvável que seja, certamente existem em algum lugar e em algum tempo. É possível que esta cidade tenha desabrochado no próprio momento da criação. […] Este local nunca se altera, pois está situado onde não existe o verdadeiro tempo. Dizem que a cidade da Eternidade pode ser a única coisa imortal do universo.”

Os dois núcleos vão aos poucos convergindo par a batalha final que acontecerá na cidade de Sethanon, que guarda um segredo que pode decidir o rumo da guerra e o destino de vários mundos.

Alguns personagens conseguem cativar bastante, outros nem tanto, mas há que se mencionar o desenvolvimento que alguns tiveram nesse livro, especialmente por contar mais sobre a origem e motivações de Macros, do Inimigo e de Ashen-Shugar, que, aliás, além de ser fundamental dentro da história, também deu a base para todo o desenvolvimento de Tomas. Ainda dentro desse livro deve ser citado Guy du Bas-Tyra, que se revelou um dos melhores personagens de As Trevas de Sethanon. Fica aqui também uma lembrança de personagens memoráveis de toda a série que também tiveram os seus momentos dentro desses quatros livros, como Pug, Arutha, Jimmy, Martin, entre outros tantos personagens secundários.

Tenho algumas críticas a como as coisas poderiam ter sido melhor aproveitadas, como já até mencionei nessa resenha, mas também o livro merece vários elogios em diversos pontos, como a construção do universo fantástico da série. Já falei que algumas culturas e povos do nosso mundo são inspirações claras para A Saga do Mago, como são os tsuranis com as culturas orientais de América Central e até mesmo com a inspiração árabe dos keshianos, e neste livro fica muito claro que os escoceses inspiraram os hadatis. Gostei muito como o Raymond E. Feist usou essas referências reais para dar vida aos povos desse universo. Porém a melhor coisa dos livros sem dúvidas é a mitologia e toda a cosmogonia da série. É de encher os olhos as partes que exploram toda essa coisa da criação e dos deuses, e de longe foram essas as partes que mais gostei. Toda a parte “cósmica” é digna de nota, assim como toda a religião criada e como as pessoas enxergam os deuses, e até mesmo os deuses em si. Nem preciso dizer que isso deixou várias brechas para os outros livros, não é à toa que essa é uma série grande, pois o “universo” dos livros é tão amplo que dá para expandir tranquilamente e até te deixa com vontade de ver mais sobre os grandes eventos e guerras do passado.

No início do primeiro livro achei que essa seria mais uma série de livros bem genérica, com arquétipos de personagens e criaturas extremamente comuns dentro do universo fantástico, porém queimei a língua, ela se mostrou bem única e encontrou rapidamente seu próprio tom, com suas peculiaridades que a diferenciam dos demais livros do gênero, o que é sempre bom de se ver.

Ao terminar essa resenha fico com a sensação de que não tenho apenas que falar se recomendo ou não As Trevas de Sethanon, mas também da minha percepção sobre A Saga do Mago como um todo, e digo que podem ler ambos sem medo, esse livro é o melhor dos quatro e a própria série é muito boa, tendo uma evolução clara de livro para livro. Apesar do começo meio infanto-juvenil, o tom logo muda, apesar de ainda manter essa pegada mais leve, inclusive é excelente para ler depois de leituras mais densas e cansativas, já que a escrita é bem fluída. Recomendo.

Antes de encerrar é sempre bom de lembrar que A Saga do Mago (The RiftWar Saga, no original) é apenas a primeira parte de uma série de livros que compreende várias minisséries que acabam formando o chamado “RiftWar Cycle”, e no Brasil já foram publicados dois livros de outra série dentro do RiftWar Cycle, A Saga do Império, uma trilogia que é focada em Kelewan. Só para facilitar a vida de todo mundo que está confuso com isso, vou deixar a lista dos livros que compõe esse universo todo.


A Saga do Mago (The Riftwar Saga)

A Saga do Império (The Empire Trilogy)

  • A Filha do Império, escrito em conjunto com Janny Wurts
  • A Serva do Império, escrito em conjunto com Janny Wurts
  • Mistress of the Empire, escrito em conjunto com Janny Wurts

Krondor’s Sons

  • Prince of the Blood
  • The King’s Buccaneer

The Serpentwar Saga

  • Shadow of a Dark Queen
  • Rise of a Merchant Prince
  • Rage of a Demon King
  • Shards of a Broken Crown

The Riftwar Legacy

  • Krondor: The Betrayal
  • Krondor: The Assassins
  • Krondor: Tear of the Gods
  • Jimmy and the Crawler

Legends of the Riftwar

  • Honoured Enemy, escrito em conjunto com William R. Forstchen
  • Murder in LaMut, escrito em conjunto com Joel Rosenberg
  • Jimmy the Hand, escrito em conjunto com S. M. Stirling

Conclave of Shadows

  • Talon of the Silver Hawk
  • King of Foxes
  • Exile’s Return

The Darkwar Saga

  • Flight of the Nighthawks
  • Into a Dark Realm
  • Wrath of a Mad God

The Demonwar Saga

  • Rides a Dread Legion
  • At the Gates of Darkness

The Chaoswar Saga

  • A Kingdom Besieged
  • A Crown Imperiled
  • Magician’s End
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3 comentários sobre “As Trevas de Sethanon (Saga do Mago Vol.4) – Raymond E. Feist

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