Prince of Thorns – Mark Lawrence

prince-of-thorns Temos fantasias mais clássicas onde há um lado nobre e honroso combatendo contra o maléfico lado negro. Temos fantasias onde o bem e o mal não são bem definidos e cada personagem tem os seus interesses e age de acordo com eles. Temos também a fantasia sombria, ou dark fantasy se preferirem, como é no caso desse livro, que combina elementos de fantasia com o terror.

Pelo início do livro logo pensei que seguiria em uma pegada como a do mangá Berserk, que é fantástico, embora às vezes perturbador, porém não se mostrou isso tudo, tanto quanto o que o quadrinho japonês é. Nesse ponto vejo mais como uma expectativa que criei e não culpo o livro em si, embora não tenha gostado de algumas partes.

Vamos então ao protagonista, Honório Jorg Ancrath, um moleque de 14 anos cruel, sádico, egocêntrico, amoral, que praticamente é o capeta em forma de guri. Não gostei muito dele, talvez pela falta de empatia, apesar desta ser totalmente proposital. O livro é narrado por ele e talvez essa imagem de um mundo sujo, e até mesmo com todo esse misticismo que o envolve, não passe de uma interpretação das coisas que não entende, então os fantasmas e outras criaturas podem não ser realmente fantasmas e criaturas, mas para  que o leitor dessa resenha possa ter uma ideia melhor daquilo a que me refiro e luto para não dar muitos spoilers só mesmo lendo o livro. Outro ponto que define bem o que é o personagem é essa coisa de “serei rei aos 15”, que serve pra mostrar o quão egocêntrico e narcisista ele é, aliás, os personagens secundários são fracamente desenvolvidos talvez devido a essa intenção do Jorg de ser o centro do mundo, já que é através de sua mente distorcida que é contada essa história, e ele só vê as pessoas como peças a serem usadas “no jogo”, tanto que o desenvolvimento da maioria dos membros do bando do Jorg se dá mais nas pequenas frases que aparecem em interlúdios entre os capítulos do que na própria história.

Falando da história em si, Jorg vê sua mãe e seu irmão serem brutalmente assassinados na sua frente a mando de um conde inimigo de seu pai sem poder fazer nada, preso pelos espinhos de uma roseira-brava que o deixou à beira da morte, e a loucura causada pelos ferimentos, tanto pela dor física causada pelos espinhos como pelo desejo de vingança moldou o comportamento do jovem. O pior para ele foi ver que seu pai não se vingaria do tal inimigo, o conde de Renar, devido a uma ação política, vendendo uma trégua com o tal conde, o que é praticamente vender a morte de sua mãe e de seu irmão. A vingança não viria das mãos de seu pai, Jorg então toma esse objetivo para si.

“O Conde de Renar me manteve vivo. A promessa de sua dor esmagou a minha sob seus calcanhares. O ódio vai mantê-lo vivo onde o amor falhou.”

Voltamos a uma era de barbárie, assim como o período medieval europeu ainda é (erroneamente) considerado por muitos, e até é a figura que se desenha na cabeça da maioria das pessoas quando pensam nessa época, mas que mesmo assim, quando se vive em uma época onde a força manda e é recompensada, onde a crueldade se faz necessária para sobreviver a crueldade de outros, onde a vida humana não vale muito, é até de se esperar que esse comportamento mais violento exista, afinal todos os alicerces da sociedade desmoronaram, e a organização se dá pela estrutura brutal dos mais fortes mantendo a cabeça dos mais fracos sob suas botas, e os seus caprichos. A princípio parecia ser uma história ambientada em um mundo fictício qualquer inspirado no período medieval, afinal os autores de fantasia em geral preferem criar seus próprios mundos, porém aos poucos vão aparecendo citações a locais e a autores do “nosso mundo” que levam o leitor a ter alguma dúvida. Citam-se os nomes de Platão, Sun Tzu, Shakespeare e até o de Nietzsche… mas espera aí, Nietzsche em uma época medieval? Além de falarem em um povo antigo que construiu maravilhas, conhecido como “Construtores”. A partir daí vemos um deslumbre daquilo que foi o que mais me prendeu ao livro e mais me surpreendeu na história.

Quanto ao livro em si é bem rápido e fácil de ler (ao menos se você não for lá muito sensível), pois os capítulos são bem curtos, o que deixa as coisas mais dinâmicas. A história vai e volta com flashbacks do passado de Jorg, há quatro anos, quando sua mãe e o seu irmão foram assassinados e a sua fúria e ódio foram acessos pelo desejo de vingança, focando também em como ele saiu do castelo de seu pai e se juntou ao bando, embora esses cortes entre o passado e o presente não atrapalhem em nada o andamento da história. Um detalhe que pode deixar as pessoas um pouco confusas é que os diálogos são indicados por aspas e não por travessões.

Quanto as críticas pessoais uma coisa não me desceu, isso do Jorg ainda criança se juntar, sobreviver e comandar uma corja de gente onde um é pior que o outro, e olha que ele fez isso com só dez anos de idade, vale a desculpa do talento nato com a sede de sangue que alimenta o garoto, mas não deixa de ser forçado, ainda mais quando ele ganha brigas com gente muito maior e mais forte do que ele. A idade serve pra chocar, o que é um dos objetivos do livro, mas acho que poderia passar sem essa, ele um pouco mais velho seria até melhor, mas reconheço também que pode ser apenas uma forma de salientar que ele não cresceu, ele é infantil, uma criança cruel que brinca de queimar formigas com uma lupa, ele ainda é um garoto que ficou preso na roseira.

Não sei se me animo a ler tão logo o segundo e o terceiro volume, embora eu já tenha ouvido por aí que melhora bastante nos próximos. Não sei se é o meu gosto que não bateu exatamente com o livro, ou se foi com o protagonista em si, até por que já ouvi muita gente elogiando justamente o personagem principal, mas achei a história bem mais ou menos na grande maioria do tempo que li, gostei mesmo da parte final, onde o próprio protagonista ensaiava uma pequena mudança e da construção do “mundo” do livro, o que salvou muito a minha opinião em relação a Prince of Thorns. Sendo sincero, não sei o que levou muita gente a achar esse livro excelente, é um livro mediano, talvez essa percepção seja decorrente da atenção que a editora Darkside teve ao fazer essa bela edição, ou talvez seja pelo atual momento onde os vilões ganham mais espaço que os próprios heróis, mas não acho que seja em si pelo enredo do livro.

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