Mestre (Saga do Mago Vol.2) – Raymond E. Feist

“[…] se é meu dever servir o Império, e se a ordem social do Império é responsável pela sua própria estagnação, é meu dever alterar essa ordem social, ainda que tenha de destruí-la.”

Mago MestreMago – Mestre é o segundo volume da Saga do Mago na versão reeditada de 1992, sendo na verdade a segunda parte do livro “Magician”, publicado em 1982, a primeira, Mago – Aprendiz, já teve a sua resenha publicada no blog onde expliquei um pouco melhor essa coisa de “Edição preferida do autor”. Tendo em mente que os dois livros eram um só não deixa a leitura mais confusa, nem mesmo fica evidente que foi dividido, isso foi bem feito e não altera de forma alguma a experiência do leitor, aliás, outra grande história de fantasia épica foi dividida por conta dos editores, foi O Senhor dos Anéis, embora hoje em dia não seja difícil de encontrar a história publicada em volume único, no entanto, obviamente, Mago foi dividido anos após a sua publicação original e SdA já foi dividido em 3 volumes direto para a sua publicação. É bom lembrar que há espaçamentos grandes de tempo durante a história e isso foi um ponto perfeito para essa transição da primeira metade para a segunda.

Alguns anos se passam desde o fim do primeiro livro, Pug, agora escravizado pelo povo tsurani, acaba tendo que se adaptar a essa nova realidade para sobreviver as difíceis condições as quais foi submetido, aprendendo o idioma e os costumes locais, além da sua posição nesse novo mundo, o que na condição de escravo é basicamente obedecer e ser servil para não apanhar ou morrer pelas mãos de seus captores. Em Kelewan, o mundo dos tsurani, ele acaba fazendo amizade com Laurie, um trovador midkemiano, que assim como Pug foi capturado e escravizado. Ambos são mandados para trabalhar na propriedade de um senhor de uma família importante em Kelewan e lá aprendem um pouco mais da estrutura política e social desse povo – e deixa ainda mais claro as inspirações do autor nas culturas dos povos orientais e da América Central-, mas eles também acabam ensinando os seus novos senhores sobre alguns dos costumes de sua terra natal. Em Kelewan os magos estão à margem da lei, podendo fazer praticamente de tudo e são reverenciados e temidos por toda a população, sendo conhecidos nesse mundo como “Grandes”. Um desses magos percebe em Pug um forte poder mágico e o leva para ser treinado para que possa futuramente servir o Império como mais um de sua ordem.

“-Não é uma lei, é uma tradição. Neste mundo, meu amigo bárbaro, a tradição e os costumes podem constituir uma amarra mais forte do que a lei. As leis vão sendo mudadas, mas a tradição continua.”

Em Midkemia o foco fica mais voltado para dois personagens, Arutha tendo de se desdobrar na política em Krondor, e Tomas, com a magia ancestral da armadura que aos pouco vai mudando o rapaz, fisicamente e psicologicamente. Também são mais destacados os jogos de poder em Midkemia, com o rei ficando cada vez mais louco e paranoico e com isso o barão de Bas-Tyra aproveita-se dessa oportunidade para ter mais controle e ascender em poder, o que pode levar o reino a uma guerra civil. Também vale destacar que Macros, o Negro, o misterioso mago que já havia aparecido ganha mais destaque, com mais mistérios em torno desse personagem que certamente serão explorados mais adiante na série.

“- Onde termina o dever e começa a ambição pessoal? Onde termina a justiça e começa a vingança?”

Já dá pra notar que um tema recorrente são as transformações que os personagens passam, seja a transformação proveniente do crescimento dos garotos para homens, do Pug passando de um aprendiz de mago para um mago mestre, do Tomas influenciado pela magia da armadura, do Arutha tendo de lidar com a política e também do Lyam com os fardos que ele deve suportar, tanto em sua consciência como do próprio comando dos exércitos. A transformação também se dá nas relações entre Midkemia e Kelewan com a intensificação da guerra entre os dois mundos e com uma conspiração que trama uma possível negociação de paz.

 “- Existem muitas formas de amar alguém. Às vezes, desejamos tanto o amor que não somos exigentes com quem amamos. Outras vezes, transformamos o amor em uma coisa tão pura e tão nobre que nenhum pobre ser humano poderá corresponder a tal visão. Porém, na maior parte das vezes, o amor é um reconhecimento, uma oportunidade de dizer: “Tem algo em você que eu aprecio. Não quer dizer casamento, nem sequer amor físico. Há o amor aos pais, o amor à sua cidade ou à sua pátria, o amor à vida e o amor às pessoas. É tudo diferente, é tudo amor.”

O amadurecimento de Pug se dá rapidamente com o entendimento de sua nova realidade como escravo, dos anos sob provações físicas em lugares insalubres e de castigos, tendo de entender depressa como aquele mundo funciona. Após anos estudando para se tornar um mago mestre, tendo de passar pelo treinamento na Torre da Provação – uma das partes mais legais do livro diga-se de passagem-, ele ganha a sabedoria e o conhecimento para se tornar um “grande”, porém mesmo se tornando um mago em Kelewan alguns de sua ordem não confiam nele pela sua origem “bárbara”. Pug, agora conhecido por Milamber, realmente se torna alguém entre dois mundos, sendo um ponto de ligação entre ambos, com amor pela sua terra natal com seus amigos, e um amor pela terra de sua esposa e pelo Império Tsuranuanni. Novo lar, nova realidade, novas ameaças, um novo Pug.

“Era um ser pertencente a dois mundos, mundos unidos pelo grande portal. Enquanto esses mundos estivessem ligados, extrairia poder de ambos, o dobro de poder disponível para os outros mantos negros.”

Outro personagem que chama a atenção é Tomas, cada vez mais ligado a magia da armadura que pertencia a uma antiga raça conhecida como valheru, os Senhores dos Dragões. Tomas vai ficando mais imerso nas recordações cada vez mais vívidas que a armadura lhe impõe, vivenciando outra época junto com a sua, porém ao mesmo tempo deixando de viver de fato em seu próprio tempo. Ele sente o choque entre duas personalidades, a sua própria e a do antigo possuidor da armadura, Ashen-Shugar. Vivendo dois tempos diferentes Tomas acaba perdendo-se cada vez mais, deixando aos poucos de ser ele mesmo e passando a se tornar um pouco mais Ashen-Shugar, intensificando essa ligação entre os dois que atravessa tempo e espaço, embora ele também interfira na personalidade de Ashen-Shugar no passado, modificando o guerreiro de eras anteriores. Os dois vão se mesclando em uma coisa só, um sendo parte do outro, ganhando algo, mas também perdendo alguma coisa de si. Enquanto isso o poder de Tomas cresce e ele se torna temido entre inimigos e amigos, e acaba por se relacionar com a rainha élfica, porém gerando uma tensão no povo de Elvandar pelo fato de verem nele a sombra do povo que os escravizara há incontáveis anos, o que ainda instiga pavor entre os que se lembram desse tempo. A disputa interna de Tomas pelo seu verdadeiro eu, e principalmente as visões e os diálogos que ele tem com Ashen-Shugar também são pontos fortes nessa trama.

Um ponto positivo foi a adição do mapa no próprio livro, o que ajuda bastante a entender melhor a história, já que a todo momento a geografia de Kelewan é citada, porém poderia ter também o de Midkemia.

Como disse, os dois primeiros livros foram originalmente publicados como um só, e possuem um enredo fechado tendo uma conclusão nesse livro, porém, como era de se esperar já que a Saga do Mago é bem grandinha, há a possibilidade de continuação da história com outras aventuras, explorando mais desses dois mundos e dos próprios personagens em si, continuando com o próximo volume “Espinho de Prata”. O mundo de Midkemia é deixado ainda mais aberto com a revelação de dois novos continentes desconhecidos pelos povos do reino, sendo estes os continentes de Novindus e Wiñet, enquanto as aventuras passadas no “mundo conhecido” até agora só estavam encerradas no continente conhecido como Triagia, traçando um paralelo com o mundo real é como se de repente os europeus descobrissem um mapa da América e da Oceania antes das épocas das grandes navegações. Agora é ler o próximo livro para ver o que vai sair daí, a história é boa, os personagens ficam cada vez mais carismáticos, apesar de ainda se manter um ar meio infanto-juvenil, o que já ficou menos evidente com o amadurecimento dos protagonistas. Fica a expectativa para o próximo da saga para ver se a escrita ficou mais refinada, afinal Espinho de Prata é o segundo livro de fato do autor, melhorando esse ponto acho que há a possibilidade dessa ser realmente uma fantasia épica memorável.


Saga do Mago:

Mago – Aprendiz

Mago – Mestre

Espinho de Prata

As Trevas de Sethanon

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8 comentários sobre “Mestre (Saga do Mago Vol.2) – Raymond E. Feist

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